Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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04270 - São Paulo, SP 
A CRIANÇA 
E s t r u t u r a e D inâmica d a Persona l idade e m D e s e n v o l v i m e n t o 
I n í c i o d e sua F o r m a ç ã o 
ERICH N E U M A N N 
A CRIANÇA 
Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento 
desde o Início de sua Formação 
Tradução 
DR. PEDRO RATIS E S ILVA 
Membro Analista da Sociedade 
Brasileira de Psicologia Analítica 
E D I T O R A C U L T R I X 
São Pau lo 
Titulo do original: 
Das Kind 
Struktur und Dynamik der Werdenden Persönlichkeit 
Copyright © 1980 by Verlag Adolf Bonz GmbH, Fellbach. 
Edição Ano 
1-2-3-4-5-6-7-8-9-10. 91-92-93-94-95 
Direitos de tradução para a língua portuguesa 
adquiridos com exclusividade pela 
ED ITORA C U L T R I X L T D A . 
Rua Dr. Mário Vicente, 374 - 04270 - São Paulo, SP - Fone: 272-1399 
que se reserva a propriedade literária desta tradução. 
Impresso nas oficinas gráficas da Editora Pensamento. 
S U M Á R I O 
CAPITULO UM 
A Relação Primal Mãe-Filho e as Primeiras Fases do Desenvolvimento da 
Criança 7 
CAP ÍTULO DOIS 
Relação Primal e Desenvolvimento da Relação Ego-Self 23 
CAP ÍTULO TRÊS 
Distúrbios da Relação Primal e suas Conseqüências 49 
CAP ÍTULO Q U A T R O 
Do Matriarcado ao Patriarcado ..... 77 
O Uroboros Patriarcal e a Mulher 80 
A Criança e o Masculino na Fase Matriarcal . ... 84 
A Crescente Independência do Ego e o Surgimento de Conflitos 89 
O Desmame 92 
Higiene, Postura Ereta é o Problema do Mal ....... 94 
CAP ÍTULO CINCO 
Os Estágios no Desenvolvimento do Ego da Criança 109 
Os Estágios Fálico-ctônico e Fálico-Mágico do Ego 113 
A Transcendência do Matriarcado pelo Ego Mágíco-Guerreiro e pelo Ego 
Solar 126 
Conclusões a Serem Tiradas desse Mito 131 
Totemismo e o Desenvolvimento Patriarcal . 135 
CAPÍTULO SEIS 
O Patriarcado.. 141 
O Arquétipo do Pai e o Princípio Masculino......... 148 
N O T A S À GUISA DE CONCLUSÃO 
Notas 165 
Fontes 173 
B i b l i o g r a f i a . . . 179 
1 
A RELAÇÃO PRIMAL MÃE-FILHO E AS 
PRIMEIRAS FASES DO DESENVOLVIMENTO 
DA CRIANÇA 
Assim como o mundo matriarcal \u2014 no qual o predomínio é do inconscien-
te e no qual a consciência egóica ainda não se desenvolveu \u2014 domina a psicolo-
gia das culturas primitivas, o mesmo acontece ontogeneticamente no desenvol-
vimento de cada ser humano isolado. 
Uma das características fundamentais que diferencia o homem dos animais, 
até mesmo daqueles que se encontram mais próximos do homem na escala evo-
lutiva, é o fato de o filhote humano, para empregar a terminologia de Portmann, 1 
precisar passar por uma fase embrionária intra-uterina, e também por uma ou-
tra, extra-uterina. Os filhotes dos mamíferos superiores nascem num estado de 
relativa maturidade; ou imediatamente, ou logo um pouco após o nascimento, 
já são pequenos adultos, que têm não apenas toda a aparência dos animais adul-
tos, como também já se encontram aptos a levar a vida sem precisarem de qual-
quer ajuda. O embrião humano, para nascer num estado de amadurecimento equi-
valente, precisaria passar por um período de gestação de cerca de vinte a vinte 
e dois meses. Em outras palavras, o filhote humano, após os nove meses que pas-
sa no útero, requer ainda mais um ano para atingir o grau de maturidade que ca-
racteriza a maioria dos demais mamíferos ao nascer. Deste modo, todo o primei-
ro ano da infância precisa ser considerado como fazendo parte da fase embrio-
nária. Soma-se à fase embrionária, em que a criança se encontra psíquica e fisi-
camente integrada no corpo da mãe, uma segunda fase, pós-uterina, pós-natal, 
durante a qual a criança já fez sua entrada na sociedade humana e, como seu ego 
e sua consciência começam a desenvolver-se, vai incorporando a linguagem e os 
costumes de seu grupo. Esta fase, que Portmann denominou de período uteri-
no social, caracteriza-se pelo domínio da relação primal com a mãe, que, de iní-
cio, representa para a criança todo o mundo apreensível, todo o ambiente cir-
cundante, mas que pouco a pouco vai propiciando à criança experimentar aspec-
tos novos dq mundo. 
Este fenômeno básico, específico da humanidade, estabelece um contex-
to humano para o desenvolvimento da criança desde "seu início. O estado de de-
pendência da existência humana é único no reino animal pelo fato de, na parte 
final de sua vida embrionária, o filhote humano ser retirado das mãos da míe-na-
tureza e. entregue a uma mãe humana. A relação primal da criança com a mãe 
é mais do que uma relação primária, pois graças a essa relação, antes mesmo do 
seu "verdadeiro" nascimento, que ocorre quando tem por volta de um ano de 
10 
idade, a criança vai sendo moldada pela cultura humana, uma vez que a mãe 2 vi-
ve imersa num coletivo cultural, cujos valores e linguagem influenciam, incons-
cientemente mas de modo efetivo, o desenvolvimento da criança. A atitude do 
coletivo em relação à criança, ao seu sexo, à sua individualidade e ao seu desen-
volvimento, pode ser uma questão de vida ou de morte. 0 fato de ser menino 
ou menina, ou gêmeos, a aparência física da criança ou as circunstâncias do seu 
nascimento, se avaliados negativamente pelo coletivo, demonstra-se tão desas-
troso para o futuro da mesma quanto ser portador de uma deformidade física 
ou de uma deficiência mental. 
Por isso, já na fase pré-natal existe uma evidente adaptação à coletivida-
de, relacionada com a atitude que esta mantém, de aceitação ou rejeição, de ca-
da um de seus indivíduos componentes. Ao lado, porém, desta tendência à adap-
tação, encontramos já bem desde o início o automorfismo do indivíduo, uma 
necessidade de formar seu próprio ser a partir dos elementos particulares que o 
constituem, no interior da coletividade e, se necessário, independentemente de-
la ou em oposição a ela. 
Quando a Psicologia Analítica tenta formular as leis que dirigem o desen-
volvimento da personalidade, precisa inventar uma nova terminologia, visto que 
tomar emprestados os termos criados por Freud e sua escola pode tornar indis-
tinguíveis as diferenças profundas entre as direções das duas psicologias profun-
das. Os adeptos da Psicologia Analítica até agora negligenciaram essa imposição 
e a conseqüência tem sido ocorrer uma perda na clareza. Postular a necessidade 
dessas correções na terminologia