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APOSTILA DE DIREITO CIVIL II

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a quem se refira a declaração de vontade, 
desde que tenha influído nesta de modo relevante”. O erro, incidindo sobre a pessoa 
com que se teve intenção de tratar, só é causa de anulabilidade do ato quando 
a consideração da mesma pessoa foi a causa determinante, a mola propulsora 
do negócio jurídico. Ex. no casamento (artºs 1556 e 1557), na sucessão 
testamentária (artº 1903), no contrato de sociedade, no contrato a título 
oneroso, tendo por objeto coisa infungível (artº 247), e, finalmente, todos os 
atos benéficos realizados intuitu personae (doação, dote, etc.). Outrossim, casos 
há em que o contrato não visa pessoa contratada, por versar este sobre coisas 
fungíveis, cuja prestação poderá ser efetuada por qualquer pessoa. Daí, o ato é 
válido. 
c) ERRO ACIDENTAL: Esse erro não induz anulação do ato. Está, nesse 
caso, exemplificativamente, o equívoco relacionado com o valor do objeto 
contratado, bem assim, a entrega do automóvel diferente em série ou no ano 
de produção. Qual a diferença entre erro sobre as qualidades essenciais do 
objeto e vício redibitório? R. Embora íntima a relação existente entre eles, em 
verdade são diversos os respectivos fundamentos. No vício redibitório (artºs 
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441 a 446) o fundamento é a garantia que o vendedor tem de assegurar ao 
comprador contra os defeitos ocultos da coisa e que a tornam imprestável ao 
fim a que se destina; no erro, a anulação tem por base o consentimento 
imperfeitamente fornecido no momento da constituição do ato. 
d) ERRO ESCUSÁVEL: Há de ter por fundamento uma razão plausível, ou 
de ser de tal monta, que qualquer pessoa inteligente e de atenção ordinária 
seja capaz de cometê-lo. Deve ser ainda real, isto é, tangível, palpável, 
importando efetivo prejuízo para o interessado. 
e) ERRO DE FATO: É aquele que recai sobre circunstâncias de fato, por 
exemplo, sobre qualidades essenciais da pessoa ou da coisa. 
f) ERRO DE DIREITO: É aquele que diz respeito a existência de norma 
jurídica, supondo-se, por exemplo, que está em vigor quando, em verdade, 
está revogado. É possível equiparar o erro de direito ao erro de fato para a 
caracterização do vício de vontade, causa de anulação do ato jurídico? R. O 
nosso CCB não se refere ao erro de direito, pois CLÓVIS BEVILAQUA 
equipara as noções de erro de direito e ignorância da lei, opinando pela 
inexistência do error juris ante o artº 3º da LICC. Portanto, o erro de direito 
não é considerado como causa de anulação do contrato. Só o erro de fato é 
que pode influir de modo a anulá-lo, sobre a eficácia do elemento volitivo. 
Entretanto, tal entendimento foi duramente combatido pela doutrina e pela 
jurisprudência, cujo entendimento predominante é de que o erro de direito, 
como o de fato, desde que afete a manifestação da vontade, na sua essência, 
vicia o consentimento. Outrossim, preciso é atentar para o exato alcance dos 
preceitos de escusa de cumprir a lei por não a conhecer, por exemplo, não 
posso alienar bens recebidos em fideicomisso, cuja propriedade é restrita e 
resolúvel, e depois subtrair-se às conseqüências, alegando ignorar a limitação 
constante do art. 1.953 do CCB. De outra forma, posso alegar a ignorância 
em tela se presumo ser estrangeiro pessoa que tem garantia de legislação que 
dispõe sobre nacionalidade e cidadania, pois houve erro no processo 
formativo da minha vontade. Assim, o error juris não consiste apenas na 
ignorância da norma, mas também no seu falso conhecimento e na sua 
interpretação errônea. 
g) FALSA CAUSA: Causa é o escopo, o fim visado pela parte ao realizar o 
negócio jurídico. Erro quanto ao fim colimado não vicia, em regra, o negócio 
jurídico, a não ser quando nele figurar expressamente, integrando-o, como sua 
razão essencial ou determinante, caso em que o torna anulável. É o que 
preceitua o artº 140 do CCB. Ex. Se alguém beneficiar outro com uma 
doação, declarando que assim procede porque o donatário lhe salvou a vida, 
se isso não corresponder à realidade, provando-se que o donatário nem 
mesmo participara do salvamento, viciado estará o negócio, sendo anulável. 
Finalmente, pelo artº 141 do CCB se alguém transmitir uma declaração de 
vontade de incorreta, acarretando desavença entre a vontade declarada e a 
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interna, poder-se-á declarar erro nas mesmas condições que a manifestação de 
vontade é realizada entre presentes. 
• Estabelece mais o artº 142 do CCB que o “erro de indicação da pessoa ou 
da coisa, a que se referir a declaração de vontade, não viciará o negócio 
quando, por seu contexto e pelas circunstâncias, se puder identificar a coisa 
ou pessoa cogitada”. Já vimos que no direito hereditário se encontra 
disposição especial da mesma natureza, a constante do art. 1903 do CCB. 
• Assim, quem alega o erro deve prová-lo. Erro só pode ser alegado por 
aquele a quem aproveite o reconhecimento do vício, não pela outra parte. 
Embora anulável o ato eivado de erro, prevalece enquanto não anulado por 
sentença. Por fim, o CPC faculta à parte inocente provar com testemunhas, 
nos contratos em geral, os vícios do consentimento (artº 404, II). 
• De acordo com o art. 144 do CCB, o erro não prejudica a validade do 
negócio jurídico quando a pessoa a quem a manifestação de vontade se 
dirige se oferecer para executá-la na conformidade da vontade real do 
manifestante. Nada impede, efetivamente, que, inobstante o erro ocorrido 
na manifestação de vontade, a parte a quem esta se dirige esteja de acordo 
em realizar o negócio tal como deveria ser sem a ocorrência do erro. 
 
 
3) DO DOLO: 
 
 
3.1) DEFINIÇÃO: 
 
• O dolo é o emprego de um artifício ou expediente astucioso para 
induzir alguém à prática de um ato que o prejudica e aproveita o 
autor do dolo ou terceiro (Clóvis Beviláqua). É o sentido da doutrina 
dominante. Diferenciando o dolo do erro, este deriva de um equívoco da 
própria vítima, é puramente fortuito, sem que a outra parte tenha 
concorrido para isso, ao passo que naquele é intencionalmente provocado 
na vítima pelo autor do dolo ou terceiro, sendo, portanto, passível de 
anulação (artºs 145 a 150 e 171, II, do CCB). Cabe salientar que há 
diferença entre o dolo civil, da qual tratamos, e o dolo criminal, pois neste 
diz-se doloso o crime quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco 
de produzi-lo (artº 18, nº I, do CP). Diferencia-se, também, o dolo civil do 
dolo processual, sendo este decorrente da maneira pela qual o litigante se 
conduz na causa, agindo de forma temerária, com provocação de incidentes 
manifestamente infundados, com o único objetivo de protelar o julgamento 
do feito. 
 
 
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3.2) ESPÉCIES DE DOLO: 
 
a) “DOLUS BONUS ou MALUS”: O “Dolus Bonus” é um 
comportamento lícito e tolerado consistente em reticências, exageros nas boas 
qualidades, dissimulações de defeitos. É o artifício que não tem finalidade de 
prejudicar. Esse dolo não induz a anulação do ato. Ex. Vendedor que exalta 
as qualidades da coisa vendida, com certo exagero e o comprado, que a 
diminui e encontra defeitos não existentes. O “Dolus Malus” consiste no 
emprego de manobras astuciosas destinadas a prejudicar alguém. É o dolo 
grave, que vicia o consentimento. É o que se refere o nosso Código Civil. 
b) “DOLUS CAUSAM” e “DOLUS INCIDENS”: O Dolo Principal, 
também chamado dolo essencial, dolo determinante ou dolo causal, é aquele 
que dá causa ao negócio jurídico sem o qual ele não se teria concluído (CCB, 
artº 145), acarretando, então, a anulabilidade daquele negócio. O Dolo 
Incidente é aquele que leva a vítima a realizar o ato, porém em condições mais 
onerosas ou menos vantajosas. Requisitos: 
b.1) haja intenção de induzir o declarante