Novo CPC Comentado
604 pág.

Novo CPC Comentado


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.317 materiais534.157 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de \u2013 se assim não for \u2013 gerarem vícios de ordem constitucional-
processual fundamental, face à violação direta à Constituição, e, por consequência, invalidades na 
forma de prestar a adequada jurisdição.
Assim, pode se inferir que existem relações estreitas e energizadas entre Constituição e 
Processo. Mais do que isto: existe subordinação da micro disciplina processual a macro disciplina 
constitucional-processual.
Há, portanto, um grande sistema de índole processual-constitucional voltado para o processo 
judicial e instituído obviamente pela Constituição Federal. Este rege todos microssistemas processuais 
que devem a ele estar adequados, sob pena de violação da grande cláusula do Devido Processo 
do Estado Democrático de Direito, chamado pela Constituição de Devido Processo Legal, também 
podendo ser denominada Devido Processo Constitucional.
 
3.2 A opção ideológico-constitucional do projeto de um novo CPC
O artigo primeiro do projeto do novo CPC, sensível a realidade antes exposta, com clareza 
invulgar, estabelece que o processo civil contemporâneo deverá ser compreendido a partir de 
determinados primados constitucionais e que estes, mais do que antes, devem presidir claramente 
os destinos do futuro processo civil brasileiro.
Ao assim se posicionar, longe de dúvida, o projeto traduz a vontade de que o processo 
seja instrumento de realização dos propósitos constitucionais e não apenas como instrumento 
de realização do direito material infraconstitucional. Há, pois, no projeto, clara opção ideológica e 
indiscutível norte fixado em favor da idéia de intensa constitucionalização do processo civil coevo.
Isso equivale a dizer que devemos, uma vez transformado em lei o projeto, proceder a leitura 
do sistema processual sob a óptica da Constituição. Verdadeiramente emoldurar o processo civil 
coetâneo à Constituição Federal, agora, entretanto, por determinação expressa. Para aqueles que 
acompanham atentos a evolução do direito processual esta opção do projeto não se constitui em 
novidade e sequer necessitaria constar expressamente, haja vista que já de alguns anos para cá se 
percebe esta clara tendência no direito brasileiro e chega a se apontar existência de um movimento 
de \u201cconstitucionalização do direito\u201d, como se o direito brasileiro pudesse ser compreendido de outro 
modo que não alinhado com a Constituição Federal.
27Artigos 1 a 12
No que tange ao direito processual civil, entretanto, agora, mais do que antes, onde se percebiam 
somente movimentos doutrinários e jurisprudenciais nesse sentido, o projeto expressamente aponta a 
mais valia da cidadania processual, ou seja, o direito de ver asseguradas as cláusulas constitucionais 
concebidas para valer no debate judicial ou em razão deste.
Máxima vênia, não poderia ser diferente!
Com efeito, há um sistema constitucional na base do direito brasileiro e, por decorrência, os 
demais segmentos devem a esta base se amoldar, pena de restar caracterizada fratura insuperável 
na operação da ordem jurídica.
Assim, segundo se percebe, o projeto de um novo CPC, atento a esta realidade, busca, agora, 
modo expresso, definir este quadro e, como decorrência, dentre outros resultados, deverá repercutir 
de maneira significativa nas idéias da ciência processual, impondo uma verdadeira (re)compreensão 
dos operadores, mormente no habito de instituir reformas mais direcionadas a superar a ineficiência 
do Estado do que preservar o Estado de Direito.
 Iniciativas nitidamente procedimentais, mais que as processuais, por igual, com mais 
intensidade ainda deverão se submeter à disciplina constitucional, inibindo, portanto, propostas 
legislativas ou iniciativas jurisdicionais voltadas apenas para atenuar as mazelas operacionais da 
máquina judiciária, ao invés de readequarem os fundamentos processuais aptos a, com segurança 
jurídica, equalizar a operação do processo à realidade.
Há, pois, claro norte estabelecendo que a realização do direito através do processo judicial 
deverá amoldar-se ao conjunto de garantias asseguradas ao cidadão pela Constituição Federal, não 
havendo, por decorrência, decisão válida se o processo desconhecer os vetores constitucionais do 
processo. Será este, mais do que nunca, instrumento de realização dos propósitos daquela!
Assim, é possível afirmar que uma das opções ideológicas do projeto de um novo CPC é de 
reconhecer, expressamente, a existência de um direito processual matriz e que este macro direito 
processual tem assento na Constituição Federal, o qual regerá - agora com mais intensidade - a 
aplicação do direito processual civil contemporâneo.
3.4 A formalização do devido processo civil-constitucional
A garantia do due process of law, como já destacado por muitos, encontra inspiração na Magna 
Carta de João Sem Terra, datada de 1215, e representa, verdadeiramente, o fundamento para todas 
as demais garantias que são oferecidas às partes ou, dito de outro modo, o gênero de cujas as 
demais garantias são espécie.
Assim, possível afirmar que as garantias processuais, necessariamente, integram o devido 
processo legal que, em última ratio, visa assegurar às partes um processo e uma sentença adequada 
à causa submetida a exame.
Desta forma, o legislador constituinte, atento, acima de tudo, ao Estado Democrático de 
Direito, tratou de - expressamente - insculpir tal princípio no ordenamento nacional e o fez através 
da afirmativa peremptória de que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido 
processo legal (5°, LIV, CF).
Oportuno registrar para boa compreensão e alcance da cláusula do devido processo legal que 
a expressão legal integrante da designação constitucional da garantia, na realidade não deve receber 
a compreensão estrita atribuída ao termo no sistema brasileiro, na medida em que o melhor sentido 
a ser atribuído à compreensão da idéia de devido processo legal é que isto significa que se assegura 
ao cidadão o devido processo do Estado de direito, englobando, portanto, a compreensão de que vai 
para além da lei em sentido estrito, ou seja, embutindo em si a idéia de devido processo da ordem 
jurídica integral. 
Ciente e consciente da compreensão a ser atribuída a idéia de devido processo da ordem 
jurídica, o projeto de um novo CPC, ao expressamente fazer referência que incorpora primados 
constitucionais à sua compreensão opta por apontar o vetor essencial do processo civil coetâneo e, 
como dito, por decorrência de tal proceder, institui o devido processo civil-constitucional.
28 Sérgio Gilberto Porto
O conteúdo desse devido processo civil-constitucional é representado por um conjunto 
de direitos formativos aptos a permitir o exercício da cidadania através de direitos de natureza 
paraprocessual e/ou endoprocessual.
Com efeito, é e será ainda mais acentuadamente assegurado ao cidadão em razão do 
processo ou durante o processo judicial o gozo de um conjunto de garantias da essência do Estado 
de Direito e sem a concreção deste não se construirá processo válido e eficaz.
Esses direitos formativos estão representados pelas chamadas garantias constitucional-
processuais, expressas ou implícitas, cuja existência decorre de sua inserção na Constituição Federal.
Assim, para bem compreender a fórmula proposta pelo sistema que se pretende implantar é 
necessário identificar a existência de um conjunto de valores constitucionais que necessariamente 
balizará a aplicação dos institutos processuais.
3.5 As garantias e princípios expressos no projeto
Além da fórmula genérica assentada no artigo primeiro do projeto do novo CPC, há referências 
expressas a uma série de garantias e princípios no Livro I, Título I, Capítulo I. Realmente, prevê o 
projeto a regência do processo civil pela presença expressa das garantias da (a) inafastabilidade do 
controle jurisdicional dos conflitos (art. 3°); (b) duração razoável do processo (art. 4°); (c) isonomia