Educação Física   Raízes Européias e Brasil   Carmen Lucia Soares
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Educação Física Raízes Européias e Brasil Carmen Lucia Soares


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que ela seja proporcional ao tempo que cada um, segundo sua
situacao economica, possa dar aos estudos. E necessario entao
observar essas diferengas e estabelecer diversos graus de instru-
cao de acordo com elas, de modo que cada aluno os percorra, mais
ou menos segundo o tempo de que dlsponha e sua maior ou menor
facilidade de aprender [...] [apud CUNHA, 1980, p. 42].
Evidentemente, o tempo para percorrer os diferentes "graus de
ensino" e a "facilidade" para aprender nao eram iguais para todas
as criangas. Dai a necessidade de "adequar" o ensino em graus, de
modo a que todas as criangas tivessem acesso a algum grau, de acor-
do com os seus "talentos", o que, em outra perspectiva, nada mais e
do que classifica-las de acordo com a sua condigao de classe.
As escolas laicas, piiblicas e gratuitas que Condorcet propu-
nha para todos nao eram frequentadas por todos. Apenas a peque-
na e media burguesia tinha acesso a elas. As criangas do povo nao
as frequentavam por uma razao muito simples: precisavam traba-
Ihar para sobreviver.
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A proposta de Condorcet, nos moldes em que pensou a educa-
gao, nao foi a unica. Outros pensadores liberals tambern flzeram
projetos na mesma perspectiva.
Louis Michel Leppelletier de Saint-Fargeau (1760-1793), poli-
tico frances eleito em 1789 presidente do Parlamento de Paris e
deputado da nobreza nos Estados Gerais, elaborou, assim como
Condorcet, um Piano Nacional de Educagao, transformando-o em
projeto que foi votado no ano de 1793. Em seu piano, o sistema
nacional de educagao e concebido como pega-chave para o desen-
volvimento do novo regime politico e social. Pela educagao formar-
se-ia o homem novo, liberto das sujeigoes da antiga ordem e da for-
tuna de nascimento.
Assim como outros teoricos liberals de seu tempo, Leppelletier
fala da igualdade, gratuidade e obrigatoriedade do ensino e postu-
la a sua laicidade.
Em relagao ao conteudo educacional, sera Leppelletier o teori-
co que abrira espago para os exercicios fisicos em suas propostas
pedagogicas, as quais passam a ter carater de lei. Sobre os exerci-
cios fisicos, assim se expressa:
O objetivo da educagao nacional sera fortificar o corpo e
desenvolve-lo por meio de exercicios de ginastica; acostumar as
criancas ao trabalho das maos; endurece-las contra toda especie de
cansaijo, dobra-las ao jugo de uma dlsciplina salutar, formar-lhes
o coracao e o espirito por meio de instrugoes uteis; e dar conheci-
mentos necessaries a todo cidadao, seja qual for sua profissao [...]
[apud CUNHA, 1980, p. 43].
Esta seria a educagao capaz de formar homens completos, ne-
cessarios para desenvolver e aprimorar a nova sociedade e, portan-
to, deveria ser um "direito" de todos os cidadaos. Porem, as propos-
tas teoricas nao sao colocadas em pratica para todos, e este "direito"
mantem-se apenas no discurso, assim como a liberdade e a igual-
dade.
As propostas pedagogicas liberals refletem as contradigoes
do poder e a tomada deste mesmo poder em nome do Homem Uni-
versal.
Assim como a Franga, a Alemanha tambem busca criar as con-
digoes institucionais para educar o homem universal. Seus peda-
gogos foram formados e influenciados pelos ideais franceses, par-
ticularmente pelo naturalismo romantico de Rousseau e a educagao
de Emilio.
Johan Bernard Basedow (1723-1790), pedagogo alemao, cria,
em 1774, o Philantropinum, um estabelecimento de ensino para
aplicar em maior escala as ideias de Rousseau, filosofo que exer-
ceu grande influencia em seu pensamento pedagogico. O objetivo
do Philantropinum seria o de formar os cidadaos do mundo tornan-
do-os aptos a uma vida mats util e tambem mats feliz. Na historio-
grafia da Educagao Fisica, particularmente no trabalho de Aloisio
Ramos Accioly, Basedow figura como o pedagogo que criou
a primeira escola dos tempos modernos [que teve] um cunho pro-
fundamente democratico, pois seus alunos provinham indiferente-
mente de todas as camadas socials. Foi tambem a primeira escola
a incluir a ginastica no curriculo, no mesmo piano das materias cha-
madas teoricas ou intelectuais [ACCIOLY, 1950, p. 5]3.
De fato, o pedagogo alemao introduziu a ginastica na escola, or-
ganizando o curriculo de modo que ela viesse a figurar como parte
integrante da educagao escolar. As atividades eram assim distribui-
das ao longo do dia: "5 horas por dia para o estudo, 3 horas para a
recreagao, que compreendia a pratica de esgrima, da equitagao, da
danga e da musica, e 2 horas para os trabalhos manuals" (ACCIOLY,
1950, p. 6).
Um curriculo tao diversificado e rico poderia destinar-se a to-
dos? Basedow realmente desejava uma escola para todos. So que
esta escola nao seria a mesma para todos.
A. Ponce, analisando a obra de Basedow, evidencia, para nos,
a superficialidade das colocagoes de Accioly acerca do pensamen-
to do pedagogo alemao, do seu Philantropinum e de sua concepgao
3- Ver tambem Inezil Penna Marinho (s.d.-a), em especial o capitulo 10. Para uma
leitura mats critica, consultar Jacques Rouyer (1977), Manuel Sergio (s.d.).
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de educagao. Ao abstrair a importancia dada por Basedow a ginas-
tica, Accioly coloca-o numa posigao mitificada, o que Ihe impede de
perceber, por exemplo, a visao de classe do autor em questao. Va-
mos verificar como Basedow pensava sua escola para "formar os
cidadaos do mundo", segundo os estudos de A. Ponce:
Antes de tudo, ele distinguia dols tipos de escolas, uma para os
pobres e outra para os filhos dos cidadaos mais eminentes. "Nao ha
qualquer inconveniente em separar as escolas grandes (populares)
das pequenas (para os ricos e tambem para a classe media) porque
e muito grande a diferenga de habitos e de condicjao existentes en-
tre as classes a que se destinam essas escolas. Os filhos das clas-
ses superiores devem comec.ar bem cedo a se instruirem, e como
devem ir mais longe do que os outros, estao obrigados a estudar
mais... As criangas das grandes escolas (populares) devem, por outro
lado, de acordo com a finalidade a que deve obedecer a sua instru-
gao, dedicar pelo menos a metade do seu tempo aos trabalhos ma-
nuais, para que nao se tornem inabeis em uma atividade que nao e
tao necessaria, a nao ser por motives de saude, as classes que tra-
balham mais com o cerebro do que com as maos... Nas grandes es-
colas - diz Basedow, em seguida - alem de ensinar a ler, a escrever
e a contar, os mestres tambem devem cuidar daqueles deveres que
sao proprios das classes populares... (pois) felizmente, as criangas
plebeias necessitam menos instrugao do que as outras, e devem
dedicar metade do tempo aos trabalhos manuals" [PONCE, 1986,
pp. 136-137].
Ao afirmar que as criangas plebeias necessitam de "menos ins-
trugao", Basedow justifica de modo preconceituoso uma dificulda-
de de ordem tecnica existente nas grandes escolas populares: um
unico professor e turmas imensas constituidas por alunos de ida-
des distintas.
Qual das escolas formaria "os cidadaos do mundo"? A respos-
ta parece obvia quando pensamos o lugar ocupado pelos estudos
nas chamadas escolas populares. Eles nao deveriam predominar
sobre os trabalhos manuals e seu tempo seria exiguo. Esta leitura
preconceituosa das necessidades das classes populares e ainda
mais cruel quando se pensam castigos e punigoes para corrigir vi-
cios e defeitos: as horas de estudo transformam-se em horas de
trabalhos manuals (idem, p. 137).
Desse modo, alargado o preconceito contra a classe trabalha-
dora, o pensamento pedagogico deixa claro em qual dessas esco-
las, a danga, a musica, a equitagao e a esgrima figurariam como
componentes curriculares; em qual dessas escolas ocorreria o res-
gate da "educagao dos sentidos" de que tanto falara Rousseau.
As propostas de Basedow para a educagao que incluia os exer-
cicios fisicos, apresentavam, portanto, um nitido