Educação Física   Raízes Européias e Brasil   Carmen Lucia Soares
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Educação Física Raízes Européias e Brasil Carmen Lucia Soares


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e, acelerando o processo cientifico,
minavam cada vez mais dogmas veneraveis. Mas, nao se tratava
apenas disso, eles afrouxavam cada vez os entraves que o feudalis-
mo impunha a sua propria expansao [...] [PONCE, 1986, p. 129].
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Era necessario, sobretudo, lutar contra todas as barreiras que
o feudalismo impunha. Liberdade de comercio, de crengas e de
ideias.
Particularmente no que se refere a liberdade de crengas e ideias,
a burguesia tinha como interlocutor a Igreja. Os seus dogmas se-
culares precisavam ser rejeitados, e assim, lentamente, tornar-se-
ia possivel para a burguesia separar a fe da lei.
Essa rejeigao a Igreja se expressa no conteudo da educagao que
a burguesia quer construir: uma educagao utilitaria, pratica, cola-
da as necessidades da industria e do comercio, uma educagao que
corresponda as necessidades da sociedade, enfim... que seja util
para a vida.
Para Locke, um aspecto importante da educagao cavalheires-
ca deveria ser incluido nessa nova nogao de educagao: o cuidado
com o corpo, que figurara nas concepgoes pedagogicas liberals, ga-
nhando maior destaque e sistematizagao na segunda fase do libe-
ralismo, fase da burguesia como classe contra-revolucionaria.
Se Locke interpretou as ideias pedagogicas da burguesia na
Inglaterra, Rousseau foi aquele que, na Franga, deu suporte aos
ideals de educagao sustentados pela Revolugao Burguesa de 1789.
As formulagoes teoricas de Rousseau contribuiram, de modo deci-
sive, para o desenvolvimento das ideias educacionais do fim do
seculo XVIII e do seculo XIX.
Grande teorico da democracia liberal, Rousseau, assim como
Locke, postulava uma educagao de elite, uma educagao para um
aluno ideal - o seu "Emilio" -,-um individuo suficientemente abas-
tado para poder manter um preceptor que o acompanhasse por
todos os lugares e que o orientasse em todos os momentos de sua
vida.
Nao havia em Rousseau uma preocupagao com a educagao da
populagao em geral, como tambem nao existe em suas formulagoes
pedagogicas a preocupagao com a preparagao da crianga para a sua
vida de adulto, no sentido de molda-la de uma determinada manei-
ra. Para ele, seria preciso ter em conta a crianga, fonte primeira da
educagao; suas necessidades, seus impulses e sentimentos esta-
beleceriam as linhas gerais do seu "vir-a-ser", um "vir-a-ser" que
ocorreria, evidentemente, com o auxilio inteligente do mestre.
r: "EM NOME DA SAUDE DO CORK) SOCIAL..." 39
Em seu Emilia, obra na qual coloca as suas impressoes sobre
a educagao da crianga e do jovem, Rousseau se refere a uma nova
maneira de se educar: exclui os estudos especulativos, evidencia a
necessidade de ensinar nao muitas coisas, mas aquelas que sao
uteis, condena o excesso de livros para as criangas, que, segundo
ele, matam a ciencla, advoga um maior contato com a natureza,
preconiza uma vida ao ar livre e a pratica de exercicio.
Tais postulates permitem-nos afirmar que em Rousseau esta
contida uma proposta de redescoberta da educagao dos sentidos.
Quanto a questao especifica da importancia dos exercicios fi-
sicos na educagao, Rousseau, como Locke, dedicou-lhe especial
atengao. Podemos afirmar que Locke, num primeiro momento, e
Rousseau, num segundo, fornecem os elementos essenciais que
serao desenvolvidos no seculo XIX sobre a necessidade e a impor-
tancia do exercicio fisico na educacao do homem. Nas paginas do
seu Emilio, Rousseau nao deixou de abordar os exercicios fisicos,
sugerindo que, se ha o desejo de cultivar a inteligencia da crianga,
e necessario cultivar as forgas que a regulam. Assim, o exercicio
continue do corpo tornara a crianga forte e saudavel, e, por conse-
qtiencia, ela sera inteligente e cheia de razao. Sugere ainda que e
preciso deixar a crianga correr, gritar, fazer, trabalhar, enfim, deixa-
la ser um ser de vigor, e prontamente o sera de razao (ROUSSEAU,
1990).
Os principios politico-democraticos formulados por Rousseau,
nos quais estao presentes a sua concepgao de Homem como ser
universal, liberado e pleno - o homem total que se expressa em
Emilio -, tiveram grande influencia sobre os educadores da epoca
e, particularmente, sobre as primeiras sistematizagoes da Educa-
gao Fisica.
Com Rousseau, de modo mais evidente que em outros pensa-
dores liberals, a questao do exercicio fisico ganha espago e passa a
ser uma preocupagao do estado burgues. Essa preocupagao e de
tal ordem que vamos encontrar mais tarde, com Leppelletier e Con-
dorcet, o exercicio fisico como parte integrante da formagao moral
e intelectual do cidadao.
Para o pensamento liberal, os exercicios fisicos fazem parte da
educagao. A educagao passa a ser considerada instrumento de
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ascensao social e pratica capaz de promover igualdade de oportu-
nidades.
A Franga revolucionaria constitui-se em espago onde a crenga
na educagao como pratica capaz de promover mudangas e radicali-
zada, transformando-se em propostas que, no limite, tornam-se leis.
A expressao desse radicalismo liberal com relagao a educagao
pode ser percebida atraves dos teoricos que vieram a participar de
modo mais direto na Revolugao Francesa, entre os quais o prota-
gonista mais significativo desta nova fase na Franga foi, sem duvi-
da, Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marques de Condorcet (1743-
1794).
Mesmo nao sendo um profissional da educagao, Condorcet dela
se ocupou, elaborando propostas praticas para a solugao dos pro-
blemas a ela inerentes. Para ele, as solugoes seriam efetivadas atra-
ves de um piano de ensino, que visava a construgao de um sistema
publico, gratuito e laico de educagao, cuja finalidade seria estabe-
lecer uma igualdade de oportunidades.
A laicizagao, a democratizagao e a politizagao da instrugao pas-
sam a ser objeto de discussoes politicas nas grandes assembleias
legislativas. As declaragoes revolucionarias na Franga e na Ameri-
ca trazem consigo a exigencia de uma instrugao universal.
Condorcet sera aquele que, com o advento da Revolugao Fran-
cesa, sera eleito, em 1789, deputado por Paris a Assembleia Legis-
lativa e sera encarregado pelo Legislative de redigir um projeto re-
lative a instrugao publica na Franga. Tres anos mais tarde, em abril
de 1792, o projeto de Condorcet torna-se famoso e conhecido como
Rapport sur ['instruction publique2.
Em seu projeto Condorcet concede ao Estado o poder de con-
trolar o ensino e o obriga a dar ao povo instrugao. Ele diferencia a
instrugao da educagao e enfatiza como dever do Estado a primeira,
deixando a segunda, mais voltada as crengas filosoficas, religiosas
e morals, a cargo dos padres.
Enfatizando a instrugao laica sob o dominio do Estado, o Mar-
ques acreditava que nenhum "talento" passaria despercebido, e que
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2. Sobre o assunto consultar E. Badinter e R. Badinter (1988).
todos os recursos, ate entao somente ao alcance dos ricos, estariam
agora ao alcance de todos. Difundindo as luzes, seria possivel mul-
tiplicar as descobertas cientificas e, desse modo, o poder do homem
sobre a natureza.
As ciencias deveriam tomar o lugar importante ate entao ocu-
pado pelas letras, e as faculdades de teologia deveriam ser supri-
midas, pois o estudo das ciencias e mais eficaz que o da filosofia
no combate aos preconceitos e a mesquinhez. A. Ponce observa que
"como orientagao geral, nao era possivel interpretar de melhor ma-
neira o espirito da burguesia nesse instante: cientifica, cetica e
pratica [...]" (PONCE, 1986, p. 140).
O espirito cientifico e pratico da burguesia revolucionaria, bem
interpretado por Condorcet, pode ser apreendido num dos objeti-
vos do seu Rapport:
Assegurar a cada um a cultura que desenvolvera plenamente os
diversos talentos pessoais. Para isto, e necessario que a instrugao
varie segundo a natureza e potencial, que ela se diversiflque, por
assim dizer, de acordo corn cada Individuo. E necessario, por outro
lado,