2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres
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DisciplinaDireito Financeiro e Orçamentário28 materiais605 seguidores
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E&J * EfisÁo Superior 8uraau JtaSSeo
CAPITULO II 
Direito Financeiro
1. CO N C EITO DE DIREITO FINANCEIRO
O Direito Financeiro deve ser estudado sob duas óticas diferen­
tes, conforme seja entendido como ordenamento e como ciência. Da 
mesma forma que qualquer outro sistema jurídico (Direito Civil, Pe­
nal, Comercial etc.), o Direito Financeiro se abre para a classificação 
que distingue entre o sistema objetivo e o científico (ou sistemas inter­
no e externo). O sistema objetivo compreende as normas, a realidade, 
os conceitos e os institutos jurídicos. Sistema científico é o conheci­
mento, a ciência, o conjunto de proposições sobre o sistema objetivo, 
o discurso sobre a própria ciência.
Tendo em vista que a característica básica de qualquer sistema 
jurídico é o pluralismo, o Direito Financeiro também se pluraliza, di­
vidindo-se em inúmeros ramos e disciplinas, que por seu turno convi­
vem com as outras ordens jurídicas parciais no ambiente da interdisci- 
plinaridade, como veremos adiante.
O problema das relações entre o ordenamento e a ciência, entre o 
sistema objetivo e o subjetivo, bem como o da supremacia de um deles 
sobre o outro, é de índole filosófica e escapa ao interesse imediato 
deste compêndio. Importante observar, todavia, que o relacionamen­
to deve se desenvolver sempre de modo crítico e sob a perspectiva da 
teoria e da prática.
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2. O DIREITO FINANCEIRO CO M O ORDENAMENTO
O Direito Financeiro, como sistema objetivo, é o conjunto de nor­
mas e princípios que regulam a atividade financeira. Incumbe-lhe dis­
ciplinar a constituição e a gestão da Fazenda Pública, estabelecendo as 
regras e procedimentos para a obtenção da receita pública e a realiza­
ção dos gastos necessários à consecução dos objetivos do Estado.
Discute-se muito a respeito da autonomia do Direito Financeiro e 
da possibilidade de consistir em um sistema com normas e institutos 
próprios. De um lado autores como Amilcar de Araújo Falcão e D. 
Jarach negam a independência fenomênica do Direito Financeiro,, que 
se dilui no Direito Administrativo, no Processual, no Constitucional 
etc. D e outra parte aparecem os autonomistas, como Baleeiro, Trota- 
bas e Griziotti, que defendem a independência dogmática do Direito 
Financeiro, dando-lhe, porém, status meramente formal, a ser com­
plementado pela economia financeira e pela política. Mas a verdade 
está na tese do pluralismo, segundo o qual o Direito Financeiro, embo­
ra autônomo, está em íntimo relacionamento com os demais subsiste- 
mas jurídicos e extrajurídicos: é autônomo porque possui institutos e 
princípios específicos, como os da capacidade contributiva, economi- 
cidade, equilíbrio orçamentário, que não encontram paralelo em ou­
tros sistemas jurídicos; mas, sendo instrumental, serve de suporte 
para a realização dos valores e princípios informadores dos outros ra­
mos do Direito.
O Direito Financeiro se divide em vários ramos:
Í Direito Tributário Direito Patrimonial Público 
Direito do Crédito Público
Direito da Dívida Pública 
Direito das Prestações Finan­
ceiras
Direito Orçamentário
O Direito Tributário ou Fiscal é o ramo mais desenvolvido, que 
oferece normas melhor elaboradas, em homenagem à segurança dos 
direitos individuais. Já está codificado em diversos países. Quanto à 
denominação, as expressões Direito Tributário e Direito Fiscal podem 
ser tomadas quase como sinônimas, dependendo principalmente do 
gosto nacional: no Brasil vulgarizou-se a referência ao Direito Tributá­
rio, enquanto os franceses preferem Direito Fiscal (Droit Fiscal); há,
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Direito Financeiro Despesa Pública
entretanto, vozes que pretendem atribuir ao Direito Fiscal conteúdo 
mais extenso a abranger todas as atividades do Fisco, inclusive as per­
tinentes aos gastos públicos. O Direito Tributário é o conjunto de nor­
mas e princípios que regulam a atividade financeira relacionada com a 
instituição e cobrança de tributos: impostos, taxas, contribuições e 
empréstimos compulsórios. O Direito Tributário se subdivide em m a­
terial e formal: aquele, a compreender as normas e princípios sobre a 
instituição e a disciplina jurídica dos tributos; o direito tributário for­
mal cuida dos deveres instrumentais e dos procedimentos de arreca­
dação dos tributos.
O Direito Patrimonial Público é o ramo do Direito Financeiro que 
disciplina a receita originária do próprio patrimônio do Estado. O pre­
ço público cobrado pela prestação de serviço inessencial, as contra- 
prestações financeiras pela utilização de bens do Estado, os aluguéis e 
as demais fontes da receita originária fornecem o conteúdo do Direito 
Patrimonial Público.
O Direito do Crédito Público é o ramo do Direito Financeiro que 
regula a emissão dos títulos públicos e a captação de empréstimo no 
mercado aberto de capitais ou diretamente nos estabelecimentos ban­
cários nacionais e estrangeiros.
O Direito da Dívida Pública, pulverizado em inúmeras normas 
não codificadas, compreende a disciplina da dívida do Estado, desde o 
empenho até o pagamento das obrigações.
O Direito das Prestações Financeiras é o conjunto de princípios e 
normas sobre as transferências de recursos do Tesouro Público, que 
não representem contraprestação de aquisição de bens e serviços. 
Abrange as subvenções a governos e a particulares, as participações 
sobre o produto da arrecadação, os incentivos fiscais e as despesas 
invisíveis, como os subsídios e as isenções. O Direito das Prestações 
Financeiras é complementar ao Direito Tributário: este não pode ser 
compreendido nem medido em seu grau de centralismo e de magna­
nimidade sem a consideração dos mecanismos financeiros que o com­
plementam, especialmente as participações dos entes políticos meno­
res sobre a arrecadação de tributos alheios e a distribuição de benefí­
cios a terceiros.
3. O DIREITO FINANCEIRO CO M O CIÊN C IA
A Ciência do Direito Financeiro estuda as normas e os princípios 
que regulam a atividade financeira. Elabora o discurso sobre as regras 
da constituição e da gestão da Fazenda Pública.
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O sistema científico do Direito Financeiro é normativo. É sistema 
do dever-ser no sentido deontológico e axiológico. A recuperação do 
equilíbrio entre ser e dever-ser ou entre juízos de realidade e de valor 
só a produzirá a ciência normativa, superando o neutralismo e a utopia 
cientificista. Esse aspecto da Ciência do Direito Financeiro é deveras 
importante, pois, aqui e no estrangeiro, contrasta com posições positi­
vistas antagônicas e radicais: l â \u2014 a do normativismo, que apresenta o 
Direito Financeiro como ciência \u201cdo\u201d normativo, descritiva do dever- 
ser lógico e formal, na linha do pensamento de Kelsen e de seus segui- S 
dores; 2â \u2014 a do formalismo, que separa rigidamente a Ciência das i | 
Finanças do Direito Financeiro, cabendo a este o estudo da essência | | 
dos impostos ou a exposição dos princípios e das normas referentes à 
imposição (A. D. Giannini, A. A. Falcão); 3â \u2014 a do causalismo, que, 
sob a inspiração da sociologia e da economia utilitarista, examina a 
norma financeira como reflexo de causas sociais e históricas (Griziotti |
nn , 1 'xe IrotabasJ.
A Ciência do Direito Financeiro é aberta. Vai buscar fora de si, na 
ética e na filosofia, os seus fundamentos e a definição básica dos valo­
res. Temas como o da justiça fiscal, da redistribuição de rendas, do 
federalismo financeiro, da moralidade nos gastos públicos voltam a ser 
examinados sob a perspectiva da Ética, da Filosofia Política e da Teoria | 
da Justiça, que recuperam o seu prestígio nos últimos anos.
A Ciência do Direito Financeiro é pluralista. Abre-se para o plu- | 
ralismo metodológico, apoiando-se em vários m étodos \u2014 racionais e 
empíricos, dedutivos e indutivos, explicativos e normativos. Admite o 
pluralismo de doutrinas e a crítica permanente, pois a sua identifica­
ção com