2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres
24 pág.

2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres


DisciplinaDireito Financeiro e Orçamentário28 materiais605 seguidores
Pré-visualização8 páginas
uma só doutrina conduz ao fechamento totalitário e ao absur- |g 
do de se aceitar o sistema científico global; não há nenhuma proposta §f 
teórica pronta e acabada sobre o Direito Financeiro, mas uma perma- |§ 
nente, democrática e aberta discussão sobre os valores fundamentais jj 
do Estado Social de Direito. Com preende uma pluralidade de subsis- | 
temas científicos, orgânica e coerentemente agrupados, a estudar as Jj 
normas e os princípios reguladores da receita e da despesa pública. jj
Com respeito ao problema da autonomia didática do Direito Fi- I 
nanceiro, várias são as posições. D e um lado colocam-se os que defen- § 
dem a tese do fraccionamento, segundo a qual o Direito Financeiro | 
não tem existência autônoma, diluindo-se na Ciência do Direito Ad- | 
ministrativo, na Teoria da Constituição e em outras disciplinas jurídi- j 
cas. Outros defendem-lhe a autonomia científica, unificando-a, em- | 
bora, com a Ciência das Finanças (Griziotti e Trotabas). Mas a tese §
14
mais coerente é a da interdisciplinaridade, em que a Ciência do Direi­
to Financeiro aparece em permanente diálogo com as outras discipli­
nas jurídicas e extrajurídicas, mercê do coeficiente de normatividade 
que a todas informa: tanto o Direito Financeiro quanto as ciências 
próximas (Economia, Finanças e Política) apresentam um núcleo co­
mum de normatividade, ou seja, contêm elementos para a programa­
ção da vida social e para o estabelecimento de regras do dever-ser, o 
que se traduz em interdisciplinaridade.
A Ciência do Direito Financeiro pode ser dividida em tantos sub- 
sistemas quantos são os do fenônemo do Direito Financeiro, que vi­
mos antes (p. 12). Do lado da receita pública vamos encontrar a Ciên­
cia do Direito Tributário, a Teoria do Direito Patrimonial Público e a 
Teoria do Crédito Público. Na vertente da despesa, a Teoria da Dívida 
Pública e a Teoria do Direito das Prestações Públicas. Com o síntese, a 
Teoria do Orçamento. D e todas elas foi a Ciência do Direito Tributá­
rio a que conseguiu maior grau de aperfeiçoamento doutrinário.
A Ciência do Direito Financeiro é relativamente recente no pano­
rama do sistema jurídico externo. Surge na primeira década do século 
X X , com o livro do austríaco Myrbach-Rheinfeld traduzido para o 
francês (p. 32). Desenvolve-se extraordinariamente na Alemanha, ini­
cialmente pelo trabalho de Enno Becker, autor do Código Tributário 
de 1919; depois afirma-se pela obra de juristas do porte de Hensel, 
Nawiasky e O. Bühler; sofre, mais tarde, a influência perversa do na­
cional socialismo, que atinge inclusive o grande jurista E. Becker; re­
cupera o seu prestígio após a 2- Guerra Mundial, sendo hoje os seus 
mais importantes representantes os professores K. Tipke (Universida­
de de Colônia, aposentado) e Paul Kirchhof (Universidade de Heidel- 
berg). Na Itália o Direito Financeiro e a Ciência das Finanças tiveram 
notável progresso nas décadas de 30 e 40 (A.D. Giannini, B. Griziotti, 
E. Vanoni, Einaudi, A. Berliri), embora em parte prejudicados pela 
emergência do facismo; nas últimas décadas vem perdendo o seu vigor 
teórico. Ao m esmo tem po em que perdia prestígio o Direito Financei­
ro na Itália crescia o interesse pelo seu estudo na Espanha, que tem 
hoje uma brilhante geração influenciada por Sainz de Bujanda. Nos 
Estados Unidos os estudos financeiros se diluem na Ciência das Finan­
ças e na Economia (Musgrave, Pechman, Surrey, Buchanan) ou no D i­
reito Constitucional (Tribe). A Argentina tem tido juristas importan­
tes (Giuliani Fonrouge, D. Jarach). No Brasil a meditação jurídica so­
bre as finanças públicas encontra o seu momento mais alto, do ponto 
de vista constitucional, na obra de Rui Barbosa, nosso primeiro Minis­
tro da Fazenda republicano; importante foi a geração liberal surgida
15
com a queda do Estado Novo (A. Baleeiro, Bilac Pinto, A. Deodato e, 
mais tarde, Amilcar Falcão, Flávio Bauer Novelli e Ruy Barbosa No­
gueira); grande brilho alcançou, pelo trabalho interdisciplinar, a Co­
missão que elaborou o Código Tributário Nacional (Rubens Gomes de 
Souza, Gilberto de Ulhoa Canto e Gerson Augusto da Silva); nos últi­
mos anos a Ciência do Direito Financeiro, especialmente em seu ramo 
tributário, derivou para o positivismo formalista e normativista, em 
nítido contraste com a doutrina estrangeira, com raras exceções, como 
é o caso de Ives Gandra da Silva Martins.
4. RELAÇÕES COM OUTROS RAMOS DO DIREITO E COM 
OUTRAS DISCIPLINAS JURÍDICAS
4.1. Direito Constitucional
A Constituição brasileira regula minuciosamente a matéria finan­
ceira. Cria o sistema tributário nacional, estabelece as limitações ao 
poder tributário, proclama os princípios financeiros básicos, faz a par­
tilha dos tributos e da arrecadação tributária, dispõe sobre o crédito 
público, desenha todo o contorno jurídico do orçamento e disciplina a 
fiscalização da execução orçamentária (arts. 70 a 75 e 145 a 169). Só 
a Constituição da Alemanha é que se aproxima da brasileira, pelo ca­
suísmo de sua regulamentação. As normas e princípios financeiros in­
cluídos no texto básico são formalmente constitucionais, posto que 
aparecem explicitamente e deflagram o controle judicial da constitu- 
cionalidade se contrariados pelas normas ordinárias; mas também são 
constitucionais do ponto de vista material, eis que constituem um 
certo tipo de organização estatal \u2014 o Estado Social Fiscal \u2014 e algumas 
delas têm eficácia meramente declaratória, por emanarem diretamen­
te dos direitos fundamentais e dos valores jurídicos (as normas de 
imunidade, de proibição de privilégios odiosos e dos princípios da jus­
tiça e da segurança jurídica). Pode-se, portanto, falar de um Direito 
Constitucional Financeiro, com a prevalência da dimensão constitu­
cional das normas financeiras. Mas o leitor encontrará também opi­
niões no sentido da existência de um Direito Financeiro Constitucio­
nal (A. Baleeiro), em que apenas formalmente as normas teriam digni­
dade constitucional, mantendo o seu conteúdo financeiro.
Os estudos sobre as normas e os princípios financeiros da Consti­
tuição compõem o corpo de doutrina da Teoria da Constituição Finan­
ceira ou da Ciência do Direito Constitucional Financeiro, expressões
16
que já denotam a opção em termos metodológicos. A disciplina tem 
por objeto o estudo do Direito Financeiro sob o prisma da Constitui­
ção, isto é, preocupa-se com os aspectos constitucionais das finanças 
públicas, e não meramente com os aspectos financeiros da Constitui­
ção. Essas duas linhas de raciocínio é que marcam todos os estudos 
sobre o tema, dando lugar à Ciência do Direito Constitucional Finan­
ceiro ou à Ciência do Direito Financeiro Constitucional. Os constitu- 
cionalistas costumam dar mais atenção aos aspectos constitucionais 
das finanças; entre os tributaristas e financistas muitos privilegiam os 
aspectos financeiros da Constituição.
O Direito Financeiro se relaciona também com os outros aspectos 
do Direito Constitucional ou com as outras Subconstituições. Com o 
Direito Constitucional Político as relações são estreitas, pois questões 
como a da democracia, do autoritarismo, do federalismo e do equilí­
brio entre os poderes envolvem sempre aspectos financeiros. A mes­
ma coisa acontece com o Direito Constitucional Econômico, mor­
mente em assuntos básicos como os do intervencionismo, do mercado 
social, da livre iniciativa e da extrafiscalidade.
4.2. Direito Civil
Importantíssimas as relações entre o Direito Financeiro, princi­
palmente o seu ramo tributário, e o Direito Civil, que, inclusive, se 
colocam em perfeita simetria e paralelismo com outros conjuntos de 
problemas: o da interpretação do Direito Tributário, especialmente no 
que concerne à problemática da interpretação econômica; o das san­
ções e da ilicitude da elisão, que é abuso de forma jurídica. As escolas 
e as correntes, que ofereceram