Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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amor e aceitação da mesma mãe que se vai distanciando da criança ou de quem 
a criança vai-se afastando. É como se essa separação apenas ampliasse a área de 
amor entre mãe e filho e a tensão a ser suportada em seu interior; trata-se de um 
degrau necessário que não ameaça a segurança da relação de amor. 
Um texto hassídico, no qual o papel da mãe é caracteristicamente assu-
mido por Deus e pelo Pai, interpreta as palavras do Velho Testamento: "Noé 
foi com o Senhor", da seguinte maneira: 
Noé era tão devotado a Deus que cada passo que dava parecia ser dirigido 
por Deus, como se Deus se postasse à sua frente encarando-o e colocando o seu 
pé no lugar e conduzindo-o como um pai que ensina o filhinho a andar. De mo-
do que, quando o Pai se retirou, Noé percebeu: "É para que eu possa aprender 
a andar." 1 
Esta passagem não descreve, como poderia parecer à primeira vista, ape-
nas uma atitude simples e infantil de fé confiante. Se fosse assim, as palavras te-
riam de ser: "Deus foi com Noé . " A ordem inversa coloca ênfase na atitude de 
Noé e significa que a ligação de Noé com Deus era indissolúvel. Inquestionavel-
mente é assim, pois a fé total de Noé abarca tanto a presença como a ausência 
de Deus. Noé aceita até mesmo os momentos de abandono por parte de Deus, 
quando Deus fica inteiramente eclipsado. Noé vai sozinho, é independente e não 
precisa de tutela, mas para ele até mesmo a solidão e o abandono constituem 
uma orientação, e por isso está apto para superar a extrema escuridão que advém 
de sentir-se abandonado por Deus. Seu Self, moldado pela sua relação com Deus, 
opera independentemente como uma luz guia. 
Em outra história hassídica: " U m jovem rabino lamentou-se ao Zaddick 
de R iz in : 'Nas horas em que me devoto ao estudo, sinto vida e luz, mas quando 
paro de estudar, tudo desaparece. Que devo fazer?' O Zaddick respondeu: 'É co -
mo quando um homem atravessa uma floresta numa noite escura. Durante um 
certo t empo, um outro homem, segurando uma lanterna, o acompanha, mas na 
encruzilhada eles se separam e o primeiro homem tem de tatear seu caminho sozi-
nho. Mas se um homem carrega sua própria luz, não precisa temer a escur idão ' . " 2 
A situação religiosa desvendada nessa história é obviamente a constelação 
da relação primal deslocada para Deus. A atitude de Noé situa-se num plano su-
perior, o do ego integral, que na segurança da relação primal adquiriu um rela-
cionamento confiante com seu próprio Self. De acordo com a atitude e o desen-
volvimento patriarcais do povo judeu, a figura da mãe, que é quem naturalmen-
te ensina a criança a andar, é aqui substituída pela de Deus. 
A segurança que adquiriu durante uma relação primal bem-sucedida capa-
cita o ego a integrar as crises que surgem no decorrer das fases naturais do de-
senvolvimento transpessoal, assim como as perturbações pessoais e individuais 
que põem em perigo o curso natural de seu desenvolvimento \u2014 isso ocorre, com 
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maiores ou menores variações, não importando se os distúrbios emanam da es-
fera da vida da criança ou da mãe, ou se provêm de eventos impessoais. Em qual-
quer caso, uma relação primal positiva propicia a maior probabilidade de a crian-
ça suplantar esses distúrbios. 
Isto levanta a questão do mimar a criança, que alguns estudiosos da psi-
cologia infantil consideram ser tão importante quanto a das ansiedades que emer-
gem ao longo da relação primal. Na verdade, amor demasiado por parte da mãe 
de modo algum é tão perigoso e destrutivo quanto um relacionamento mãe-fí-
lho negativo, e amor de menos. 
No curso da relação primal, uma mãe não amorosa, como uma Mãe Ter-
rível, pode destruir ou danificar seriamente as bases da existência da criança. 
Mimar, por outro lado, não produz distúrbios sérios, até tornar-se necessário pa-
ra a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou preve-
nido pelo fato de a mãe ter mimado o filho. Isto pode fazer surgir um sem-nú-
mero de distúrbios neuróticos causados pelo vínculo inadequado da criança com 
a mãe. Mas, via de regra, uma relação primal positiva na primeira fase de vida 
propicia uma personalidade sadia com excelentes chances para sobrepujar tan-
to esse como outros distúrbios. Uma personalidade assim sadia é sinônimo de 
um eixo ego-Self normal e fornece uma garantia de que a relação compensató-
ria entre consciente e inconsciente, que em certos distúrbios graves fica seria-
mente prejudicada, continuará funcionando em certa medida. 
Além disso, a noção de mimar é, em grande parte, condicionada pela cul-
tura. Uma mãe que, fiel ao arquétipo da mãe, trata afetuosamente o filho, é con-
siderada em meios puritanos como mimadora, e onde a tendência patriarcal de 
endurecer a criança desde a mais tenra idade por meios sádicos prevalece, essa mãe 
chega a ser acusada de o estar tornando efeminado. Os desvios da relação primal 
normal condicionados pela cultura são bastante consideráveis e, na verdade, po-
de-se até achar que uma relação primal normal não passa de uma ficção ideal. 
Conseqüentemente, quando nos referimos a um autêntico mimar, temos em men-
te um desvio, não de um padrão culturalmente condicionado, mas daquilo que 
consideramos uma relação primal normal. 
A causa de um mimo verdadeiro com freqüência tem de ser buscada numa 
constelação ou situação individual da mãe. Assim, por exemplo, a mãe de um filho 
único, uma mãe que enviuvou, que não ama o marido ou não é amada por ele, ou 
cujo marido é velho demais para ela, muitas vezes não tem um comportamento 
normal. Privada de outras saídas, inunda o filho com seu amor; a conseqüência é um 
mimar verdadeiro, decorrente de uma ligação amorosa excessiva. Esse mimar pode 
obstruir ou parar o desenvolvimento de uma criança, mas isso não é obrigatório. 
Encontramos essa constelação num número não pequeno de indivíduos criativos, 
nos quais o amor materno excessivo, o sentimento de ser o filho favorito, produziu 
uma intensificação primária de seu senso vital e de segurança. Posteriormente na 
vida \u2014 Goethe é um bom exemplo \u2014 isto assume a forma de um sentimento per-
manente de ser uma criança "nascida num domingo", especialmente dotada pela 
natureza, e de uma atitude de confiança em si próprio e no mundo exterior em 
todos os seus aspectos, que leva a uma abertura criativa geral. 
A t é mesmo esse mimar autêntico envolve o perigo de a mãe se apegar for-
temente ao filho. Nesse caso, a constelação individual da mãe e a maturidade 
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de sua personalidade, independentemente da idade, são fatores decisivos. Vai 
depender de sua personalidade se ela vai ser capaz de liberar o filho superama-
do ou se tenderá mais a "devorá-lo". Em geral supõe-se, ás vezes com razão, que 
a mãe que não priva o filho de nada, faz com que se tome mais difícil para o 
filho, à medida que cresce, suportar as frustrações que a vida inevitavelmente 
impõe, fraqueza essa que pode redundar em fracasso. Mas o perigo do mimar 
autêntico tem sido exagerado demais, porque uma relação primal positiva con-
duz a um ego integral, capacitado, pela confiança no Self da mãe e depois no 
próprio Self, a aceitar privações. 
O automorfismo intensificado resultante de uma relação primal positiva 
demais implica um conflito com o " t u " social, mas no fim a abertura do indi-
víduo criativo para o mundo torna-se fecunda para a coletividade porque, com 
sua realização criativa, traz para o coletivo algo que faltava a este e que este ten-
tava excluir de si próprio. 
Mas quando uma mãe se agarra ao filho, o fato de mimá-lo dissimula al-
guma coisa mais, que dificulta a identificação de um mimar. Em termos mito-
lógicos, esse mimar " fa lso" é o da mãe-bruxa que atrai a criança para sua casa 
feita de chocolate (mimar com docinhos), e quando esta entra torna-se a Mãe 
Terrível que a "engole" . Mas nesse caso