1.1 Teoria Geral do Direito - Aurora Tomazini - Capítulo 3
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1.1 Teoria Geral do Direito - Aurora Tomazini - Capítulo 3


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como é o caso da linguagem 
da Ciência do Direito, elaborada por um especialista: o jurista. 
Por outro lado, a linguagem do direito positivo não se iguala ao discurso natural, 
aquele utilizado pelas pessoas para se comunicarem cotidianamente, ela é mais depurada, apresenta 
certo grau de especificidade, ao utilizar-se de termos peculiares, mesmo não mantendo uma precisão 
linear, própria da linguagem científica. Com estas características ela se apresenta como uma 
linguagem do tipo técnica. 
Já a Ciência do Direito é rigorosamente construída, por meio de um método próprio. 
Seus enunciados são coerentemente estruturados e significativamente precisos. O cientista trabalha 
com a depuração da linguagem técnica do direito, substituindo os termos ambíguos por locuções na 
medida do possível unívocas ou, então, quando não é possível a estipulação de palavras unívocas, 
utiliza-se do processo de elucidação, explicando o sentido em que o termo é utilizado. Com estas 
características ela se apresenta como uma linguagem do tipo científica. 
Considerando-se as diferenças que as separam, a linguagem científica, na qual se 
materializa a Ciência do Direito, é um discurso bem mais trabalhado, preparado com mais cuidado e 
rigor e com maior grau de elaboração em relação à linguagem técnica do direito positivo, que lhe é 
objeto. 
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2.5. Quanto à estrutura 
Toda linguagem apresenta-se sob uma forma de estruturação lógica na qual se 
sustentam suas significações. Para termos acesso a esta estruturação temos que passar por um processo 
denominado de formalização, ou abstração lógica, mediante o qual os conceitos são desembaraçados 
da estrutura da linguagem. Tal desembaraço é alcançado pela substituição das significações por 
variáveis e por constantes com função operatória invariável, de modo que, é possível observar as 
relações que se repetem entre elas108. 
O processo de formalização encerra-se na produção de outra linguagem, denominada 
de linguagem formalizada ou lógica, representativa da estrutura da linguagem submetida à 
formalização (tomada como objeto \u2013 Lo) e que se constitui como metalinguagem (Lm) em relação 
àquela. Como toda linguagem tem uma forma estrutural, isto é, um campo sintático que se organiza de 
algum modo, podemos dizer que toda linguagem tem uma lógica que lhe é própria109. 
Submetendo as linguagens do direito positivo e da Ciência do Direito ao processo de 
formalização, observa-se que as relações estruturais que as compõem são bem diferentes e que, por 
isso, a cada qual corresponde uma lógica específica. 
 O direito positivo, por manifestar-se como um corpo de linguagem prescritiva, 
opera com o modal deôntico (dever-ser). Isto quer dizer que suas proposições se relacionam na forma 
implicacional: \u201cSe H, deve ser C" \u2013 em linguagem totalmente formalizada \u201cH \u2192 C\u201d, onde \u201cH\u201d e \u201cC\u201d 
são variáveis e \u201c\u2192\u201d é constante. Em todas as unidades do direito positivo encontramos esta estrutura: 
a descrição de um fato, representado pela variável \u201cH\u201d que implica (\u2192) uma consequência 
representada por \u201cC\u201d. 
A relação entre as variáveis, representada pela constante implicacional \u201c\u2192\u201d, indica 
aquilo que LOURIVAL VILANOVA denomina de causalidade jurídica110 e é imutável. Já as 
significações que preenchem as variáveis \u201cH\u201d e \u201cC\u201d são mutáveis conforme as referências conceptuais 
que o legislador trouxer para o mundo jurídico. Nestes termos, PAULO DE BARROS CARVALHO 
 
108
 Sobre a formalização vide LOURIVAL VILANOVA, Estruturas lógicas e sistema do direito positivo, cap. I. O 
processo será melhor estudado num capítulo próprio (sobre o Direito e a Lógica) 
109
 PAULO DE BARROS CARVALHO frisa que quando alguém reclama não existir uma lógica que tome determinada 
linguagem como objeto é porque apenas nada se falou sobre o seu plano sintático, ou porque ninguém, até agora, conseguiu 
estruturá-lo. Isto não significa dizer que ele não exista, nem que não haja a possibilidade se falar sobre ele, ou seja, 
construir uma lógica própria daquela linguagem. (passim) 
110
 Causalidade e relação no direito, p. 31. 
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trabalha com as premissas da homogeneidade sintática das unidades do direito positivo e da 
heterogeneidade semântica dos conteúdos significativos das unidades normativas111. 
Toda linguagem prescritiva apresenta-se sobre esta mesma forma, sendo estruturada 
pela Lógica Deôntica (do dever ser ou das normas)112, da qual a lógica jurídica é espécie. E, assim o é 
porque todo comando que se pretenda passar tem, necessariamente, a forma hipotético-condicional (H 
\u2192 C). Nestes termos, o direito positivo, enquanto linguagem prescritiva que é, apresenta-se 
estruturado pela Lógica Deôntica. 
Em razão do universo do comportamento humano regulado, as estruturas deônticas 
operam com três modalizadores: obrigatório (O), permitido (P) e proibido (V), que representam os 
valores inerentes às condutas disciplinadas pela linguagem prescritiva113 \u2013 \u201cSe H deve ser obrigatório 
/ permitido / proibido C\u201d. Não há uma quarta possibilidade na regulação de condutas. Neste sentido, 
quanto aos modalizadores estruturais do direito positivo aplica-se o princípio do quarto excluído. 
Diferentemente, a linguagem da Ciência do Direito opera com o modal alético (ser). 
Suas proposições relacionam-se na forma \u201cS é P\u201d \u2013 em linguagem formalizada \u201cS(P)\u201d. Esta é a 
estrutura própria das linguagens descritivas. Na Ciência do Direito, todas as unidades significativas 
constituem-se sob a mesma forma: \u201cS é P\u201d \u2013 onde \u2018S\u2019 e \u2018P\u2019 são variáveis representativas das 
proposições sujeito e predicado, mutáveis conforme as referencias conceptuais construídos pelo 
cientista; e \u2018é\u2019 é a constante, identificadora da relação entre os conteúdos significativos das variáveis S 
e P. 
A sintaxe da linguagem descritiva, da qual a Ciência do Direito é espécie, é 
estruturada pela Lógica Alética (apofântica, das ciências ou clássica). Em razão da função descritiva, 
as estruturas aléticas \u201cS é P\u201d operam com dois modalizadores: necessário (N) e possível (M), que 
representam os valores inerentes às realidades observadas pela linguagem descritiva: \u201cS é 
necessariamente / possivelmente P\u201d. Não há uma terceira possibilidade, motivo pelo qual opera-se a 
lei do terceiro excluído. 
 
111
 Direito tributário fundamentos jurídicos da incidência, p. 7. 
112
 Desenvolvida por VON WRIGHT (1976) 
113
 \u201cA relação intersubjetiva \u2013 entre sujeitos da ação ou omissão \u2013 divide-se exaustivamente nessas três possibilidades. 
Uma lei ontológica de quarta possibilidade excluída diz: a conduta é obrigatória, permitida ou proibida, sem mais outra 
possibilidade. Assim, a variável relacional deôntica tem três e somente três valores, justamente as constantes operativas 
obrigatório, permitido e proibido\u201d. (LOURIVAL VILANOVA, Norma jurídica, p. 124-125). 
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2.6. Quanto aos valores 
Entre outras características que separam as linguagens do direito positivo da Ciência 
do Direito pode ser destacado o fato de a ambas serem compatíveis valências diferentes, o que decorre 
da circunstância de cada uma apresentar-se sob estruturas lógicas distintas. 
A linguagem descritiva submete-se aos valores de verdade e falsidade 
correspondente à Lógica Alética, isto porque, seus enunciados relatam certas realidades, de tal sorte 
que é possível determinar se estão de acordo com os referenciais constituintes desta realidade. Na 
linguagem prescritiva isso não se verifica, suas proposições estipulam formas normativas à conduta e 
não se condicionam à conformação ontológica destas condutas. Independentemente do 
comportamento prescrito ser cumprido ou não, as prescrições continuam normatizando condutas. Isto 
acontece porque a linguagem prescritiva submete-se a valores de validade e não-validade,