Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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tem um fundamento teórico, além do que, o 
uso de termos inadequados freqüentemente leva a interpretações redutivistas 
de fenômenos psíquicos e, daí, a mal-entendidos que tornam difícil, se não im-
possível, uma abordagem terapêutica compreensiva. 
Em nosso esforço para descrever com clareza a relação primal mãe-filho, 
confrontamo-nos com a interligação, central para a psicologia da criança, entre 
o desenvolvimento do ego e o desenvolvimento da personalidade como um todo. 
Qualquer discussão que se coloque na perspectiva da Psicologia Analíti-
ca a respeito do desenvolvimento da personalidade e, de modo especial, da per-
sonalidade da criança \u2014 deve começar assumindo o fato de que o que vem pri-
meiro é o inconsciente, e que só depois é que surge a consciência. A personali-
dade como um todo e o seu centro diretor, o Self, existem antes de o ego tomar 
forma e desenvolver-se como centro da consciência; as leis que regem o desen-
volvimento do ego e da consciência estão subordinadas ao inconsciente e à per-
sonalidade como um todo, que é representado pelo Self. 
Damos o nome de centroversão 3 à função da totalidade, que na primei-
ra metade da vida leva, entre outras coisas, à formação de um centro de cons-
ciência, posição esta que gradualmente vai sendo assumida pelo complexo do 
ego. Com a formação deste centro, o Self estabelece um "derivado" de si pró-
prio, uma "autoridade", o ego, cujo papel é representar os interesses da totali-
dade, defendendo-os das demandas particulares do mundo interior e do meio 
ambiente. Simbolicamente, a relação do ego com o centro da totalidade é uma 
relação de filho. O centro da totalidade, ou Self, enquanto relacionado com o 
desenvolvimento do ego, encontra-se estreitamente ligado aos arquétipos paren-
tais. Durante a primeira metade da vida predomina a psicologia do ego e da cons-
ciência, e a personalidade é centrada no ego e na consciência. No processo de in-
dividuação da segunda metade da vida, ocorre um deslocamento de foco do ego 
para o Self. Todos esses processos, assim como a ampliação e a síntese da cons-
ciência e a integração da personalidade, ocorrem sob o comando da centroversão. 
Enquanto o conceito de centroversão se aplica à relação entre os centros 
da personalidade, o conceito de automorfismo 4 dá conta do desenvolvimento 
não tanto de centros psíquicos mas de sistemas psíquicos: o consciente e o in-
consciente. Abrange as relações de um com o outro; por exemplo, a relação com-
pensatória do inconsciente com a consciência, e também os processos que ocor-
rem apenas no inconsciente ou apenas na consciência, mas que servem ao desen-
volvimento da personalidade como um todo. 
A relação primal mãe-filho é decisiva nos primeiros meses da vida de uma 
criança. É neste período que o ego da criança se forma, ou pelo menos começa 
a se desenvolver; é então que o núcleo do ego, que já estava presente desde o 
início, cresce e adquire unidade, de tal modo que podemos falar num ego infan-
til mais ou menos estruturado. 
Essa fase mais precoce da existência, anterior ao ego, só é acessível para 
o adulto de forma duvidosa, pois nossa experiência adulta é normalmente uma 
experiência de ego, contingente à presença da consciência, enquanto que o es-
tado pouco desenvolvido do ego nesse período inicial parece apontar para a im-
possibilidade de uma experiência que possa ser considerada como tal. Só quan-
do as relações entre o ego e o Self se tiverem tornado mais claras será possível 
entender que, mesmo nessa mais precoce das fases, é possível existir experiên-
cia, e mais ainda: que essa experiência inicial é de importância crucial para a hu-
manidade tanto quanto para o indivíduo. 
Numa outra obra 5 descrevemos essa fase como realidade mitológica e ten-
tamos elucidar os símbolos a ela vinculados. Foi escolhido o termo urobórico 
para designar o estado inicial pré-ego, porque o símbolo do uroboros, a serpen-
te circular que morde a própria cauda, "engolindo-a", portanto, caracteriza a 
unidade sem opostos dessa realidade psíquica. É assim que o uroboros, como 
o Grande Círculo em cujo centro, à maneira de um útero, o germe do ego re-
pousa protegido, é o símbolo característico da situação uterina na qual não exis-
te ainda uma criança com uma personalidade delimitada de forma suficiente-
mente clara para permitir um confronto com um meio ambiente humano e ex-
tra-humano. Esse estado não delimitado, característico da situação embrionária 
uterina, preserva-se em grande parte, se bem que não inteiramente, após o nas-
cimento. 
Na fase embrionária, o corpo da mãe é o mundo no qual a criança vive, 
ainda não possuidora de uma consciência capaz de percepção e controle, e ain-
da não centralizada pelo ego; além disso, a regulação da totalidade do organis-
mo da criança, que designamos pelo símbolo do Self Corporal, ainda está como 
que abarcada pelo Self da mãe. 
Ao mesmo tempo, esses fatores que consideramos constitucionais e indi-
viduais no embrião desenvolvem-se de acordo com a autonomia do Self indivi-
dual da criança; mas esse desenvolvimento automórfico ocorre no interior da 
realidade estranha da mãe, que age sobre o embrião como uma realidade sobre-
determinada. É só com a conclusão da fase embrionária pós-uterina que pode-
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mos demonstrar o completo estabelecimento da instância autodeterminante 
que a Psicologia Analítica denomina Self individual. 
Para a mais precoce manifestação do Self, aquela que tem suas raízes no 
biológico, demos o nome de Self Corporal. 6 Constitui-se na delimitada e única 
totalidade do indivíduo, já considerada à parte de seu implante no corpo da mãe; 
ele surge como ser compondo a unidade biopsíquica do corpo. 
Com o nascimento do corpo, a ligação da criança com sua mãe em parte 
é rompida, mas a importância da segunda fase embrionária específica do homem 
é precisamente o fato de, após o nascimento, a criança permanecer parcialmen-
te retida na relação embrionária primal com a mãe. A criança ainda não se tor-
nou ela mesma. Ela só se torna ela mesma ao longo dessa relação primal, cujo 
processo se completa normalmente apenas após o primeiro ano de vida. 
No estágio pré-ego característico da primeira infância, no qual o ego e a 
consciência encontram-se ainda em processo de desenvolvimento, a experiência 
polarizada do mundo com sua dicotomia sujeito-objeto ainda não está presente. 
Essa experiência infantil, pela qual todos os indivíduos passam, é a corporifica-
ção ontogenética da realidade unitária primal, na qual os mundos parciais do 
interior e do exterior, do mundo objetivo e da psique não existem. Nessa fase 
embrionária pós-natal, a criança ainda está contida em sua mãe, apesar de seu 
corpo já haver nascido. Nessa fase, o que existe é uma unidade primária compos-
ta da mãe e filho. No processo de tornar-se ela mesma, a criança emerge dessa 
unidade com a mãe para transformar-se num sujeito apto a confrontar o mun-
do como " t u " e como objeto. 7 
Mas essa realidade que abrange mãe e filho não é apenas uma realidade 
psíquica, é também uma realidade unitária, na qual, aquilo que nossa consciên-
cia discriminante chama de "dentro" e de " fora" , para a criança nâ"o tem dife-
renciação. Da mesma forma que para o ego, por exemplo, existe uma conexão 
imediata entre a vontade de fazer um movimento e a sua execução, para a crian-
ça, uma privação ou um desconforto tais como a fome ou o frio vinculam-se ime-
diatamente à sua satisfação ou alívio por parte da mãe. Essa unidade, da qual 
depende a existência da criança, consiste numa identidade biopsíquica entre cor-
po e mundo, na qual criança e mãe, corpo faminto e seios que aplacam a fome, 
tudo é uma única e mesma coisa. 
A criança mantém-se normalmente em repouso, imersa na segurança dessa 
realidade unitária. Quando surge uma tensão, sinaliza-a com