Educação Física   Raízes Européias e Brasil   Carmen Lucia Soares
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Educação Física Raízes Européias e Brasil Carmen Lucia Soares


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FfSICA
Afirmava ele ser necessario entender que a eugenia
e tambem a aplicac,ao energica para a conquista da plenitude das
forc.as fisicas e morals [...], e o revigoramento do povo por uma sa-
bia politica de educaijao; de defesa sanitaria e de cultura atletica
[1960, pp. 231-232].
A cultura atletica ou Educagao Fisica e entendida por Fernando
de Azevedo como medida eugenica e, portanto, como elemento da
educagao eugenica e higienica do povo. Ha uma afinidade de suas
ideias com as teses eugenicas presentes no interior do debate me-
dico higienista nas primeiras decadas do seculo XX no Brasil. Ele
traduz, tambem, a identidade de suas ideias com outras propos-
tas discursivas presentes naquele debate que tomam a higiene
moral (bons habitos, bons costumes) assim como a educagao, como
o fundamento da ordem sanitaria. Ou seja, e possivel perceber uma
determinacao das teses medico-higienistas nas formulacoes de
Fernando de Azevedo sobre a Cultura Atletica ou Educacao Fisica.
O trecho que segue e elucidative de nossa afirmacao:
uma vez introduzida pela educagao nos habitos do pais. a prati-
ca [da] culturajlsica sustentada durante uma largo, serie de geragoes,
depuraria nossa gente de didsteses morbidas, Jortificando-a e enri-
quecendo-a, progressivamente pela criagao incessante de individuos
robustos [...] As geragoes de amanha apuradaspor sistema, pela edu-
cagao Jisica - afinadora da raga e colaboradora do progresso - im-
primiriam assim nas que Ihes sucedessem, e submetidas ao mesmo
tratamento, o cunho de seu cardter, para que pudessem, dentro dos
limites do patrimonio biologico hereditdrio, aperfeigoar ainda mais a
natureza Humana [...]
O pais que nao tern educagao fisica (tomada esta expressao no
sentido mais amplo), nao podera jamais erguer seu povo a altura
da missao que Ihe cabe na construgao de uma sociedade nova. O
que a tern ma, irregular, empirica, rotineira, continuo plagiato de
processes arcaicos ou de rebotalhos senis, nao tera senao de arras-
tar-se para a derrota no aspero caminho em que se chocam as corn-
petigoes da era industrial, que e de energia e tenacidade, rigor e
precisao [1960, p. 216, grifos nossos].
A EDUCACAO FISICA NO BRASIL 125
Atribuindo papel de destaque ao medico nos debates em torno
de qualquer problema nacional, particularmente naqueles referen-
tes a educacao e a Educagao Fisica, Fernando de Azevedo, assim
como Rui Barbosa, em conjunturas especificas, acreditava ser pos-
sivel viabilizar o progresso e o desenvolvimento do pais atraves de
um rigido controle da saude e de uma ampla campanha de educa-
gao do povo, campanha esta que se traduziu no movimento escola-
novista. Dedicando especial atengao a Educagao Fisica, Fernando
de Azevedo esboga com apurado requinte intelectual uma obra so-
bre a importancia da Educagao Fisica para toda a sociedade e, par-
ticularmente, para a instituigao escolar.
Neste trabalho, publicado pela primeira vez em 191646, e rece-
bendo complementagoes e revisoes posteriores, sendo reeditado
ainda por mais duas vezes, em 1920 e 1960, encontramos um denso
referencial baseado nas ciencias biologicas como o suporte para o
desenvolvimento da Educagao Fisica brasileira.
Nesta obra, Fernando de Azevedo estabelece estreita relagao
entre Educagao Fisica e Medicina, e, valendo-se das palavras do
medico frances Philipe Tissie, afirma que o professor de Educagao
Fisica
deve ter quase os mesmos conhecimentos que o higienista, nao
bastando ser um pedagogo, mas sendo mister que seja um medico,
nao bastando que a sua competencia se estenda aos mais solidos
conhecimentos didaticos, mas importando vitalmente que a sua
propedeutica abranja noc.6es seguras de higiene e anatomo-flsiolo-
gia [...] porque na sua formula precisa [...] a educa?ao fisica e hi-
giene e higiene e medicina [Philip Tissie apud AZEVEDO, 1960, p. 91].
46. No prefacio da terceira e ultima edigao desta obra, datada de 1960, Fernando
de Azevedo assim se expressa: "Quando apareceu este livro, em 1920, era ain-
da muito jovem e ja contava com cinco anos de estudos sobre a educagao fisica
e de lutas pela sua organizagao e difusao no pais. Essa campanha eu a iniciara
com todo o calor dos vinte e um anos, em 1915, propondo e obtendo a criagao
de uma cadeira de educagao fisica no Ginasio do Estado da Capital de Minas
Gerais e disputando-a em concurso como prova publica da importancia que
atribuia a essa parte, tao menosprezada da educagao geral. Referindo-se a esse
ruidoso concurso, escreveu Lindolfo Azevedo em 'O Pais', do Rio de Janeiro, um
belo artigo que, depois de haver apreciado a tese que eu defendera, terminava
ele com essas palavras: 'a cadeira nao Ihe foi dada, mas o livro ficou"1 (p. 9).
126 EDUCACAO FISICA
A partir da definicao dos conhecimentos necessaries a forma-
gao do professor de Educagao Fisica colocada pelo Dr. Tissie e as-
sumida por Fernando de Azevedo, e possivel perceber a determina-
cao e hegemonia dos conhecimentos anatomofisiologicos e higienicos
oriundos do pensamento medico, naquela formagao profissional.
Este fato e tambem perceptivel em outros momentos da obra de
Fernando de Azevedo sobre a Educagao Fisica.
Nossa afirmagao pode ser constatada na minuciosa analise que
faz o autor citado acerca das escolas ou metodos de ginastica sur-
gidos na Europa do seculo XIX
Em suas analises sobre as escolas alema, francesa e sueca47,
consideradas as primeiras sistematizagoes cientificas sobre o exer-
cicio fisico, esbogam-se os contornos de uma Educagao Fisica como
sinonimo de saude fisica e moral, contornos fornecidos pela fisio-
logia, anatomia, biologia como ciencias assim como pelos medicos,
biologos, fisiologistas e anatomistas como profissionais e portado-
res "legitimos" daquele conhecimento considerado "cientifico".
Por seu lado, Fernando de Azevedo demonstra profundo conhe-
cimento destas ciencias ao discutir a superioridade de uma escola
em relagao a outra, assim como demonstra tambem uma estreita
vinculagao e concordancia com as conclusoes de medicos, fisiolo-
gistas e anatomistas que se dedicavam ao seu estudo.
A aproximagao com estes profissionais e a apropriagao daque-
le conhecimento podiam ser justificadas pela "busca de status cien-
tifico" para a Educagao Fisica, fazendo com que Fernando de Aze-
vedo acentuasse as virtudes das ciencias biologicas quando fazia
referenda as escolas de ginastica.
Esta "busca de status cientifico" para a Educagao Fisica nao
pode ser tratada como via de mao unica e positiva, em si, porque
cientifica. Se, de um lado, esta busca contribuiu para conferir cre-
47. Fernando de Azevedo refere-se tambem a outras manifestagoes e estudos so-
bre o exercicio fisico, assinalando o trabalho desenvolvido pelos ingleses sobre
os esportes e pelos americanos sobre a calistenia, voltada para a mulher. Para
nossos estudos, delimitamos apenas as suas analises em torno das tres gran-
des escolas, ou seja, aquelas que constituem a genese do movimento ginastico
europeu e mundial.
A EDUCACAO FISICA NO BRASIL 727
dibilidade e aceitagao para a Educagao Fisica, seja no ambito es-
colar, seja fora dele, de um outro langou as bases para a elabora-
gao de uma concepgao biologica e medica de Educagao Fisica, ten-
do, portanto, como objeto de trabalho, um corpo biologico destituido
de historicidade.
Neste sentido a argumentagao de Fernando de Azevedo sobre
a superioridade da ginastica sueca em relagao a ginastica alema e
a francesa elucida a nossa reflexao. Tomando por base para a sua
argumentagao as consideragoes feitas por anatomistas, fisiologis-
tas e, em especial, pelo medico Tissie - para quern a superioridade
da ginastica sueca em relagao as outras deve-se ao fato de estar ela
assentada em bases fisiologicas e educativas -, Fernando de Aze-
vedo assim se expressa:
[a ginastica] de Ling, educador e poeta sueco e essencialmente fi-
siologica; [...] teve uma longa gestac.ao e originou-se