GUIMARAES A Autonomia Burocr tica das Organiza es Financeiras Internacionais  Um Estudo Comparado entre o Banco Mundial e o Fundo Monet rio
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GUIMARAES A Autonomia Burocr tica das Organiza es Financeiras Internacionais Um Estudo Comparado entre o Banco Mundial e o Fundo Monet rio


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do Banco com as ONGs. Muitos desses es-
pecialistas vieram de ONGs que antes eram críticas comuns da orga-
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No Annual Meeting de 2004, pelo menos 150 ONGs parti-
ciparam de discussões com o Senior Management a respeito das fu-
turas policies do Banco, inclusive sobre a aplicação dos recursos da
IDA.
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As negociações da IDA 14th mantiveram padrão semelhante ao da
IDA 13th no tocante ao relacionamento Banco-ONGs. A IDA 14th fi-
cou conhecida pela ampliação da participação dos grants nos recur-
sos da IDA e pelo fortalecimento dos países altamente endividados
(em inglês, Highly Indebted Poor Countries [HIPC]) dentro do pro-
grama chamado de \u201cMillennium Development Goals\u201d (TAN, 2006,
p. 4-5). Uma reunião do presidente Wolfensohn com sindicatos e
ONGs europeias no início das negociações em 2004 mostrou que o
Banco estava disposto a incluir diversas demandas das ONGs e rejei-
tar aquilo que não era viável. Wolfensohn conclui afirmando que
aquele tipo de reunião significa uma \u201canistia\u201d ao passado de desen-
contros e falta de entendimento entre as ONGs e o Banco. Não houve
nenhuma crítica contundente das ONGs presentes às propostas do
presidente.
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No entanto, a aliança burocracia-ONGs, que parecia surtir efeitos
importantes, sofreu um revés em 2007. Em outubro daquele ano, o
subcomitê da Câmara convocou nova audiência sobre a abordagem
do Banco Mundial em relação a medidas trabalhistas e criação de
emprego. A ONG convocada foi o Carnegie Endowment for Interna-
tional Peace, além das federações sindicais AFL-CIO e a Internatio-
nal Trade Union Confederation (ITUC). Ao contrário das sessões an-
teriores, as três organizações criticaram duramente um programa do
Banco Mundial chamado \u201cDoing Business\u201d.
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Os debates que se se-
guiram foram críticos ao Banco Mundial.
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Essa audiência mostrou
que, a despeito da abertura ao terceiro setor promovida pelo Strategic
Compact, não ficou totalmente descartada a estratégia das ONGs de
pressionarem por mudanças no Banco via discussões no Congresso
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dos EUA. O que afirmamos é que essa prática se tornou menos co-
mum após a abertura às ONGs.
O processo de negociação da IDA 15th (2007-2008) com as ONGs
teve início em fevereiro de 2007 quando o Banco abriu o paper \u201cFif-
teenth IDA replenishment: the platform for achieving results at the
country level\u201d para consultas junto ao terceiro setor. Em torno de vin-
te ONGs enviaram comentários e solicitaram mudanças.
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Em meio às tratativas da IDA 15th o presidente Robert Zoellick
(2007-2012) reestruturou os cargos do Senior Management. Em ou-
tubro, nomeou para o cargo de diretor executivo de África, Sudeste
Asiático, Ásia Central e Europa a ex-ministra de finanças da Nigéria,
Ngozi Okonjo-Iweala. O Financial Times sugeria que a indicação
de Okonjo-Iweala atendia aos interesses de ONGs.
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As negociações do reabastecimento da IDA 15th no subcomitê do
Congresso dos EUA não foram marcadas por um tema específico. Na
verdade, boa parte dos debates entre os presentes estava relacionada à
excelência dos recursos da IDA em relação às demais agências de
ajuda humanitária e ao fato de o Reino Unido ter ultrapassado os
EUA como o maior doador à instituição.
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Nesse contexto, o secretá-
rio-assistente de relações internacionais do Departamento do Tesou-
ro, Clay Lowery, afirmou que o governo estadunidense utilizava o re-
abastecimento das IDAs para aumentar sua influência dentro do Ban-
co Mundial e promover reformas de seu interesse. A renovação dos
recursos era imprescindível para que os EUA continuassem a manter
a liderança dentro da organização.
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É certo que a ascensão do Reino Unido como principal doador pode
ter levado os congressistas e o tesouro dos EUA a convocarem, para a
audiência da IDA 15th, ONGs que pouco criticassem as policies do
Banco, embora a BIC fosse crítico costumeiro.
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No entanto, o fato
de essas mesmas ONGs participarem do Policy Dialogue e das diver-
sas negociações com funcionários do Banco e deputies durante a IDA
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15th não as colocaria em uma posição favorável para criticar o Banco
ao ponto de exigirem reformas profundas em suas policies.
Em fevereiro de 2008, o International Development Committee da
Câmara dos Comuns do Reino Unido solicitou ao Department for
International Development (DFID) \u2013 órgão do Parlamento britânico
que acompanha as OIs financeiras \u2013 um relatório sobre as reformas
que deveriam ser feitas no Banco. O relatório mostra que o Reino
Unido, via DFID, segurou recursos de reabastecimento da IDA 15th
como forma de pressionar o Banco a adotar os Good Practice and
Principles (GPPs) em um dos programas de ajuste estrutural
(SAPRI). O relatório do DFID foi aberto à consulta para que as
ONGs pudessem fazer suas colocações. As críticas das ONGs ao
Banco foram inúmeras e mostram que a aliança ONGs-burocracia
nem sempre funcionava.
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No entanto, em setembro de 2009, o Comitê de Finanças da Câmara
dos EUA (Full Committee) convocou uma audiência para tratar da
revisão da política de transparência do Banco (Policy Disclosure Re-
view).
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As ONGs apoiaram as novas medidas do Banco iniciadas
em abril de 2009, que buscavam ampliar ainda mais a Policy on Dis-
closure of Infomation,
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embora colocassem que os resultados fos-
sem insuficientes.
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Como pudemos notar, a aliança burocracia-ONGs está longe de não
criar atritos. Em entrevista, um especialista em desenvolvimento so-
cial do Banco argumentou que o relacionamento entre o Banco e
ONGs era uma mistura de colaboração e conflito. Por exemplo, em
combustíveis fósseis, a maioria das ONGs era fortemente contra o
Banco. Em contraste, na mais recente crise financeira (2008-2010),
várias ONGs viam o Banco como aliado, ao passo que outras ainda o
encaravam como corresponsável pela crise. Para o especialista, as
negociações de reabastecimento da IDA sempre foram contraditó-
rias. De um modo geral, as ONGs viam os recursos como benignos e
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apoiavam sua renovação, mas também se utilizavam da situação para
apoiar a renovação junto aos países do G7 em troca do cancelamento
das políticas que não fossem de seu interesse.
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Contudo, acreditamos que, a despeito dessa relação de colaboração e
conflito, a aliança do Banco com as ONGs por meio dos Annual Meet-
ings e do Country Ownership provavelmente aumentou os custos de
controle do Banco para os principals. Procuramos demonstrar, nesta
parte do artigo, que as ONGs migraram de uma postura totalmente
crítica ao Banco nos anos 1980 e 1990 para uma atitude mais constru-
tiva e participativa após o Strategic Compact. Ao se tornarem parcei-
ras na concepção e implementação dos projetos, as ONGs tinham
mais dificuldade em repetir o comportamento negativo em relação à
burocracia do Banco ocorrido nos anos 1980 e 1990. Nas diversas
sessões do Congresso dos EUA e do Parlamento britânico a que tive-
mos acesso, as posturas das ONGs eram majoritariamente positivas à
renovação dos recursos da IDA,