1.1 Teoria Geral do Direito - Aurora Tomazini - Capítulo 3
21 pág.

1.1 Teoria Geral do Direito - Aurora Tomazini - Capítulo 3


DisciplinaDireito Financeiro e Orçamentário20 materiais591 seguidores
Pré-visualização7 páginas
de sobrenível aqui (Lm). 
Assim, identificamos outro critério caracterizador das diferenças entre direito 
positivo e Ciência do Direito: o nível de suas linguagens. 
 2.3. Quanto ao nível de linguagem 
Ao voltarmos nossa atenção ao objeto para qual cada uma das linguagens se dirige, 
as estruturamos, estabelecendo uma relação de dependência entre elas. Na base, figura a linguagem 
que chamamos de objeto (Lo), a qual a outra linguagem (de sobre nível) se refere. Esta segunda 
constitui-se como sobrelinguagem ou metalinguagem (Lm), em relação à primeira, isto é, uma 
linguagem que tem por objeto outra linguagem. Ela, porém, também pode ser tomada como objeto de 
uma terceira linguagem (Lm\u2019), que se constitui como meta-metalinguagem em relação primeira, ou 
metalinguagem em relação à segunda e assim, por conseguinte, até o infinito, porque há sempre a 
possibilidade de se produzir uma nova linguagem que a tome como objeto. 
Considerando-se as linguagens do direito positivo e da Ciência do Direito, esta 
caracteriza-se como metalinguagem (Lm) daquela, que se apresenta como linguagem objeto (Lo). Isso 
porque a Ciência do Direito toma o direito positivo como objeto, ela o descreve, isto é, fala sobre ele. 
Ressalva-se, porém, que o direito positivo é tomado como linguagem objeto em 
relação à Ciência do Direito, mas figura como metalinguagem em relação à linguagem social sobre a 
qual incide. Sob o ponto de vista do giro-lingüístico, a realidade é construída pela linguagem e, neste 
sentido, todos os objetos, tomados como referência material, são lingüísticos. A linguagem se auto-
refere, de modo que, todo discurso tem como objeto outro discurso. 
A realidade social, dentro desta concepção, é constituída pela linguagem, o que faz 
ter o direito positivo, assim como a Ciência que o descreve, um objeto lingüístico: a linguagem social. 
Enquanto a Ciência sobre ele incide descrevendo-o, ele incide sobre a linguagem social, prescrevendo-
a. Por isso, é tomado como linguagem objeto em relação à Ciência do Direito e metalinguagem em 
relação à linguagem social. 
O gráfico abaixo representa tal relação entre as linguagens do direito positivo, da 
Ciência do Direito e da realidade social: 
91 
 
direito positivo 
(Lm\u2019 = metalinguagem) 
Ciência do Direito 
(Lm = metalinguagem) 
prescreve 
direito positivo 
(Lo = linguagem objeto) 
descreve 
 
 
 
Explicando: o direito positivo (representado pela figura do meio \u2013 \u201ctexto 
constitucional e de leis\u201d) apresenta-se como linguagem objeto (Lo) em relação à Ciência do Direito 
(representada pela figura de cima \u2013 \u201clivro\u201d) que o descreve e esta como metalinguagem (Lm) em 
relação a ele. Em relação à linguagem da realidade social (representada pela figura de baixo \u2013 \u201cdois 
sujeitos em interação\u201d) o direito positivo, por prescrevê-la, caracteriza-se como metalinguagem (Lm\u2019) 
da qual ela se constitui como linguagem objeto (Lo\u2019). 
O legislador, ao produzir a linguagem do direito positivo, toma a linguagem social 
como objeto e a ela atribui os valores de obrigatoriedade (O), permissão (P) e proibição (V), 
sombreando quais das suas porções são lícitas e quais são ilícitas. Igualmente faz o jurista, ele dirige-
se à linguagem prescritiva do direito positivo, tomando-a como objeto para a ela atribuir sua 
interpretação e construir a linguagem descritiva da Ciência do Direito. 
Importante salientar que o direito positivo e a Ciência do Direito, enquanto 
metalinguagens, não modificam suas linguagens objeto (para isso é preciso que pertençam ao mesmo 
jogo), eles apenas se valem delas para construir suas proposições (prescritivas ou descritivas). 
2.4. Quanto ao tipo ou grau de elaboração 
Outro critério de distinção entre direito positivo e Ciência do Direito é o tipo de 
linguagem na qual se materializam. PAULO DE BARROS CARVALHO, em referência ao 
neopositivismo lógico, identifica seis tipos de linguagem: (i) natural ou ordinária; (ii) técnica; (iii) 
linguagem social 
(Lo\u2019 = linguagem objeto) \ufffd\u2194\ufffd 
92 
 
científica; (iv) filosófica; (v) formalizada; e (vi) artística. Vejamos as características de cada uma 
delas: 
(i) Linguagem natural ou ordinária \u2013 é o instrumento por excelência da comunicação 
humana, própria do cotidiano das pessoas. Não encontra fortes limitações, é descomprometida com 
aspectos demarcatórios e espontaneamente construída. Lida com significações muitas vezes 
imprecisas e não se prende a esquemas rígidos de estruturação, de modo que seus planos sintático e 
semântico são restritos. Em compensação, possui uma vasta e evoluída dimensão pragmática. 
(ii) Linguagem técnica \u2013 assenta-se no discurso natural, mas utiliza-se de recursos e 
expressões específicas, próprias da comunicação científica. Muito embora não tenha o rigor e a 
precisão de uma produção cientifica apresenta maior grau de elaboração em relação à linguagem 
ordinária, vez que se utiliza de termos próprios. É a linguagem, por exemplo, dos manuais, das bulas 
de remédio, que tem certo rigor e precisão, mas firma-se na linguagem comum. 
(iii) Linguagem científica \u2013 alcançada com a depuração da linguagem natural, o que 
a caracteriza como artificialmente constituída. É comprometida com aspectos demarcatórios, suas 
significações são precisas e rigidamente estruturadas, de modo que seus termos apresentam-se de 
forma unívoca e suficientemente apta para indicar com exatidão as situações que descreve. Suas 
proposições são na medida do possível isentas de inclinações ideológicas (valorativas). Seus planos 
sintáticos e semânticos são cuidadosamente elaborados, o que importa uma redução no seu aspecto 
pragmático. 
(iv) Linguagem filosófica \u2013 é o instrumento das reflexões e meditações humanas. 
Nela o sujeito questiona sua trajetória existencial, seu papel no mundo, seus anseios, e apelos. É 
saturada de valores e pode voltar-se tanto à linguagem natural (conhecimento ordinário \u2013 doxa), 
quanto à linguagem científica (conhecimento científico \u2013 episteme). 
(v) Linguagem formalizada ou lógica \u2013 assenta-se na forma estrutural, tendo seu 
fundamento na necessidade de abandono dos conteúdos significativos das linguagens idiomáticas para 
o estudo da relação de seus elementos (campo sintático). Nela são revelados os laços estruturais 
disfarçados pelos conteúdos significativos. É composta por símbolos artificialmente constituídos 
denominados variáveis e constantes, que substituem as significações e os vínculos estruturais. 
Sintaticamente rígida e bem organizada, sua dimensão semântica apresenta uma e somente uma 
significação e seu plano pragmático é bem restrito, mas existente. 
93 
 
(vi) Linguagem artística \u2013 produzidas para revelar valores estéticos, orientando 
nossa sensibilidade em direção ao belo. Desperta em nosso espírito, como primeira reação, o 
sentimento de admiração, seja pela organização de seus elementos ou pela organização simétrica de 
seus conteúdos significativos. 
Aplicando tais categorias ao estudo das linguagens do direito positivo e da Ciência 
do Direito, temos aquela como linguagem do tipo técnica e esta como linguagem do tipo científica. 
O direito positivo é produzido por legisladores (aqui entendidos em acepção ampla, 
como todos aqueles capazes de produzir normas jurídicas \u2013 ex: membros das Casas Legislativas, 
juízes, funcionários do Poder Executivo e particulares). Tais pessoas não são, necessariamente, 
portadores de formação especializada daquilo que legislam, mesmo porque, como o direito positivo 
permeia todos os segmentos do social, isto seria impossível. Até os juízes, que possuem formação 
jurídica, necessitam entrar em outros campos do conhecimento para exararem suas sentenças. Por esta 
razão, não podemos esperar que a linguagem do direito positivo tenha um grau elevado de elaboração 
próprio dos discursos produzidos por pessoas de formação especializada,