Brasil e os BRICS
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África do Sul) e o G21 (grupo integrado por paí-
ses em desenvolvimento e liderado por Brasil, México, Argentina, 
África do Sul, Índia e China), para restringir o poder das grandes 
potências estabelecidas\u201d12. Não é nunca um desafio direto, por 
meios militares, às potências e se exprime por instrumentos, como 
a negação territorial (recusa da passagem de forças militares dos 
12 FLEMES, Daniel. O Brasil na iniciativa BRIC: soft balancing numa ordem global de mudança?. RBPI, 
vol. 53, nº 1, jan./jul. 2010.
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BRICS: notas e questões
EUA pelo território, instalação de bases etc.), como a \u201cdiplomacia 
abrangente\u201d (\u201centangling\u201d em inglês), que coloca obstáculos a que 
se legitimem visões americanas sobre guerra preventiva, mudança 
de regime, como o reforço da coesão econômica para conseguir au-
mento de influência em organismos e regimes econômicos (como 
o FMI, a Organização Mundial do Comércio \u2013 OMC etc.)13. O soft 
balancing não implica necessariamente distância da potência que 
se quer limitar, e a resistência se combina com processos de apro-
ximação14.
Se segmentarmos a agenda, os BRICS, com o soft balancing, 
já constituem, portanto, as fundações de um mundo multipolar. 
Nessa perspectiva, não é preciso que eles tenham alguma unidade 
de propósito. As vantagens que conseguem dependem das hipó-
teses de coalizão que não obedeceriam a um \u201cplano geral\u201d. Alguns 
analistas vão, porém, adiante. Sem negar as diferenças internas, 
Skak faz uma análise comparativa do comportamento individual 
de soft balancing dos BRICS e chega à conclusão de que \u201c[\u2026] there 
are certainly significant elements of soft balancing in the security policy 
considerations and conduct of all four BRICS \u2013 so yes, Hurrell would 
seem to be right when positing the BRICS to be united in a common 
strategic culture as soft balancers\u201d15. Hurrell, que Skak menciona, faz 
uma análise sofisticada da unidade e da diferença entre os países 
do grupo e, entre os pontos que sublinha, está a importância que 
13 Flemes lembra que: \u201cNa conferência da OMC de 2004, em Genebra, Brasil e Índia foram convidados 
para integrar-se ao grupo de preparação denominado G5 juntamente com a União Europeia, os EUA 
e a Austrália. Na cúpula do G8 (agrupamento formado pelos países do G7, com participação adicio-
nal da Rússia) na Alemanha em 2007, Brasil, Índia e China (com a África do Sul e México) foram con-
vidados para formalizar seu diálogo com o clube elitista dos países mais industrializados, por meio do 
chamado Processo de Heiligendamm ou processo 0-5.\u201d Flemes ainda nota a importância dos BRICS 
no G20, que, a seu ver, substituirão gradualmente o G8 nas questões econômicas, relegando para este 
os problemas de segurança. 
14 São as chamadas estratégias de binding, como os acordos Brasil-EUA na área de biocombustível, a coo-
peração EUA-Rússia no combate ao terrorismo, o financiamento chinês do déficit norte-americano etc. 
15 STAK, Mette. The BRICS as actors in world affairs: soft balancing or...?. IPSA-ECPR Joint Conference 
hosted by the Brazilian Political Association at the University of São Paulo, fev. 2011.
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aqueles países dão às instituições internacionais. Por várias razões. 
Em primeiro lugar, as instituições podem constranger os mais po-
derosos por meio de regras e procedimentos estabelecidos. Em 
suas palavras: 
O objetivo é acorrentar Gúliver de todas as formas possí-
veis, independentemente de quão finas as amarras possam 
ser. Não é surpreendente, portanto, que Brasil e Índia sejam 
o quarto e quinto países que mais ativamente reclamem no 
mecanismo de solução de controvérsias da OMC. Tampouco 
é especialmente curioso que Brasil, China e Índia desejem 
usar as instituições internacionais para resistir a tentativas 
norte-americanas de promover novas normas sobre o uso da 
força, questionar o princípio da soberania, usar a força para 
forçar mudanças de regime16. 
Hurrell chama atenção para outros fatores que dariam unida-
de aos países dos BRICS ao centrar-se na importância que todos 
confeririam às instituições multilaterais, que oferecem uma \u201cvisi-
bilidade e uma oportunidade de voz que permite aos países fracos 
tornar públicos seus interesses e angariar apoios\u201d17. A ascensão dos 
BRICS poderia significar, portanto, multipolaridade com reforço 
do multilateralismo.
É possível dizer que Hurrell tem uma visão quase positiva da 
perspectiva de influência crescente do grupo. Não deixa de anotar, 
contudo, as dificuldades para a criação de uma identidade comum, 
exatamente porque os membros vivem uma ambiguidade essen-
cial, a de combinar a condição de aspirante à potência e a perma-
nência do sentido de vulnerabilidade característico de países em 
desenvolvimento. É isso que não permite concluir qual será o 
16 HURRELL, Andrew. \u201cHegemonia, liberalismo e ordem global: qual é o espaço?\u201d. HURRELL, A. et alii. Os 
BRICS e a ordem global. Rio de Janeiro: FGV, 2009, p. 27.
17 Ibidem, p. 28.
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comportamento futuro do bloco, se aceitariam ou não a ordem li-
beral globalizada, que capacidade têm de propor projetos alterna-
tivos, que grau de autonomia conseguiriam manter no processo.
É interessante contrastar a visão de Hurrell com a do cientista 
político francês Zaki Laïdi, que adota uma perspectiva mais crítica 
quando discute o que seria a intenção comum aos países do grupo 
no sistema internacional. Para ele, o que dá unidade aos BRICS, 
que chama de \u201ccartel de soberanistas ambiciosos\u201d, é 
[...] erodir a pretensão hegemônica do Ocidente sobre o 
mundo por meio da proteção do princípio que, a seus olhos, 
lhes parece o mais ameaçado por ela: a soberania política 
dos Estados. Os BRICS não aspiram a constituir uma coali-
zão política antiocidental sustentada por um contraprojeto 
ou uma visão radicalmente diferente. Mas eles estão preo- 
cupados em manter sua autonomia de julgamento e ação 
em um mundo cada vez mais interdependente [...]18. 
Uma das consequências da atitude soberanista é a distância 
entre os membros dos BRICS e a visão liberal dos ocidentais quan-
do se trata, por exemplo, de limites à soberania como os determi-
nados pela responsabilidade de proteger ou por intervenções para 
mudança de regime (e o exemplo da relutância do grupo em admi-
tir qualquer intervenção externa durante a primavera árabe seria 
sintomático). A observação não escapou a Hurrell, que a deixou 
em aberto. Laïdi a vê de maneira mais negativa, como se a arqui-
tetura do projeto liberal estivesse pronta e não contivesse limites 
e contradições. Laïdi esquece, por exemplo, que, para as potências 
ocidentais, o problema da soberania não está ancorado em inter-
pretações e atitudes uniformes. De fato, a perspectiva de Laïdi re-
presenta uma visão idealizada do comportamento das potências 
18 LAÏDI, Zaki. O cartel dos soberanistas ambiciosos. Edição mimeografada, inédita, 2011.
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ocidentais. A relutância dos EUA em aceitar o Tribunal Penal In-
ternacional (TPI) é um dos exemplos notáveis do soberanismo das 
potências, como também o é a resistência a mecanismos de veri-
ficação dos países que dispõem de armas nucleares, ou a intransi-
gência europeia nas questões agrícolas da Rodada Doha. 
Para confirmar suas opiniões, Laïdi procura medir as dife-
rentes perspectivas de cada um dos membros sobre a coalizão e a 
dificuldade de encontrar pontos reais de ação comum (mesmo no 
caso das finanças, ele anota a falta de unidade no caso da sucessão 
de Strauss-Khan como um exemplo da \u201cfraqueza\u201d dos BRICS). Ele 
deixa, porém, duas questões fundamentais para situar os BRICS 
nos processos de governança global. A ascensão dos BRICS é um 
sinal da multipolaridade na ordem internacional, mas não define 
de que tipo de multipolaridade estamos tratando. A existência de 
polos