Educação Física   Raízes Européias e Brasil   Carmen Lucia Soares
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Educação Física Raízes Européias e Brasil Carmen Lucia Soares


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juntamente com as politicas de saude em suas expressoes higienista
e sanitarista, completam o cerco ao trabalhador.
Particularmente no ambito da Instituigao Escolar, interessa-nos
analisar como um determinado conteiido - o exercicio fisico - vai
sendo construido a partir de conceitos medicos. Neste sentido, e
importante saber como ele contribui para veicular, entre outras, a
ideia da saude vinculada ao corpo biologico, corpo a-historico, nao
determinado pelas condigoes socials que demarcam o espago que
ira ocupar na produgao... corpo de um "bom animal".
A expansao da escola primaria juntamente com as medidas
sanitarias de intervengao no meio fisico e com a pedagogia da "boa
higiene" atraves de suas "regras de vida saudavel", constituiram-
se em mecanismos de controle social e de difusao de um saber pro-
prio de uma classe - a burguesia, pois, como assinala A. Ponce,
a educagao e urn processo mediante o qual as classes dominantes
preparam na mentalidade e na conduta das crlangas as condigoes
fundamentals de sua proprla exlstencia [...] a educagao nao e um
fenomeno acidental dentro de uma sociedade de classes [PONCE,
1986, pp. 169-177].
Concordamos com A. Ponce e reafirmamos que a educagao nao
e um fenomeno isolado das demais politicas socials. Nao ocorre por
EM NOME DA SAUDE DO CORPO SOCIAL... 35
acaso, descuido ou acidente. Ela Integra de modo organico as for-
mas de difusao de uma determinada mentalidade, homogeneizan-
do as vontades, os habitos e criando uma certa coesao social.
Calcado no liberalismo, aqui entendido como liberdade de pen-
samento e agao individual em oposigao a agao social organizada, o
fenomeno educacional e a escola - como espago institucionalizado
para sua difusao - vao adquirir diferentes contornos em fungao dos
interesses de classe no poder. Isto porque o liberalismo, como ideo-
logia que da sustentagao a burguesia, nao foi sempre o mesmo em
seu processo de estruturagao e difusao. Ele foi progressivamente
se alterando e ajustando-se as necessidades que se colocavam como
expressao do avango e da consolidagao do capitalismo na Europa:
seja para dirigir a luta de toda a sociedade para derrubar a antiga
ordem (aristocracia, clero), seja para criar condigoes subjetivas de
aceitagao da nova ordem politica, economica e social, identificada
pelos Ideals de progresso, liberdade, democracia e desenvolvimento.
Os direitos basicos que aparecem nas declaragoes revoluciona-
rias norte-americanas e francesas dos seculos XVIII e XIX, tais
como: o direito a liberdade de trabalho, de crengas, de expressao
de pensamento e de justiga, direito que engloba os demais e afir-
ma o carater juridico como dominante, sao armas burguesas na
contestagao da ordem existente (o antigo regime).
A sociedade igualitaria apregoada pela burguesia revoluciona-
ria estabelece-se apenas por principio juridico de direito, mas nao
de fato. Mesmo porque igualdade nao significa, de modo algum,
igualdade material, uma vez que os direitos fundamentals sao in-
dependentes do status ou fungao social. Para o pensamento liberal
classico, os homens nao sao iguais em seus "talentos" e "capaclda-
des individuals", logo, nao o poderao ser em relagao as riquezas ma-
terials, porque estas nada mais sao do que a recompensa de seus
talentos.
Sendo todos os homens dotados, individual e naturalmente, de
talentos e vocagoes, sua posigao na sociedade sera determinada pela
sua condlgao individual/natural, independentemente da classe
social ou credo religioso a que pertengam.
A educagao escolar, na fase em que a burguesia e ainda clas-
se revoluclonaria, preocupar-se-a com esse homem abstrato, uni-
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versal e natural, procurando desenvolver nele suas aptidoes, ta-
lentos e vocagoes, para que, a partir desse desenvolvimento, ele
possa participar da vida em sociedade na exata proporgao de seus
valores intrinsecos. Desse modo, a educagao escolar estara con-
tribuindo para a justiga social, uma vez que, com base no merito
individual e nao mais no nascimento ou fortuna, levara a socie-
dade a ser hierarquizada.
Uma sociedade hierarquizada, com individuos desempenhan-
do fungoes absolutamente distintas na produgao, era uma neces-
sidade do capitalismo - um modo de produgao que cria necessida-
des. A instrugao do povo era uma delas, uma vez que os avangos
da industria e das novas tecnicas introduzidas no maquinario exi-
giam um minimo de instrugao. Para manejar o instrumental do seu
tempo, o operario ou o campones deveriam dominar os rudimentos
da leitura e ser instruidos de acordo com a fungao "natural" para a
qual estavam destinados.
A ideologia das aptidoes naturals, dos talentos, das capacida-
des circunscritas ao ambito do individual-hereditario-biologico,
estava na base das concepgoes educacionais do final do seculo XVIII
e inicio do seculo XIX. Estas concepgoes, embora apresentem al-
gumas diferengas em suas formulagoes, na sua essencia postula-
vam uma educagao de classe. E e nelas que vamos encontrar a
preocupagao com a "Educagao Fisica".
Vejamos como se expressam, nos diferentes paises da Europa,
pensadores socials da epoca - aqueles que formularam as bases da
educagao liberal.
A referenda aos pensadores liberals classicos coloca-se como
fundamental para este trabalho, uma vez que sao as suas ideias
sobre a Educagao Fisica que irao servir de base filosofica e peda-
gogica para o seu desenvolvimento ao longo dos seculos XVIII e XIX.
John Locke (1632-1704), teorico politico liberal ingles, e aque-
le pensador que "de fato" reconhecia a igualdade "de direitos" en-
tre os homens, fossem eles ricos ou pobres. Entretanto, para ele, a
ordem social ja se encontrava estabelecida: existem ricos e pobres.
Sendo assim, a instrugao que cada um deveria receber correspondia
ao que fosse necessario para que esta ordem se mantivesse. Para
os ricos, a instrugao deveria ser de tal nivel que estes pudessem
"EM NOME DASAUDE DO CORPO SOCIAL..." 37
ser governantes do estado e bons administradores de seus nego-
cios particulares; para os pobres, a instrugao deveria ter por fina-
lidade desenvolver a obediencia, extremamente util para uma exis-
tencia virtuosa. Locke foi preceptor do neto de um conde, um jovem
gentleman, figura que sempre aparecia em suas formulagoes peda-
gogicas. E tendo por referenda esse jovem, Locke chegou a discu-
tir o conteudo da educagao, o qual deveria fornecer conhecimentos
mais uteis para a vida em sociedade.
O conteudo da educagao preconizado por Locke deveria incluir
o calculo, considerado util em escritorios, oficinas e ate mesmo em
outras circunstancias da vida cotidiana. Ele tambem achou por bem
aconselhar a introdugao da escrituragao comercial, conhecimento
necessario e bastante util para se obter uma correta nogao dos
gastos e conhecer seus limites. Alem do calculo e da escrituragao
comercial, os estudos da Geografia, Aritmetica, Historia e Direito
Civil deveriam completar o conteudo da educagao. Uma educagao
que deveria preparar tecnica e politicamente os quadros para a con-
solidagao de um outro Estado, um estado liberal no qual o livre co-
mercio e a livre produgao seriam garantidos.
Estas formulagoes de Locke sobre a educagao completavam o
conjunto de argumentos por ele utilizados na critica ao estado
monarquico absoluto, cuja existencia se converte em obstaculo ao
desenvolvimento das forgas produtivas necessarias a implantagao
de uma nova ordem politica, economica e social que, baseando-se
na liberdade, igualdade e prosperidade, consolida como natural a
acumulagao capitalista.
Segundo A. Ponce, a incorporagao dos conteudos propostos por
Locke a educagao do "jovem gentleman" indicava uma mudanga de
orientagao da nobreza em relagao aos negocios do Estado, uma vez
que
o comercio e a industria haviam dlminuido as distanclas que exis-
tiam entre o burgues e o nobre, haviam introduzido a necessidade
de novos metodos na educagao,