2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres
24 pág.

2.5 Curso de Direito Financeiro - Lobo Torres


DisciplinaDireito Financeiro e Orçamentário20 materiais591 seguidores
Pré-visualização8 páginas
e o Direito Pre­
videnciário e Assistencial se confunde em grande parte com o Direito 
Tributário. Uma das conseqüências da confusão entre fiscalidade e 
parafiscalidade foi, no plano institucional, a criação da Secretaria da 
Receita Federal do Brasil (Lei n° 11.457/2007), que congrega a Secre­
taria da Receita Federal e a Secretaria da Receita Previdenciária.
4.8. Política do Direito
O Direito Financeiro está em íntima relação com a Política do 
Direito. Melhor, talvez, falar de Política do Direito Financeiro, estrei­
tamente conectada à Política Fiscal ou Financeira, tendo em vista que
23
;a j*ígidà separação entre Direito, Política e Economia era opinião posi­
tivista;
-íH M ú ito próximo desse conceito de Política do Direito estão os de 
polícia e de policy, que projetam a problemática das políticas públicas 
(econômica, social, financeira etc.) e das policies (Public Policy, Social 
Policy, Science Policy).
Mas a verdade é que a Política do Direito não constitui nenhuma 
disciplina autônoma extrajurídica, senão que é um aspecto, uma dire­
ção ou um problema dentro da Filosofia do Direito e da própria Ciên­
cia do Direito. Não se trata, todavia, de projeção de mera política em 
torno do Direito, nem de decisões políticas que dão origem à ordem 
estatal, nem de manipulação do poder. Cuida-se antes da instituciona­
lização do poder, da transformação do ato político em ato de produção 
de normas jurídicas.
4.9. Direito Comparado
É importantíssimo o estudo do Direito Comparado, a ver as in­
fluências recebidas pelo nosso Direito Financeiro dos textos positivos 
de outras nações cultas. Advirta-se que não se trata de subserviência 
cultural ou de cópia de textos positivos, mas de diálogo indispensável 
entre experiências jurídicas semelhantes, servindo a ciência estrangei­
ra de pretexto para o início do processo de crítica ou de ensaxo-e-erro.
Merece consideração também o problema dos tipos nacionais, ou 
seja, da tendência para a formação de determinados tipos de pensa­
mento nas nações cultas, que acabam por dominar o sistema científico 
de outros povos. Contribuiu sensivelmente para o fortalecimento do 
positivismo na Teoria Constitucional Tributária brasileira o entusias­
mo pela teoria italiana, escancaradamente positivista. A influência do 
Direito Constitucional americano sobre a obra de Rui Barbosa permi­
tiu-lhe arrostar por alguns anos o predomínio positivista. O francesis- 
mo positivista e estruturalista também tem prejudicado o progresso 
da cultura brasileira. O diminuto conhecimento da obra dos grandes 
constitucionalistas alemães do após-guerra, marcadamente antipositi- 
vista, bem como a dos financistas, orientada para a Política Fiscal, blo­
queia o desenvolvimento da Teoria da Constituição Tributária no sen­
tido da abordagem de temas como os da liberdade, das limitações do 
poder tributário, do federalismo e da justiça. O afastamento das fon­
tes norte-americanas e inglesas, tão importantes no Império e na 1~ 
República, constitui também motivo para o entorpecimento do Direi­
24
to Financeiro, mormente quando se considera que os constitucionalis- 
tas americanos estão conseguindo superar o realismo e o positivismo, 
e os financistas desenvolvem cada vez mais a Fiscal Policy.
A influência do Direito Constitucional Financeiro estrangeiro é 
irrecusável, porque os problemas constitucionais e humanos são uni­
versais. A Constituição Tributária brasileira mantém até hoje a in­
fluência americana no campo das imunidades e das proibições de 
desigualdade. A Constituição Orçamentária no texto de 1988 de­
nota a inspiração na Constituição de Bonn. O Banco Central ganhou 
estatura constitucional, como já acontecia no estrangeiro (Alemanha 
e Portugal).
E absolutamente indispensável a comparação de sistemas, inclusi­
ve para a recepção de novos tributos ou novas técnicas, objeto da elu- 
cubração da ciência alienígena. O imposto sobre o valor acrescido, por 
exemplo, produto da elaboração dos teóricos franceses e alemães, in- 
corporou-se ao nosso sistema sob a forma do ICMS e do IPI. O impos­
to de renda, surgido na Inglaterra e, após, na Alemanha ingressou em 
todas as legislações tributárias.
O correto manejo dos instrumentos do Direito Comparado serve 
também à crítica da recepção de tributos e doutrinas. A transplanta­
ção do imposto sobre o valor acrescido da França para o Brasil, sem 
maiores cuidados no que concerne à organização unitária daquela e ao 
federalismo brasileiro, levou a inúmeros impasses na aplicação do tri­
buto, pela falta de harmonia entre o sistema tributário nacional e o 
federado. A influência dos tipos nacionais científicos deve ser conside­
rada com atenção: a exagerada admiração dos tributaristas brasileiros 
e latino-americanos pela ciência cultivada na Itália, de índole positi­
vista, que reproduzia com equívocos certa doutrina alemã, inspirou 
a codificação do sistema tributário de diversos países da América 
Latina.
O estudo do Direito Comparado serve também para quebrar cer­
to sentido mágico que adquirem os sistemas estrangeiros, tanto obje­
tivos que científicos, ao aparecerem como modelos de perfeição. Bas­
ta que se leiam atentamente os juristas mais lúcidos para ver que os 
sistemas tributários da Alemanha, da Itália, da França e dos Estados 
Unidos, por exemplo, vêm sendo acusados de complicados, caóticos, 
excessivamente casuísticos, injustos e ineficientes, enquanto a respec­
tiva teoria é taxada de incoerente e irracional.
25
5. RELAÇÕES COM OUTROS FENÔMENOS E DISCIPLINAS
5.1. Filosofia
Houve no pensamento ocidental uma longa tradição filosófica em 
torno das questões financeiras de caráter geral. De Santo Tomás de 
Aquino até Suarez predominou a meditação sobre o justo tributário. 
Hobbes e Montesquieu escreveram páginas profundas sobre o assun­
to. Bodin disse que as finanças eram o nervo do governo.
Com a onda positivista, que tentava o cientificismo no conheci­
mento do jurídico e do social, a Filosofia do Direito perdeu a impor­
tância e abdicou, em favor da Economia e da Ciência das Finanças, do 
exame do problema do justo tributário.
Sucede que, de uns anos a esta parte, talvez mais precisamente 
depois do término da 2- Grande Guerra, houve o renascimento da 
Filosofia do Direito, com a retomada da meditação sobre a natureza 
das coisas e sobre o método jurídico, o que repercutiu intensamente 
sobre o Direito Financeiro. Dentre os assuntos que passaram a ocupar 
a atenção dos filósofos do direito e dos tributaristas com preocupações 
filosóficas sobressai a teoria da justiça, com especial atenção para o 
aspecto tributário; nos últimos anos publicaram-se alguns livros fun­
damentais, com a recuperação da abordagem filosófica da justiça fis­
cal. Já se fala em uma Filosofia do Direito Tributário.
A Filosofia Política se relaciona de modo muito intenso com o 
Direito Financeiro. Novas ideias sobre a essência do político, das for­
mas de governo e das instituições públicas passam necessariamente 
pela fiscalidade.
O Direito Financeiro se aproxima também da Ética, posto que o 
Estado Ético tem como uma de suas dimensões o Estado Social Fiscal.
A Filosofia das Ciências também trouxe novas luzes para o estudo 
do Direito Financeiro, especialmente no que concerne ao pluralismo 
metodológico e à superação das teses da neutralidade científica.
5.2. Política
O Direito Financeiro guarda o relacionamento o mais íntimo com 
a Filosofia Política, como açabamos de ver. Até porque, no plano obje­
tivo, problemas como os da democracia ou do totalitarismo envolvem 
opções financeiras.
26
Pequena, todavia, é a influência da Ciência Política em seus as­
pectos gerais. Pretendendo ser uma ciência de realidade e neutra, fal­
ta-lhe o coeficiente axiológico que lhe permita se relacionar com a 
disciplina essencialmente normativa que é o Direito Financeiro. Onde