Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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que envolvem questões tarifárias, não tarifárias, além de 
atuação de estatais nos mercados de destino. Apesar disso, é neces-
sário dirimir o desequilíbrio no valor agregado entre produtos ex-
portados e importados pelo Brasil aos demais membros dos BRICS. 
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O Brasil, os demais BRICS e a agenda do setor privado
Uma alternativa seria a utilização do acesso ao mercado brasileiro 
como moeda de troca em futuras negociações para a entrada de 
produtos de interesse brasileiro na China, Índia, Rússia e África 
do Sul.
A ampliação de Acordos Preferenciais de Comércio já nego-
ciados, como nos casos de Índia e África do Sul (via União Adua-
neira da África Austral \u2013 SACU, formada pela África do Sul, Namí-
bia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia), poderia resultar em efeitos 
concretos para a diversificação comercial pretendida. Além disso, 
reforçaria a participação dos outros países dos BRICS na pauta co-
mercial do Brasil.
BiBlioGraFia
BAUMANN, Renato. O Brasil e os demais BRICs, Comércio e Política. 
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ponível em: <http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/65560_
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no Brasil).
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relações ComerCiais e de 
investimentos do Brasil Com os 
demais Países dos BriCs
Márcio Pochmann
Presidente da Fundação Perseu Abramo. Foi presidente do Ins-
tituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) de 2007 a 2012. 
Economista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do 
Sul, com especialização em ciências políticas e em relações do traba-
lho. É doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas 
(UNICAMP). Docente da Unicamp desde 1995, Pochmann é profes-
sor livre-docente licenciado na área de economia social e do trabalho 
e também pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Econo-
mia do Trabalho da UNICAMP desde 1989. Foi diretor executivo do 
centro entre 1997 e 1998. Também já foi consultor do Departamen-
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Marcio Pochmann
to Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEE-
SE), do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas 
(SEBRAE) e de organismos multilaterais das Nações Unidas, como 
a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Foi ainda secretá-
rio municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São 
Paulo entre 2001 e 2004. Já escreveu e organizou mais de 30 livros, 
entre eles A década dos mitos, vencedor do Prêmio Jabuti na área de 
economia em 2002, e a série Atlas da exclusão no Brasil.
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1. introdução
O acrônimo criado em 2001 no Global Economics Paper nº 66 (\u201cBuilding Better Global Economic BRICs\u201d) da agência Goldman Sachs e popularizado em 2003, no artigo nº 99 
da mesma série, com o título \u201cDreaming With BRICs: The Path to 
2050\u201d, repete-se como mantra e ainda causa estranheza por cada 
um dos países que compõem as desejadas letras do proclamado 
novo centro dinâmico do crescimento mundial. Alguns tentaram, 
em vão, retirar um ou outro país da sigla, como no artigo \u201cTaking 
the R out of the BRIC\u201d, da agência Knowledge Wharton, publicado 
em 2010; mas, por ora, o grupo tem-se expandido e atualmente é 
composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS).
A importância desse jogo de letras para os Estados, as agên-
cias e para todos os interessados em negócios internacionais é que 
isso expressa um deslocamento fundamental da dinâmica de acu-
mulação global para países antes considerados secundários (ou do 
antigo \u201csegundo mundo\u201d socialista) às decisões transacionais de 
investimento. A evidência desse fenômeno é o crescimento da de-
manda global, que se concentrou nos BRICS nos últimos anos, so-
bretudo durante e depois da crise internacional. No período entre 
2008 e 2009, em meio às turbulências da crise financeira interna-
cional, o grupo explicou 2/3 do crescimento da demanda global, 
com a expectativa de que sigam contribuindo de maneira majoritá-
ria para os próximos dez anos.
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Marcio Pochmann
Esse deslocamento relativo da demanda global teve impor-
tante papel no período da crise financeira, pois o rebatimento dos 
efeitos da recessão nos países centrais, especialmente nos EUA e 
na União Europeia, foi rapidamente absorvido pelos BRICS, sem 
grandes perdas de dinamismo1. 
Nota-se, no entanto, que o protagonismo chinês nos BRICS é 
inconteste, em termos de contribuição à demanda global, e apro-
fundou-se com a crise de 2008. Seguida, em ordem decrescente de 
importância, por Índia, Rússia, Brasil e África do Sul, a China re-
presenta a locomotiva não apenas para o crescimento global, mas 
também para esse grupo dinâmico da acumulação capitalista; é, 
em outras palavras, o centro dentro desse novo centro. Isso tem 
implicações profundas sobre a estabilidade do grupo. As grandes 
assimetrias de tamanho entre a China e os outros países trazem 
limites e possibilidades às relações entre o Brasil e os BRICS que 
precisam ser explicitados. Para isso, ver-se-ão brevemente a seguir 
as relações comerciais e de investimento entre Brasil e os países 
dos BRICS, e quais são as oportunidades e riscos para o Brasil.
2. as relações Bilaterais de ComérCio
2.1 Brasil-Rússia 
As relações comerciais entre Brasil e Rússia têm patamares 
pouco significativos em termos de volume. Apesar de a exportação 
brasileira ter decuplicado entre 2000 e 2008, passando de US$ 423 
milhões para US$ 4,6 bilhões, este montante caiu com a eclosão da 
crise econômica de 2008, para US$ 2,8 bilhões em 2009. Em 2010 
houve uma recuperação, alcançando US$ 4,1 bilhões. Em termos 
relativos, a participação das exportações brasileiras para a Rússia 
1 Exceto a Rússia, que foi o único país dos BRICS a enfrentar uma recessão aprofundada em 2008/2009, 
mas que rapidamente se recuperou no período seguinte.
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Relações comerciais e de investimentos do Brasil com os demais países dos BRICS
oscilou entre 2 e 2,5% durante todos os anos. Nota-se uma eleva-
da concentração da pauta de exportação, cujos principais produtos 
são a carne (produto primário) e o açúcar (produto intensivo em 
recursos naturais). As importações brasileiras de produtos russos, 
por sua vez, concentram-se em produtos de média tecnologia e 
mantiveram-se relativamente estáveis até 2005, passando então 
a crescer de maneira rápida até 2008, quando alcançaram US$ 3,3 
bilhões; tiveram um aumento surpreendente depois da crise, su-
perando 7% em 2009 e 5% em 2010. A pauta de exportação tem 
forte participação dos produtos primários e intensivos em recur-
sos naturais (90% em 2000), e as importações