Educação Física   Raízes Européias e Brasil   Carmen Lucia Soares
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Educação Física Raízes Européias e Brasil Carmen Lucia Soares


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como Rui Barbosa, perce-
be a Educagao Fisica como excelente instrumento de educagao nao
apenas fisica mas, fundamentalmente, moral,
a educagao fisica torna-se uma salvaguarda da moralidade privada
sobretudo no momento da puberdade, nesta idade critica, em que
as forgas por longo tempo armazenadas fazem, de repente, simul-
taneamente, a explosao de uma seiva exuberante que tende a con-
centrar-se sobre os orgaos da geracao e que o exercicio reparte por
todas as partes do corpo hurnano, destruindo ou prevenindo, pela
fadiga dos membros e pela excitacao muscular, as perigosas ten-
dencias da epoca pubertaria. [...]
Nao se fazendo [na puberdade] uma derivacao energica pelos es-
portes e pela ginastica nas horas que o estudo deixa livre, a excita-
cao genital criaria todas as perversoes sexuais [idem, pp. 44 e 189].
A partir destas colocagoes, e possivel perceber as razoes que
levam Fernando de Azevedo a acentuar as ciencias em que deve
basear-se o professor de ginastica. Ele nos diz que sao muitas as
ciencias, e o professor "nao deve atender apenas as exigencias da
anatomia e da estetica, mas tambem as da Jisiologia elementar, da
higiene dos exercicios corporals, da analise dos movimentos, da
pedagogia e da moral" (idem, p. 151, grifos nossos).
Esse amplo espectro de saber deveria, entao, formar um pro-
fessor que pudesse ser a um so tempo psicologo e higienista. Reu-
nindo tao amplos conhecimentos, o professor de ginastica poderia,
desse modo, observar cientificamente as condigoes tanto psiquicas
quanto fisicas de seus alunos. Essas observagoes nao poderiam ser
obra do acaso, ou do espontaneismo. Deveriam ser registradas em
uma "folha biologica", cuja finalidade seria aperfeigoar e corrigir as
condigoes dos educandos que foram observadas.
Os resultados empiricos do numero de vezes que uma crianga,
um adolescente ou um adulto sao capazes de executar um deter-
minado exercicio - "resultado que a folha biologica registra" - vi-
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riam a constituir a referenda fundamental para essa Educagao Fi-
sica, referenda essa que serviria de paradigma para todo o seu de-
senvolvimento na escola. E o professor, esse "medico auxiliar", de-
veria, entao, ser alguem capaz de
constatar [...] pelos processes varies de mensuragoes corporals, os
resultados de seu ensino [...] fazer [...] o registro dos beneficios que
provieram dos exercicios, e dos inconvenientes que determinaram
[idem, p. 91].
Dentro desta concepgao biologica de Educagao Fisica baseada
na abordagem positivista de ciencia e no seu metodo da observa-
gao e comparagao de resultados, a formagao das series de alunos
para as aulas dessa materia deveria, tambem, obedecer a criterios
biologicos, ou seja o criteria da equivalencia jisica resultante da ida-
de. do coeficiente de robastez, do indice do perimetro tordxico e da
con/brmacdo constitutional de cada urn (idem, p. 185, grifos nossos).
A ideia de homogeneizagao das classes escolares a partir de
criterios biologicos e psicologicos, criterios esses mensuraveis e
comparaveis, nao foi exclusivamente da Educagao Fisica. Foi, pelo
contrario, o criterio adotado na construgao de uma outra escola a
partir do ideario escolanovista.
A escola, particularmente a escola primaria, passou a ser o
espago da homogeneizagao a partir de resultados obtidos com as
fichas medicas, pedagogicas, com os testes psicologicos e de esco-
laridade. Os resultados deste volumoso numero de fichas e testes
classificavam as criangas em debeis, inteligentes, retardados, dis-
tribuindo-as em lugares e espagos sociais determinados na escola
e na sociedade (NUNES, 1984, p. 545).
A Educagao Fisica desenvolvida no ambito escolar, ou fora dele,
acentua as representagoes que a sociedade tem dos individuos, seja
do seu corpo - entendido como corpo biologico, a-historico; seja de
sua moral - entendida como amor ao trabalho, a ordem, a discipli-
na; seja de seu espago na sociedade - entendido como resultado do
esforgo individual, da tenacidade, da vontade.
Fruto da biologizagao e medicalizagao das praticas sociais, a
Educagao Fisica foi estruturada a partir do ideario burgues de ci-
A EDUCACAO FlSICA NO BRASIL 133
vilidade, significando, de um lado, conquista individual e magica
de saude fisica, e de outro, disciplinarizagao da vontade. Desse
modo, constituiu-se em importante instrumento de construgao da
ordem, uma vez que, como afirma F. Azevedo, "um organismo sa-
dio e de musculos adestrados e de certo mats facil a moralizar do
que uma maquina humana enfraquecida e emperrada" (1960,
p. 238).
C O N S I D E R A g O E S F I N A I S
j Tm projeto burgues de civilidade e esbogado para o Brasil a
l_X partir da segunda metade do seculo XIX. Seu desenho, po-
rem, torna-se de fato visivel com a proclamagao da Repiiblica, e so-
mente nas decadas iniciais do seculo XX e que se pode apreciar os
contornos finals desse projeto. Os medicos higienistas, atraves de
seu discurso e de sua pratica, auxiliam de forma decisiva na sua
concepgao e execugao, por meio de inumeros rnecanismos de con-
trole das populagoes. Tudo em nome da saude, da ordern e do pro-
gresso. Entre os mecanismos por eles utilizados, destaca-se a Edu-
cagao Fisica, disciplinadora dos corpos e da vontade... apologia da
saude fisica como responsabilidade individual.
Assim, a Educagao Fisica, idealizada e realizada pelos medicos
higienistas, teve por base as ciencias biologicas, a moral burguesa
e integrou de modo organico o conjunto de procedimentos discipli-
nares dos corpos e das mentes, necessario a consecugao da nova
ordem capitalista em formagao. Acentuou de forma decisiva o tra-
gado de uma nova figura para o trabalhador adequado a essa nova
ordem: um trabalhador mais produtivo, disciplinado, moralizado e,
sobretudo, fisicamente agil.
Fruto da biologizagao e naturalizacao que dirige a construgao
da nova sociedade a Educagao Fisica foi utilizada pelos medicos hi-
gienistas como instrumento de aprimoramento da saude fisica e mo-
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ral, acoplada aos ideals eugenicos de regeneragao e purificagao da
raga. Ela se fez protagonista de um corpo saudavel, robusto, disci-
plinado, e de uma sociedade asseptica, limpa, ordenada e morali-
zada, enquadrada, enfim, nos padroes higienicos de conteudo bur-
gues. Podia ser a "receita" e o "remedio" para a cura de todos os
"males" que afligiam a caotica sociedade brasileira capitalista em
formagao.
Objeto do saber e do fazer medico, a Educagao Fisica atuou na
"preparagao" do corpo feminino para o desempenho de sua nobre
tarefa: a reprodugao dos filhos da patria, reforcando, assim, o
ideario burgues sobre espagos e papeis socials permitidos a mu-
Iher ocupar e desempenhar. Atuou, tambem, tanto na "preparagao"
do corpo do soldado, fazendo-o litil a patria, quanto no corpo do
trabalhador manual, tornando-o mais litil ao capital.
A Educagao Fisica das criangas - e isso e possivel afirmar ten-
do em vista os documentos e obras analisados - sempre foi um polo
de atengao especial dos medicos higienistas. Exigindo a sua obri-
gatoriedade desde os primeiros anos de escolaridade, desejaram
fazer do exercicio fisico um habito capaz de gerar saude em si mes-
mo, disciplinar os gestos e a vontade atraves dos exercicios fisicos
desde cedo e, em nome da saude, incutir a ideia de que da discipli-
na fisica individual depende o futuro da patria.
Nas paginas deste trabalho foram evidenciados os elementos
constitutivos de uma visao biologizada da Educagao Fisica, e na
analise do processo de construgao desta visao, o pensamento me-
dico higienista revelou-se como_,a expressao mais acabada da
biologizagao e naturalizagao nao apenas da Educagao Fisica, mas
do Homem e da sociedade em geral, a qual surge simultaneamente
ao processo de desenvolvimento do capitalismo mundial, com suas
repercussoes e adaptagoes no Brasil.
A Educagao Fisica no periodo analisado (1850-1930)