Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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grande número de casos, talvez em todos os casos relativamen-
te graves de neuroses." Com isso teria atingido, aparentemente, o sentimento 
de culpa "primário". 
Freud comete o erro de derivar o superego do complexo de Édipo e, prin-
cipalmente, do pai; considera-o como uma autoridade formada tardiamente, re-
sultante da introjeção. Como acontece freqüentemente com Freud, uma con-
fusão particular se instala por ele desejar a um só tempo conceder fundamento 
filogenético ao superego \u2014 como em suas especulações sobre o totemismo e o 
parricídio \u2014 que pressupõem a herança de repetidas experiências individuais. 
Além do mais, Freud vê as mulheres de uma estranha perspectiva, pois em sua 
visão elas não têm, estritamente falando, nada a ver com a gênese da moralida-
de . 1 6 (Veremos adiante que as descobertas de Freud ganham um novo sentido 
quando não são tomadas de um ponto de vista personalístico.) 
Quando investigamos as origens da moralidade, isto é, a fase matriarcal, 
encontramos não apenas o sentimento de culpa primário, que deriva de uma re-
lação primal perturbada, mas também um fator positivo correlacionado com esse 
desenvolvimento negativo, a saber: quando a relação primal é bem-sucedida, a 
experiência ética primária do matriarcado corresponde à experiência ética fllo-
genética da humanidade no matriarcado. A experiência do Self através da mãe 
na relação primal e a formação do ego integral levam a criança não só à experiên-
cia de sua fraqueza, dependência e desamparo, mas também, ao mesmo tempo, 
a um sentimento de segurança e confiança num mundo ordenado. O fato de o 
Self, do qual o ego é um produto, ser vivenciado através da mãe na realidade uni-
tária de uma unidade confiável com ela, é o fundamento da crença individual 
não apenas no " t u " e em si próprio, mas também na consciência ordenada do 
mundo. A harmonização com essa ordem do mundo dada naturalmente é a ex-
periência ética primária da época matriarcal \u2014 e caracteristicamente prova ser 
o padrão ético também da mulher adulta. 
A fórmula infantil: "A maneira como sua mãe gosta que você seja é a ma-
neira como você deverá ser, e" \u2014 no caso de uma relação primal bem-sucedida 
\u2014 "como de fato será", é a base de uma experiência do mundo na qual o sen-
timento antropocêntrico de existir ainda não está separado de seu invólucro na-
tural numa realidade abrangente. A lei interna da ordem instintiva é a morali-
dade (inconsciente) diretora. O automorfismo da auto formação inconsciente-
mente dirigida, baseada numa relação primal bem-sucedida, com seus compo-
nentes eróticos do amar e ser amado, está em harmonia com a lei ética interna 
e externa. Para usar a formulação de Freud: "Rel igião, moralidade e sentimen-
to social" são ainda uma coisa só e têm sua raiz positiva na relação primal; de 
seu sucesso depende o desenvolvimento desses conteúdos fundamentais para a 
vida superior do homem. Filogeneticamente, a ordem e a moralidade da Gran-
de Mãe são condicionadas pela experiência infantil através da experiência com 
seu próprio corpo e com o ritmo cósmico do dia, da noite e das estações. Este 
ritmo determina a vida de todo o mundo orgânico, e os principais rituais da hu-
manidade estão em sintonia com ele; estar imerso nele significa, no estágio ma-
triarcal, estar em ordem, tanto no geral como no particular. 
Em circunstâncias normais, ocorre a mesma coisa ontogeneticamente na 
relação da criança com a mãe e por essa relação, desde que esta não ofenda o 
ritmo natural da criança, mas que se adapte a ele. Pela harmonia entre o ritmo 
próprio da criança e o da mãe - que na relação primal é vivenciado pela crian-
ça como idêntico ao seu \u2014 a imagem da mãe torna-se a representação da ordem 
tanto interna como externa. Na medida em que a mãe, em seu amoroso relacio-
namento com o filho, sabe do que o mesmo necessita e se comporta de acordo 
com isso, a ordem inata da criança coincide com a ordem implementada pela 
mãe. A experiência da criança quanto à existência de uma harmonia amorosa 
com uma ordem superior, que ao mesmo tempo corresponde à sua própria na-
tureza, é a primeira base de uma moralidade que não faz violência ao indivíduo, 
mas lhe permite desenvolver-se num processo lento de crescimento. Nisto te-
mos também a base de uma ordem no mundo, abrangendo o interno e o exter-
no, à qual a criança pertence, na qual de fato se encontra imersa, da mesma for-
ma que na mãe que a contém. 
A raiz da mais precoce e fundamental moralidade matriarcal deve pois ser 
buscada numa harmonia entre a personalidade total, ainda não dividida, da crian-
ça, e o Self, que é vivenciado através da mãe. Esta experiência fundamental de 
harmonia com o Self é a base do automorfismo. Ela reaparecerá na segunda me-
tade da vida como o problema moral da individuação. Tornar-se inteiro só é pos-
sível num estado de harmonia com a ordem do mundo, com aquilo que os chi-
neses chamam de Tao. O fato dessa moralidade matriarcal basear-se não no ego 
mas na personalidade total distingue-a \u2014 necessariamente \u2014 da moralidade secun-
dária egóica do estágio patriarcal da consciência. 
Essa experiência primária, matriarcal, de ordem, molda a criança e é a ba-
se positiva do seu sentimento social, que Briffault17 derivava, em primeiro lu-
gar, da relação mãe-filho, existente ao longo de toda a história. Nisto também 
Freud deixou-se enganar pelo seu preconceito patriarcal e pelo seu excesso de 
ênfase no arquétipo do pai. "Mesmo hoje" , escreveu ele, "sentimentos sociais 
surgem no indivíduo como uma superestrutura construída sobre impulsos de 
rivalidade ciumenta contra irmãos e i rmãs." 1 8 
É verdade que a parte da consciência social que se baseia na repressão e 
supressão de impulsos negativos origina-se dessa forma, mas a "moralidade da 
consciência", que não tem nada que ver com sentimento social, mas é uma adap-
tação do ego aos mandamentos restritivos da sociedade, um desenvolvimento 
secundário. Este é precedido pelo verdadeiro sentimento social que se desen-
volve numa relação primal positiva e deve ser visto como a base de todas as re-
lações do indivíduo com os outros. Corresponde a uma experiência primária de 
ordem e não se trata de uma superestrutura. 
Aqui se pode perguntar se a experiência de ordem no estágio matriarcal 
realmente tem alguma coisa a ver com moralidade, ou se não se trata apenas de 
um sentimento" de existência naturalmente harmonioso mas, num certo senti-
do, extramoral ou pré-moral. Mas, uma vez que a reversão da experiência po-
sitiva de ordem na relação primal dá lugar a um sentimento de culpa primário, 
devemos falar também positivamente de uma experiência moral. 
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No desenvolvimento da consciência que leva do arquétipo da mãe para 
o arquétipo do pai, e da realidade unitária para a realidade polarizada da cons-
ciência, o ego ganha independência gradualmente. Ele começa a levar uma exis-
tência própria, não mais protegida pela abrangência da relação primal e do Self. 
Enquanto a primeira fase da existência, ainda sob a guarda da relação primal, 
leva à transferência do Self da criança da mãe para a criança e à formação do 
ego integral, depois disso começa um processo de desenvolvimento que leva gra-
dualmente à separação dos sistemas e a uma oposição entre ego e Self. 
Enquanto o ego fica contido no Self da mãe, esse Self, como princípio 
ordenador, é também a única autoridade moral. Só quando surgem conflitos en-
tre o ego e o Self no processo de diferenciação é que surge também um confli-
to entre diferentes tipos de autoridade moral no interior da personalidade. Tais 
conflitos desempenham um papel crucial tanto no desenvolvimento normal do 
ego como no patológico. 
Ficou demonstrado em A história da origem da consciência que o ego não 
é, como supôs Freud, meramente um "representante