1.1 Teoria Geral do Direito - Aurora Tomazini - Capítulo 3
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1.1 Teoria Geral do Direito - Aurora Tomazini - Capítulo 3


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dez funções lingüísticas: (i) descritiva; 
(ii) expressiva de situações objetivas; (iii) prescritiva; (iv) interrogativa; (v) operativa; (vi) fáctica; 
(vii) persuasiva; (viii) afásica; (ix) fabuladora; e (x) metalingüística101. Analisemos cada uma delas: 
(i) Linguagem descritiva (informativa, declarativa, indicativa, denotativa ou 
referencial) \u2013 é o veículo adequado para transmissão de informações, tendo por finalidade relatar ao 
receptor acontecimentos do mundo circundante (ex. o céu é azul, as nuvens são brancas e os pássaros 
voam). É a linguagem própria para a constituição e transmissão do conhecimento (vulgar ou 
científico). Apresenta-se como um conjunto de proposições que remetem seu destinatário às situações 
por ela indicadas. Submetem-se aos valores de verdade e falsidade, podendo ser afirmadas ou negadas 
por outras proposições de mesma ordem. 
(ii) Linguagem expressiva de situações subjetivas \u2013 é constituída para exprimir 
sentimentos (ex. ai!; viva!; te adoro!; vai saudades e diz a ela, diz pra ela aparecer...). É a linguagem 
própria para manifestação de emoções vividas pelo remetente que tende a provocar em seu receptor o 
mesmo sentimento. Pode apresentar-se como interjeições (ex. oh!) ou como um conjunto de 
proposições (ex. poesias). Não se submete aos valores de verdade ou falsidade. 
(iii) Linguagem prescritiva de condutas (normativa) \u2013 é utilizada para a expedição de 
ordens e comandos (ex. é proibido fumar). Própria para a regulação de comportamentos 
(intersubjetivos e intrasubjetivos), projetando-se sobre a região material da conduta humana com a 
finalidade de modificá-la. Submetem-se aos valores de validade e não-validade, não podendo ser 
afirmadas ou negadas, mas sim observadas ou não. 
(iv) Linguagem interrogativa (das perguntas ou dos pedidos) \u2013 é produzida pelo ser 
humano diante de situações que desconhece, quando se pretende obter uma resposta de seu semelhante 
(ex. direito é uma Ciência?). Reflete as inseguranças do emissor e provoca uma tomada de posição do 
 
100
 Lingüística e comunicação, p. 123. 
101
 Língua e linguagem \u2013 signos lingüísticos \u2013 funções, formas e tipos de linguagem \u2013 hierarquia de linguagens. Apostila de 
Lógica Jurídica do Curso de Pós-Graduação da PUC-SP, p. 17-30 e Direito tributário, linguagem e método, p. 37-52. 
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destinatário, que tem a opção de respondê-la ou não. As perguntas, assim como as ordens, não são 
verdadeiras ou falsas, são pertinentes ou impertinentes (adequadas ou inadequadas; próprias ou 
impróprias). 
(v) Linguagem operativa (performativa) \u2013 é aquela utilizada para concretizar certas 
ações (ex. eu vos declaro marido e mulher). Atribuem concretude factual aos eventos que exigem 
linguagem para sua concretização (ex. casar, desculpar, batizar, parabenizar, prometer, etc.). É uma 
linguagem constitutiva de determinadas situações. 
(vi) Linguagem fáctica \u2013 é produzida com o intuito de instaurar a comunicação ou 
para manter e cortar o contato comunicacional já estabelecido (ex. alô; como vai?; um momento, por 
favor; até logo). Exerce papel puramente introdutório, mantenedor ou terminativo da comunicação. As 
orações interrogativas que a integram, ressalva PAULO DE BARROS CARVALHO, \u201cnão visam a 
obtenção de respostas, a não ser graduações ínfimas\u201d102. 
(vii) Linguagem persuasiva \u2013 é constituída com a finalidade imediata de convencer, 
persuadir, induzir (ex. se eu fosse você, não emprestava o material). Dizemos \u201cfinalidade imediata\u201d 
porque as linguagens produzidas com outra função sempre têm um quantum de persuasivas \u2013 é neste 
sentido que PAULO DE BARROS CARVALHO prefere a expressão \u201cpropriamente persuasivas\u201d. As 
orações persuasivas são identificadas quando o intuito de induzir o receptor a aceitar a argumentação 
posta pelo emissor estabelecendo-se, assim, um acordo de opiniões mostra-se presente 
prioritariamente. 
(viii) Linguagem afásica \u2013 é produzida com o animus de perturbar a comunicação, 
visando obscurecer ou confundir uma mensagem expedida por outrem perante terceiros (ex. 
linguagem produzida por advogado de uma das partes para tumultuar o andamento regular do 
processo). Pode ser utilizada na forma negativa ou positiva, quando a perturbação acaba por preencher 
o discurso ao qual se dirige (ex. interpretação equitativa) 
(ix) Linguagem fabuladora \u2013 é utilizada na criação de ficções e textos fantasiosos ou 
fictícios. É a linguagem das novelas, das fábulas, dos contos infantis, dos filmes, das anedotas, das 
peças de teatro. Seus enunciados podem até ser susceptíveis (em algumas circunstâncias) de 
 
102
 Exemplifica o autor: \u201cQuando nos encontramos com pessoa de nossas relações e emitimos a pergunta \u2018como vai?\u2019, o 
objetivo não é travarmos conhecimento com o estado de saúde física ou psíquica do destinatário, mas simplesmente saudá-
lo. Apostila do Curso de Extensão em Teoria Geral do Direito, p. 55. 
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apreciação segundo critérios de verdade/falsidade, mas tal verificação, diferente do que ocorre com os 
enunciados descritivos, não importa para fins da mensagem, que se propõe a construção de um mundo 
diferente do real. 
(x) Linguagem com função metalingüística \u2013 é o veículo utilizado pelo emissor para 
rever suas colocações dentro do seu próprio discurso. Nela ele se antecipa ao destinatário, procurando 
explicar empregos que lhe parecem vagos, imprecisos ou duvidosos. Com o desempenho da função 
metalingüística o emissor fala da sua linguagem dentro dela própria, o que é denunciado pelas 
expressões \u201cisto é\u201d, \u201cou seja\u201d, \u201cdito de outra forma\u201d. 
A linguagem do direito positivo caracteriza-se por ter função prescritiva, isto porque, 
a vontade daquele que a produz é regular o comportamento de outrem a fim de implementar certos 
valores. Diferentemente, a Ciência do Direito aparece como linguagem de função descritiva, porque o 
animus daquele que a emite é de relatar, informar ao receptor da mensagem como é o direito positivo. 
Traçamos, então, a separação de dois planos lingüísticos que dizem respeito à natureza do objeto de 
que nos ocupamos: os textos do direito positivo compõem uma camada de linguagem prescritiva ao 
passo que os textos da Ciência do Direito formam um plano de linguagem descritiva. 
A linguagem prescritiva é própria dos sistemas normativos. Como leciona 
LOURIVAL VILANOVA, \u201ctodas as organizações normativas operam com esta linguagem para 
incidir no proceder humano canalizando as condutas no sentido de implementar valores\u201d103. Já a 
linguagem descritiva é própria das Ciências, porque é informativa. Aquele que a produz tem por 
objetivo descrever a alguém o objeto observado que, no caso da Ciência do Direito, é o direito posto. 
É certo que vários enunciados do direito positivo nos dão a impressão de que, por 
vezes, a função empregada é a descritiva, principalmente porque algumas palavras que o legislador 
escolhe para compor seu discurso encontram-se estruturadas na forma declarativa, como por exemplo: 
\u201cA Republica Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do 
Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito\u201d (art. 1° da CF). Isto, porém, não 
desqualifica a função prescritiva da linguagem do direito positivo, que nada descreve nem nada 
informa, dirigindo-se à região das condutas intersubjetivas com o intuito de regulá-las. Por este 
motivo, ainda que a estruturação frásica dos enunciados nos tende a uma construção de sentido 
 
103
 As estruturas lógicas e sistema do direito positivo, p. 18. 
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descritiva, são enunciados com função prescritiva, constituídos no intuito de disciplinar 
comportamentos e assim devem ser interpretados. 
Não são poucos os autores que incidem neste erro,