Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
161 pág.

Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


DisciplinaEducação Infantil2.718 materiais11.708 seguidores
Pré-visualização50 páginas
em que não pertencem à sua es-
trutura inconsciente, pois seu espírito feminino é diferente do do homem) ori-
ginam-se na cultura em que vive. Em nossa cultura, desde a mais tenra infância 
a mulher absorve valores patriarcais do seu ambiente cultural. Conseqüentemen-
te, em seu desenvolvimento ela se depara com a difícil tarefa de jogar fora seus 
preconceitos advindos dos valores da cultura patriarcal, e de superar suficiente-
mente os animi patriarcais para tornar-se acessível ao aspecto espiritual especí-
fico da natureza da mulher. Isto significa não apenas que a consciência cultural-
mente condicionada da mãe \u2014 que molda o ego e a consciência do filho com 
seus julgamentos, valores e convicções \u2014 é por sua vez modelada pelo cânon cul-
tural no qual a mãe vive, mas também que a camada superior do seu inconscien-
te, com suas avaliações e julgamentos inconscientes, é determinada pelo cânon 
cultural, que em nosso caso é patriarcal. Essas atitudes irrompem na experiên-
cia pessoal de uma mulher através das figuras introjetadas e das concepções do 
mundo masculino a seu respeito. 
Sem que se dê conta, o pai, o irmão, o tio, o professor e o marido mol-
dam-lhe a maneira de reagir. Sob a forma de julgamentos e preconceitos da mãe, 
todos esses elementos masculinos desempenham um importante papel nos cui-
dados e na criação do bebê, preparando-o para a adaptação à cultura predomi-
nante. 
80 
Mas, abaixo da camada de animus formada pelo patriarcado, existe mes-
mo em mulheres modernas o mundo da consciência matriarcal, no qual são do-
minantes, por um lado, as forças masculinas contidas no arquétipo da mãe e, 
por outro, o "uroboros patriarcal", um aspecto espiritual específico da mulher. 
Discernimos aqui uma ordem hierárquica. No ponto mais alto, no nível mais pró-
ximo à consciência, ficam os animi pertencentes ao estrato cultural predominan-
temente patriarcal. O "Ve lho " . o arquétipo do sentido, não pode ser contado 
entre os animi do feminino, por ser um arquétipo universalmente humano. No 
entanto, o sentido que representa não é o sentido em si, mas o sentido em sua 
forma masculina. A "Ve lha " é também um arquétipo universalmente humano 
do sentido, ativo tanto no homem como na mulher, mas nela a ênfase é femi-
nina. A figura do Velho encontra-se próxima do Self masculino, e a da Velha 
está próxima do Self feminino. As forças espirituais da Velha, que encarna o es-
tágio humano da existência matriarcalmente determinada, são também mascu-
linas; isto é, são animi do estrato matriarcal; pertencem ao aspecto espiritual do 
feminino e, como este, são grandemente encobertos e reprimidos pelos animi 
patriarcais. Caracteristicamente, esses animi matriarcais aparecem como compa-
nheiros da Velha, muitas vezes tomando a forma de animais que falam com sa-
bedoria, dotados de poderes mágicos, ou de anões, duendes, diabretes e demô-
nios \u2014 símbolos da sabedoria feminina enraizada na natureza e no instinto. 
A figura do uroboros patriarcal beira o informe. Ela pertence ao estrato 
arquetípico mais profundo das forças masculinas operantes na mulher e está es-
treitamente ligada à natureza. Mas esse espírito da natureza assume dimensões 
cósmicas. Em seu aspecto mais inferior, pode tomar a forma de um animal \u2014 
cobra, pássaro, touro ou carneiro. No entanto, como espírito demoníaco ou di-
vino que se impõe à mulher e que interiormente a fertiliza, em geral toma co-
mo seus símbolos o vento, a tempestade, a chuva, o trovão e o raio. Em sua for-
ma mais elevada, manifesta-se como uma música sobrenatural que produz into-
xicação, êxtase e plenitude dos sentidos, como o encantamento de uma supre-
ma claridade e harmonia, uma conjunção com a existência, que subjuga a mu-
lher. Usando termos como "plenitude", "subjugar" ou "aniquilação extática", 
a linguagem retém as poderosas imagens do simbolismo sexual relacionadas, na 
mulher, com a irrupção do uroboros patriarcal. Mas, a despeito desse aspecto 
masculino-patriarcal, o simbolismo do uroboros patriarcal transcende a polari-
dade do simbolismo sexual e abrange os opostos numa única totalidade, da mes-
ma forma que a música abrange tanto as escalas menores, femininas, como as 
maiores, masculinas. 
A Grande Mãe está relacionada com esse princípio masculino transpessoal, 
com esse espírito soberano e fertilizador, enquanto espírito que a domina e que 
fala em seu interior. Este uroboros patriarcal, enquanto espírito lunar, é um prin-
cípio masculino ctônico inferior; um senhor fálico, mitologicamente falando, 
da sexualidade, dos instintos, do crescimento e da fertilidade, e ao mesmo tem-
po um princípio espiritual superior que, sob a forma de êxtases e visões, insu-
fla a vidente, a musa, a profetisa e a mulher possuída. Como todas as forças mi-
tológicas, esse espírito lunar também está em ação no homem moderno. É uma 
constelação psíquica fundamental na mulher, nos filhos e nos estratos mais pro-
fundos da psique masculina, que são dominados pelas forças básicas do feminino. 
81 
Se, como na situação primal, esse princípio masculino se encontra ainda 
inextricavelmente ligado ao princípio feminino e ainda não foi projetado para 
o exterior sobre alguma estrutura que funcione como suporte para o espírito, 
a mulher é vivenciada como partenogênica, como a "mãe de seu próprio pai", 
como geradora do homem, a quem precede. 
Enquanto o feminino ainda for a Grande Mãe, o masculino, enquanto prin-
cípio espiritual sem forma, é o seu igual, se bem que enquanto imagem em ge-
ral lhe esteja subordinado. Assim, invisivelmente como vento, ou visivelmente, 
como raio de luz , o masculino pode fertilizar não só física como também espi-
ritualmente. No entanto, mais tarde a Grande Deusa, que contém a vida e a mor-
te, passa a ter companheiros masculinos, o masculino gerador, portador do fa-
lo , como deus da vida, e o masculino que lida com a morte, portador da espa-
da, como deus da morte. A lua é a imagem mais freqüente para combinar todos 
esses aspectos masculinos. Como símbolo do uroboros patriarcal, é ao mesmo 
tempo aquele que nasceu da mulher e o princípio espiritual que a fecunda. É 
o touro fálico e a espada em forma de crescente do herói, mas é também o espí-
rito dominador da Pítia e o espírito da loucura, companheiro da Grande Mãe 
destruidora, que induz à loucura, que faz aqueles que conquista tornarem-se lu-
náticos e dementes. 
A mulher vivencia esse espírito lunar do uroboros patriarcal como algo 
masculino que penetra e subjuga, algo para o qual a psique feminina receptiva, 
passiva, se abre e pelo qual, como se por uma força desconhecida, inconscien-
te, é inteiramente cativada e preenchida. Essa força inconsciente manifesta-se 
na mulher como um impulso que compele e dirige sua personalidade, mas é ao 
mesmo tempo um conteúdo espiritual, um instinto espiritual que, como ima-
gem e intuição, como sentimento inspirador e disposição, ou como uma neces-
sidade urgente, a dirige e fertiliza. 
As qualidades ligadas ao conhecimento intuitivo, dirigido pelo instinto, 
carregadas de sentimentos emocionais, naturais e inconscientes, que tão freqüen-
temente são atribuídas à mulher, não são de forma alguma apenas projeções em 
cima da mulher e do lado feminino do homem; brotam de uma constelação fun-
damental, a saber, de uma maior proximidade da mulher com seu inconsciente, 
e em particular a um aspecto espiritual deste. Essa proximidade, essa abertura 
relativamente maior para a entrada do inconsciente, é a base da maior irracio-
nalidade da mulher. A menos que controlada pela consciência, apresenta a des-
vantagem de estar aberta a qualquer coisa. A mulher é, em geral, considerada 
como mais supersticiosa, mais impressionável e menos crítica que o homem; esse 
é o lado necessariamente sombrio