Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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simbolismo são dominantes. De início, o desenvolvimento realmente sexual e 
genital encontra-se também assimilado a esse simbolismo alimentar. É por es-
sa razão que não classificamos essa fase como de sexualidade infantil, pois é 
um simbolismo especificamente diverso o que prevalece, mobilizado princi-
palmente por um outro instinto, o alimentar. Esta fase, como todas as demais, 
é todo-abrangente; expressa tudo em termos de seu próprio simbolismo. Quan-
do mais tarde os órgãos genitais ganharem a primazia e o instinto sexual tor-
nar-se predominante, mobiliza-se um simbolismo sexual que por sua vez tudo 
apreende e interpreta a partir de seu próprio ponto de vista, ou seja, sexualizan-
do tudo. 
Esta última fase não pode ser derivada da primeira. A sexualidade não é 
uma diferenciação posterior do instinto alimentar, nem o instinto alimentar é 
um estágio preliminar da sexualidade. É característico dos estados de transição 
que uma fase posterior neste caso, a sexual \u2014 seja apreendida inicialmente por 
meio do simbolismo da anterior - no caso, a fase alimentar. Conseqüentemen-
te, é inadmissível interpretar a fase oral, a mais precoce de todas, como sádica. 
Um homem que morde um pedaço de alguma coisa para comer não é mais sá-
dico do que um canibal etnológico. E isso permanece válido mesmo quando mais 
tarde, no estágio sexual do desenvolvimento infantil, os conteúdos e funções do 
estágio alimentar forem sexualizados. 0 ato de comer, enquanto significa incor-
porar, nada tem a ver com castração, e a imagem da mãe boa ou má, ou do seio 
bom e do seio mau, não surgem como projeção de sentimentos positivos ou agres-
sivos da criança com relação à mãe, mas é a expressão de uma situação objetiva 
não ligada a agressão ou sadismo infantis; estes são sempre secundários na sua 
origem; são a expressão de um ego ferido. 
Quando Melanie Klein escreve: "0 corpo da mãe é por isso uma espécie 
de armazém onde se encontra estocada a gratificação de todos os desejos e a tran-
qüilização de todos os t e m o r e s . . . " 1 8 está descrevendo um elemento objetivo 
genuíno da relação primal, não uma projeção infantil. Da mesma forma, a ima-
gem da mãe negativa é uma imagem de ansiedade secundária a uma situação pe-
rigosamente prejudicial produzida por uma relação primal insatisfatória, e não 
uma projeção de agressões infantis primárias. 
Só se entendermos o desenvolvimento das várias fases e aprendermos a 
distinguir os simbolismos pertinentes a cada uma delas, poderemos chegar a uma 
interpretação consistente das manifestações psíquicas normal e anormal da crian-
ça e do adulto. Na fase da realidade unitária, o bebê já começa a distinguir en-
tre o que ele é e o que lhe é exterior, e a recolocar elementos dispersos do cos-
mos no interior de suas próprias fronteiras; assim, compreende-se que a mais pre-
coce conscientização de uma individualidade distinta deva acontecer através da 
pele, a superfície que delimita o corpo do mundo exterior. Mas aqui também, 
não apenas os laços de união com a mãe, mas também a crescente independên-
cia da criança, são moldados pela relação primal. O contato constante com o 
corpo da mãe propicia ao complexo do ego a experiência e a consciência da exis-
tência de um Self Corporal. 
No ser humano, as funções motoras só se desenvolvem gradualmente, e 
só gradualmente é que o pólo da cabeça, sede da maior parte dos órgãos dos sen-
tidos, e daí também do ego, afirma a sua preeminência. Em geral, salvo nos ca-
sos de feridas ocasionadas por doenças, a sensibilidade no tronco do corpo é me-
nor \u2014 razão pela qual as criancinhas desenham criaturas que possuem tão-somen-
te cabeças e pés \u2014 conquanto a entrada e a saída do trato alimentar tenham si-
do desde o início emocionalmente acentuadas. 
A base indispensável para o desenvolvimento do ego da criança é a figura 
da mãe representando uma Grande Mãe arquetípica, que proporciona não ape-
nas prazer, mas também compensação, segurança e proteção. O Ego, de início 
sonolento durante a maior parte do tempo, emergindo apenas em impulsos iso-
lados que se tornam gradualmente mais freqüentes, mais ativos e independen-
tes à medida que a criança se diferencia da mãe, caracteriza-se por um proces-
so de integração que a mãe torna possível e do qual se apresenta como modelo. 
A experiência fundamental dessa fase, enquanto característica da Gran-
de Mãe, é a de proteção da continuidade da existência. O ego tem total confian-
ça no Self. As primeiras experiências de polarização \u2014 prazer e desconforto, in-
terno e externo, por exemplo \u2014, estão a salvaguarda de um processo de compen-
sação proporcionado pela mãe. Deste modo, mesmo tensões que produzem des-
conforto são suportadas e integradas graças a uma confiança, inconsciente, é cla-
ro, e não percebida pelo ego, de que elas serão descarregadas. Pois só em casos 
raros, a mãe arquetípica não deseja ou não é capaz de apaziguar a tensão e o so-
frimento da criança. 
Todas as funções ativas e passivas do corpo estão envolvidas nessa situação 
de proteção característica da relação primal, e submetidas à supervisão benevo-
lente da mãe, que as aprova. A lém de serem acompanhadas pelo prazer biopsí-
quico da tensão e do relaxamento, são também, pelo menos em nossa cultura, 
que será a única de que nos ocuparemos aqui, assistidas pelas ternas emoções 
da mãe que, sendo o mundo e o Self, confere segurança interior e exterior, e as-
sim as endossa. 
A constelação dominante de segurança e confiança não apenas se mani-
festa na inquestionavelmente prazerosa sensação do corpo, que é essencial pa-
ra o desenvolvimento sadio da personalidade como um todo, mas tem também 
outras conseqüências vitais, como a passagem normalmente destituída de ten-
sões e de medo do estado de vigília para o sono, no qual o ego, com a confian-
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ça natural que é o fundamento do eixo ego-Self tanto na criança como no adul-
to, abdica de suas funções e entrega-se ao Self. Mesmo nos estados em que não-
-é-um-ego, o ego precisa estar suspenso contido na totalidade protetora do Self 
e, embora naturalmente o ego não reflita sobre essa questão, trata-se de uma das 
condições essenciais para sua existência. Por essa razão, e isso não é válido só 
para a criança, a dificuldade para conciliar o sono freqüentemente expressa uma 
ansiedade profundamente instalada, que emerge de um distúrbio na relação do 
ego com o Self e de uma lacuna no sentimento inconsciente de confiança, que é 
uma das condições essenciais para se ter saúde. 
A relação primal com a mãe, o estado de imersão da criança no continen-
te materno, constituem-se no fundamento não apenas da relação da criança com 
seu próprio corpo, mas também de sua relação com outras pessoas. Nessa fase, 
a segurança da relação primal ainda não abrange um " t u " , uma vez que, na rea-
lidade unitária, os limites entre mãe e filho ainda não estão demarcados, e só 
gradativamente os dois surgem como dois pólos inter-relacionados desse compos-
to que forma a união dual. Por isso, esse sentimento inicial de segurança forma 
a base do relacionamento emocional indispensável para todo contato social. 
O significado do corpo na relação primal, como base para todas as futu-
ras relações sociais, estende-se para muito além da esfera humana. Ado l f Portmann 
assinalou 1 9 que as funções do corpo animal fornecem o fundamento de suas re-
lações sociais. Os órgãos da respiração transformam-se em órgãos vocais, o re-
vestimento térmico constituído por pêlos ou penas \u2014 e num estágio ainda mais 
primitivo, a coloração dos peixes \u2014 podem vir a expressar disposições emocio-
nais; a urina, as fezes e as secreções das glândulas sebáceas possuem um impor-
tante "caráter de comunicação". Isto para só mencionar os órgãos sociais pro-
priamente ditos, que servem para orientar