Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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EUA. Graças às políticas adequadas adotadas pelo governo brasilei-
ro, o país conseguiu superar os efeitos da crise rapidamente. Não 
foi exatamente o que ocorreu com a Rússia, onde os impactos da 
crise internacional foram muito sentidos, apesar das medidas es-
pecíficas adotadas pelo governo para socorro de suas empresas e 
bancos11. Embora se amplie o arco de suas contribuições para além 
da questão financeira, para envolver questões de saúde, agricultu-
10 A Cúpula de 2009 aconteceu em Ecaterimburgo, Rússia; a Cúpula de 2010, em Brasília, Brasil; e a 
Cúpula de 2011, em Sanya, China.
11 POMERANZ, Lenina. \u201cRússia: mudanças na estratégia de desenvolvimento pós-crise?\u201d. In: PINELI 
ALVES, André Gustavo (org.). Uma longa tradição: vinte anos de transformações na Rússia. Brasília: 
IPEA, 2011.
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional
ra, energia, meio ambiente e igualdade, entre outras, indiscutivel-
mente a preocupação com a governança do sistema financeiro mar-
cou a criação do grupo como tal. São significativas as conclusões a 
que chegaram os Chefes de Estado e de Governo na Cúpula reali-
zada em 2009: as primeiras quatro delas (dentre as quinze acorda-
das) referem-se à questão financeira, enfatizando o papel central 
das Cúpulas do G20 para a solução da crise financeira. Espera-se, 
nesse sentido, que a Conferência da ONU acerca da crise financei-
ra e econômica mundial e seus impactos sobre o desenvolvimento 
alcance resultado positivo, comprometendo-se com o avanço da 
reforma das instituições financeiras internacionais e definindo os 
princípios nos quais deveria apoiar-se a reforma da arquitetura fi-
nanceira e econômica. A ênfase na questão financeira continuou 
nas Cúpulas de 2010 e 2011, mas cedeu lugar, nesta última, an-
tes da explosão da crise europeia, às questões da segurança e da 
paz internacional, em função da \u201cpreocupação com a turbulência 
no Oriente Médio, no norte e no oeste da África\u201d, assim como da 
\u201cquestão da Líbia\u201d. A solução para esta última deveria ser encon-
trada por meios pacíficos e a partir do diálogo com a ONU, expres-
sando o grupo, igualmente, apoio ao Painel de Alto Nível da União 
Africana sobre a Líbia. 
Com o agravamento da crise financeira na Europa, casada com 
a crise política que assola o continente, a questão do sistema finan-
ceiro voltou à tona, ainda que sem deixar de considerar as questões 
da segurança e da paz internacional, como se pode constatar pela 
realização em Nova York, em setembro de 2011, de reunião entre 
os Ministros das Relações Exteriores dos países do grupo BRICS, 
que se focou nas situações na Síria e na Líbia.
Ambas estas questões estão atualmente no centro da arena 
internacional. A partir do que se pode depreender das conclusões 
consensuais a que chegaram as Cúpulas dos líderes dos BRICS já re-
feridas, tais preocupações podem ser, sim, objeto de uma atuação 
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Lenina Pomeranz
acordada entre esses países, especialmente quando são recorrentes 
as análises sobre a falta de liderança política nos países mais desen-
volvidos para o enfrentamento da crise financeira na zona do euro. 
Dois fatos indicam que uma ação articulada para influir na busca de 
soluções para a crise pode ser desenvolvida: por um lado, a concla-
mação dos líderes europeus aos países emergentes, especialmente 
os BRICS, no sentido de contribuírem com recursos de suas reser-
vas para socorrer os países endividados; e, por outro lado, o fato de 
já terem sido acordadas propostas de atuação no G20 e de elevação 
da responsabilidade dos países dos BRICS, por meio de uma maior 
participação no FMI, proporcionada pela elevação de suas quotas 
neste organismo. A questão está em discutir as alternativas sobre 
a mesa, aproveitando as experiências das crises de endividamento 
vividas pelos países da América Latina e levando em consideração 
a crise social e política já provocada pelas medidas de austerida-
de propostas para os países europeus menos desenvolvidos e não 
só para eles, como testemunham as violentas demonstrações da 
parcela menos favorecida da população no palco londrino. Deve-se 
assinalar, neste sentido, que crescem notavelmente as análises de 
conhecidos especialistas econômicos, insistindo no caminho do 
desastre e do fracasso dessas medidas.
A atuação no plano da segurança e da paz internacional tam-
bém pode ser articulada, ainda que se apresente com mais dificulda-
des. Embora acordados em atribuir um papel relevante ao Conselho 
de Segurança da ONU neste plano, existem interesses conflitantes 
em relação à composição deste Conselho e à reforma do organismo. 
Não obstante disponham alguns países do grupo BRICS de arma-
mento nuclear e exista posição de consenso entre eles a propósito de 
se buscar solução pacífica e negociada dos vários conflitos irrompi-
dos pelo mundo, o grupo não parece ainda dispor do poder político 
necessário para fazer-se ouvir. De todo modo, a articulação da atua-
ção dos BRICS neste plano também pode e deve ser feita. 
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional
O Brasil atribui bastante importância ao grupo BRICS e a uma 
atuação concertada dos países que o compõem no âmbito do G20, 
com vistas à promoção do crescimento econômico como meio de 
sair da crise e à busca de soluções pacíficas e negociadas para os 
conflitos internacionais. Isso pode ser constatado pela multipli-
cação de eventos internacionais de que participa com os demais 
membros do grupo. É louvável, por sua vez, a precaução com que 
se manifestam as autoridades brasileiras frente aos conflitos mais 
recentes, especialmente no corrente caso da ameaça de um ataque 
militar às instalações nucleares do Irã. 
A Rússia, por sua vez, também atribui uma importância muito 
grande ao agrupamento. Em comunicado emitido para a imprensa 
sobre a reunião dos Ministros das Relações Exteriores dos países- 
-membros dos BRICS, realizada em setembro, em Nova York, o Mi-
nistro das Relações Exteriores da Rússia expressa sua satisfação 
com o alto nível da interação existente entre os integrantes dos 
BRICS no âmbito da ONU, caracterizado pela coincidência ou pro-
ximidade de posições em um amplo espectro de questões da agen-
da internacional. Segundo o comunicado, a Rússia atribui enorme 
importância ao desenvolvimento da interação com os parceiros 
dos BRICS no âmbito do G20: o país considera a participação nos 
BRICS um dos principais impulsionadores de sua política externa e 
pretende contribuir ativamente para o fortalecimento desta asso-
ciação. Na prática, esta disposição se expressa não só no apoio aos 
eventos organizados pelo grupo: por exemplo, a instituição recen-
te, junto ao Ministério das Relações Exteriores, de um Conselho 
Científico junto ao Comitê Nacional de Pesquisas sobre os BRICS 
(CNPB), constituído como uma organização não governamental 
(ONG), com representantes da Academia de Ciências da Rússia 
e da Fundação Rossiiskii Mir, para coordenar todos os estudos e 
pesquisas realizadas no país sobre o papel dos BRICS e de outras 
potências emergentes na política e na economia mundiais, assim 
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Lenina Pomeranz
como para promover a posição russa e elaborar avaliações de espe-
cialistas sobre o cenário internacional.
Os êxitos e as dificuldades de articulação de uma atuação coor-
denada dos países integrantes dos BRICS a respeito dos dois temas 
mencionados mereceriam uma análise mais acurada, seja no âmbi-
to do Itamaraty, seja no âmbito acadêmico. No entanto, mesmo no 
plano em que estão sendo considerados neste texto, permitem res-
ponder positivamente à questão que nele se pretendeu considerar. 
Tabela - Correntes de comércio entre os Países do grupo BRICS 
(% em relação às correntes totais de cada país indicado nas 
linhas)
Brasil China Índia Rússia Afr. Sul
Brasil (1) xxx 16,6 1,98 1,62 0,55 (2)
China (3) 3,6 xxx 3,7 3,3 1,4
Índia (4)