Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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o filho. Por essa razão, uma anamnese restrita 
a fatores personalísticos nunca é adequada para a compreensão do desenvolvi-
mento, seja ele sadio ou não. Os fatores cruciais são sempre as experiências ar-
quetípicas da criança e nunca apenas os dados objetivos, e nisso reside o signi-
ficado fundamental da apercepção mitológica da criança e da interpretação ar-
quetípica característica da psicologia analítica. 
Existe um abismo permanente entre a realidade pessoal do meio ambien-
te humano e o mundo dos determinadores arquetípicos. Na medida em que o 
meio ambiente seja guiado arquetipicamente pelo instinto e funcione de modo 
normal, ele preenche a sua função. Os componentes arquetípicos apreensíveis 
nas imagens da Mãe " boa " , "grande" ou "terrível" , ficam sendo a realidade so-
breordenada. Na apercepção mitológica desse estágio, os poderes transpessoais 
constituem as verdadeiras fontes da ventura ou da desventura. Se bem que em 
sua encarnação terrena a corporificação pessoal de suas imagens, na forma da 
mãe da criança, coincida com a divindade sobreordenada. 
Enquanto se encontra contido no vaso maternal, o filho é indefeso, vazio 
e dependente, uma existência parcial destituída de autoproteção; mas a mãe é 
vida, alimento, abrigo, segurança e compensação reconfortante de todas as ex-
periências negativas. Em razão de a reação global no filho ser mais importante 
que a reação do ego, sua experiência é - do nosso ponto de vista - "ilimitada". 
Por isso, o predomínio de fatores positivos constela a imagem da mãe positiva, 
ao passo que o predomínio de fatores negativos constela a imagem da mãe ne-
gativa. O predomínio de uma experiência negativa inunda o núcleo do ego, dis-
solve-o, ou lhe confere uma carga negativa. Ao ego de uma criança assim mar-
cado por uma relação primal negativa chamamos de um ego ferido, porque suas 
experiências do mundo, do " t u " e do Self trazem as marcas de ferimentos ou 
adversidades. De forma que, na apercepção mitológica da criança, uma relação 
primal positiva reflete-se na imagem arquetípica do paraíso, e uma relação pri-
mal perturbada, como a do ego ferido, reflete a do inferno. 
Uma reversão da situação paradisíaca caracteriza-se pela reversão parcial 
ou total da situação natural da relação primal. Esta se faz acompanhar pela fo-
me, pela dor, pelo vazio, pelo frio, pelo desamparo, pela total solidão, pela per-
da de todo abrigo e de toda segurança; trata-se de uma queda livre no vácuo do 
abandono e no terror do vazio sem fundo. 
O símbolo central desse estado é a fome. No simbolismo do estágio ali-
mentar, fome e dor são por causa disso caracterizadas como corrosivas e devo-
radores. Quando a relação primal é perturbada de alguma forma, o desamparo 
e a desproteção constelam a mãe terrível, negativa, que também no mito se re-
veste de todos os símbolos e atributos que aparecem na vivência do filho. Ela 
se torna uma bruxa, a mãe diabólica do sofrimento e da dor. Ela rejeita, con-
dena à solidão e à doença, e atormenta com a fome e com a sede, com o calor 
e com o frio, as infelizes criaturas às quais a mãe boa abandonou. Se essa cons-
telação se instala muito cedo, leva à apatia e ao declínio de um estado despro-
vido de ego. Caso se instale quando o ego já tiver adquirido certa estabilidade, 
conduz, por reforço do ego negativo, à formação de um ego ferido e negativi-
zado. 
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Sempre que essa fase é negativa, isto é, quando não se forma o ego inte-
gral, ou quando suas formações iniciais foram sufocadas, a situação negativa in-
tensifica-se pela redução do ego da criança. Então surgem as agressões, que po-
dem tomar a forma de autodefesa ou de alarme, quando o bem-estar da crian-
ça é perturbado pela fome, pela dor ou pelo medo, ou de reações necessárias no 
início de fases novas, mas predeterminadas, do desenvolvimento psíquico, tais 
como o afastamento parcial e progressivamente maior da criança da relação pri-
mal, ou o conflito que aparece na fase em que o sexo da criança se diferencia 
do sexo oposto e se estabiliza. Quando o filho está integrado com a Grande Mãe, 
ou mais tarde com a sua mãe pessoal, em geral ele consegue integrar suas pró-
prias agressões. Ao sentir que suas agressões são aceitas pela mãe, mas também 
são limitadas e dirigidas pela mesma, ele aprende a aceitar, a limitar e a dirigir 
as próprias agressões; em outras palavras, aprende a subordiná-las ao ego integral. 
Um dos fatores essenciais na integração da criança é a absorção da agres-
sividade infantil na sua estrutura psíquica total, pelo que essa agressividade tor-
na-se um componente positivo na unidade psicodinâmica da criança. A ab-rea-
ção afetiva de "distúrbios" de toda natureza através de berros e chutes é uma 
expressão normal da personalidade da criança e é aceita como tal por qualquer 
mãe normal. Mesmo quando, por alguma razão (isto é, por princípios educacio-
nais), a resposta da mãe a esses distúrbios não é diretamente positiva, sua rea-
ção, via de regra, é afetivamente positiva na sua simpatia e nas suas tentativas 
de sossegar a criança. 
Em certas culturas, tanto primitivas como modernas, essa atitude normal 
por parte da mãe é desencorajada pela coletividade. 6 Aí encontramos desvios 
culturalmente condicionados da norma. A conseqüência é que pessoas criadas 
nessas culturas sempre apresentam desvios, que continuam sendo desvios mes-
mo se forem considerados normais em sociedades nas quais eles prevalecem. Um 
estudo abrangente de certas culturas e sua determinação de personalidade bási-
ca (isto é, pela forma como se impõem à estrutura psíquica da criança) é impos-
sível, a menos que tenhamos a coragem de avaliar aqueles desenvolvimentos que 
são contrários a um t ipo de desenvolvimento humano ideal. Uma mãe que ne-
gligencia o filho a ponto de provocar-lhe uma mágoa que dure a vida inteira, de-
ve ser considerada anormal, porque está falhando em cumprir seu papel arque-
típico de propiciar as potencialidades especificamente humanas de desenvolvi-
mento à criança, mesmo se dentro de sua cultura ela for considerada normal. 
As fases e formas particulares de distribuição dinâmica da agressividade entre 
o ego integral, o superego, a sombra e o Self serão um assunto de que trataremos 
posteriormente. A agressividade disponível para o ego integral é necessária na 
medida em que torna possível a auto-afirmação e a auto-realização do ego que 
interiormente é expressada como autocrítica e exteriormente como autocontrole. O 
jogo dinâmico entre Self, superego e inconsciente varia com cada constelação. Desta 
forma, a agressividade conduzida pelo Self é tão útil para o desenvolvimento do 
automorfismo, ou para o desenvolvimento do indivíduo em sua oposição ao am-
biente e à cultura, como o é a agressividade disponível para o superego que, ao 
contrário, limita o indivíduo em sua adaptação ao meio e à cultura. 
No processo natural de diferenciação entre o filho e sua mãe, nos confli-
tos entre o automorfismo individual e a relação primal, ódio e sentimentos de 
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agressão surgem como armas necessárias para a incipiente luta pela independên-
cia. Essas reações secundárias negativas são normalmente compensadas e inte-
gradas dentro da relação primal. Só um distúrbio da relação primal e o conco-
mitante distúrbio mais ou menos pronunciado do desenvolvimento automórfi-
co tornam anormal o desenvolvimento do ego. 
Se uma relação primal negativa produziu um ego negativizado, as agres-
sões resultantes não podem mais ser integradas e, nesse caso, teremos os fenô-
menos aos quais o termo narcisismo poderá ser aplicado com propriedade. 
A raiva e a impotência da criança, sua alternância entre desamparo e alar-
me significativo \u2014 reações a um ferimento que põe em perigo a vida \u2014 são ca-