2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres
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2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres


DisciplinaDireito Financeiro e Orçamentário28 materiais603 seguidores
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as principais respostas, podem ser 
agrupadas em três direções diferentes, não obstante o fato de haver 
profunda divergência entre alguns de seus membros. Uma das respos­
tas enfatiza a importância do Direito Tributário, a outra, a do Direito 
Civil, e a última defende a interdisciplinaridade.
a) Autonomia do Direito Tributário. A primeira orientação afir- 
ma-se no sentido da autonomia do Direito Tributário, que formaria os 
seus conceitos independentemente do Direito Civil; sendo um ramo 
mais jovem, não estaria jungido aos conceitos elaborados pela Ciência 
do Direito Civil, podendo buscar com mais liberdade as definições 
básicas para a incidência tributária. A tese da autonomia coincide, no 
plano dos sistemas objetivos, com a concepção de que o Direito Tribu­
tário é uma relação de poder, na qual o momento da publicidade ou da
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estatalidade ocupa um lugar de muita relevância. Coincide, no plano 
da teoria da interpretação jurídica, com o movimento da consideração 
econômica do tributo, desenvolvida pelos juristas alemães sob o rótulo 
geral de \u201cWirtschaftliche Betrachtungsweise\u201d, do que resultava um 
conceito dilargado de elisão.
A tese autonomista defenderam-na, entre outros, E. Becker, au­
tor do Código Tributário Alemão de 1919; Trotabas, o francês que 
defendia que \u201cas regras do direito civil não influem necessariamente 
nas modalidades de aplicação da lei fiscal\u201d (op. cit.f p. 53); Vanoni, o 
italiano que se sensibilizou com a doutrina da interpretação econômi­
ca, aceitando a coincidência dos conceitos na maioria dos casos, mas 
recusando a identidade absoluta entre os objetivos do direito privado 
e do direito tributário. O Modelo de Código Tributário para a América 
Latina, por influência dos argentinos, filiou-se à mesma orientação: 
\u201cArL 8a \u2014 Quando a norma relativa ao fato gerador se referir a situa­
ções definidas por outros ramos do direito, sem se remeter nem se 
apartar expressamente delas, o intérprete pode atribuir-lhe o signifi­
cado que mais se adapte à realidade considerada pela lei ao criar o 
tributo\u201d.
b) Primado do Direito Civil. A tese oposta é a do primado do 
Direito Civil, defendida pelos juristas de índole positivista, que se 
apegam ao maior poder de conceptualização do Direito Civil e que 
desenvolvem o argumento de que o Direito Tributário não deve se 
afastar das definições elaboradas pelos civilistas, com o que descuram 
da consideração da capacidade contributiva e se mostram menos aten­
tos à justiça e à igualdade. Essa teoria reduz o poder tributário à rela­
ção jurídica de natureza obrigacional, em tudo semelhante ao vínculo 
de direito privado. Do ponto de vista hermenêutico, a tese do primado 
do direito civil desemboca na defesa da interpretação literal e na recu­
sa da teleológica.
Integram essa corrente de ideias, entre outros: Geny, que enten­
de deva o juiz respeitar os conceitos do direito civil, quando a lei tri­
butária não os tenha modificado expressamente; A. D. Giannini, que 
dá especial ênfase à extrapolação das disposições sobre o nascimento, 
a modificação e a extinção da relação de direito privado para a relação 
tributária (rapporto d'imposta) .
No Brasil, onde a corrente positivista sempre foi predominante, 
deu-se a adesão à teoria do primado do direito civil, especialmente 
pela influência dos italianos. Rubens Gomes de Souza (op. cit., p. 35) 
entende que \u201cjá estando certos conceitos definidos e denominados
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pelo direito civil, comercial etc. cuja elaboração precedeu à do direito 
tributário, compreende-se que este último, ao se referir àqueles mes­
mos conceitos, adote, por uma questão de clareza e precisão, as mes­
mas denominações e definições já conhecidas\u201d, manifestando-se con­
trário à interpretação econômica. A.R. Sampaio Dória chegou a escre­
ver monografia sobre o conceito de evasão e elisão, concluindo pela 
\u201clegitimidade jurídica da elisão fiscal\u201d (op. cit., p. 141). A. A. Becker 
afirma que as "expressões têm dentro do Direito Tributário o mesmo 
significado que possuem no outro ramo do direito, onde originalmen­
te entraram no mundo jurídico\u201d (op, cit., p. 111). Até mesmo o CTN 
contém uma norma \u2014 a do art. 110 \u2014 que só não imobilizou o direito 
brasileiro sob a regência do direito civil porque as regras sobre inter­
pretação não têm eficácia jurídica e porque o citado art. 110 é uma 
norma confusa e que carece ela mesma de interpretação.
c) Equilíbrio. A terceira posição, que advoga a interação das disci­
plinas jurídicas, parece-nos ser a que melhor resolve o problema, 
representando ainda um ponto de equilíbrio entre as duas teses extre­
madas. Os conceitos de direito tributário, sobre os quais repousa o 
tributo, são os mesmos elaborados pelo direito civil, em homenagem à 
unidade que deve imperar na formação do direito, \a menos que os 
ditos conceitos de direito civil sejam objeto de deformação, de abuso 
ou de excesso de formalismo, o que levaria a se caracterizar a elisão 
tributária abusiva. A tese está em íntima relação com a apreciação 
sistêmica, pois, além de manter a unidade com os conceitos dos outros 
ramos da ciência jurídica, o direito tributário deve se abrir também 
para as ciências extrajurídicas, especialmente a Economia e as Finan­
ças. Demais disso, no plano da hermenêutica, a tese da unidade leva à 
valorização da interpretação teleológica e a novo conceito da interpre­
tação literal, bem como permite seja repensada a analogia em matéria 
fiscal, eis que aproveita as colaborações mais recentes da teoria da 
interpretação, da hermenêutica filosófica, da tópica e da lingüística. 
No que concerne aos sistemas objetivos, a tese da interdisciplinarida­
de se aproxima da compreensão do tributo como emanação da sobera­
nia tributária e, ao mesmo tempo, como relação jurídica obrigacional 
sujeita ao império da lei. Entre os mais distintos representantes dessa 
corrente está K. Tipke, que já tem obra extensa sobre os sistemas 
tributários e sobre a analogia, e que se socorre do argumento de que o 
conceito dos civilistas é apto para expressar todas as situações econô­
micas sobre as quais incide a tributação, pelo que só deve ser deixado 
de lado nos casos de abuso de forma jurídica (Missbrauch von Gestal- 
tungsmõglichkeiten), nos quais estará quebrada a unidade do direito 
pela contradição teleológica entre as disciplinas.
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4.3. Direito Administrativo
As relações entre o Direito Financeiro e o Administrativo são 
muito estreitas,, mas se afirmam no sentido inverso ao das relações 
entre aquele e o Direito Civil: quem é autonomista na problemática 
das relações entre Direito Tributário e Direito Civil tende a defender 
o primado do Direito Administrativo; os que apregoam a prioridade 
do Direito Civil defendem a autonomia frente ao Direito Administra­
tivo. Tudo porque o relacionamento entre Direito Tributário e Direito 
Administrativo gira em torno dos problemas da relação jurídica obje­
tiva e da interpretação jurídica. Também aqui podem ser indicadas 
três direções principais: a do primado do Direito Administrativo, a da 
autonomia do Direito Tributário e a da interdisciplinaridade e equilí­
brio.
a) Primado do Direito Administrativo. Os juristas que defendiam 
a ideia de que a relação tributária é uma relação de poder teriam que 
concluir, para guardar a coerência, que o Direito Tributário se diluía 
no Direito Administrativo. Myrbach-Rheinfeld, por exemplo, falava 
de um Direito Administrativo Financeiro que, ao lado do Direito 
Constitucional Financeiro, regulava a totalidade da relação tributária.
b) Autonomia do Direito Financeiro. A tese oposta é a da autono­
mia do Direito Financeiro frente à Ciência do Direito Administrativo. 
Quando o pensamento jurídico se encaminhou no sentido de definir a 
relação tributária como um vínculo de natureza obrigacional, a relação 
de poder passou a um segundo plano, transformada em mera