Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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o choro; à medida 
que sua necessidade vai sendo satisfeita com maior ou menor rapidez, a tensão 
se alivia, com o que a criança volta a emergir no sono. 
Mesmo mais tarde, durante o primeiro mês de vida, à medida que o ego 
vai adquirindo, cada vez com maior freqüência, uma consciência como que in-
sular \u2014 de início por breves momentos, depois por períodos maiores \u2014 e vai se 
posicionando no mundo, não existe ainda diferenciação entre o próprio corpo 
e a mãe que propicia o prazer e exorciza o desprazer. Para o ego da criança, com 
uma experiência fundada no prazer e desprazer, sua experiência do mundo é a 
experiência da mãe, cuja realidade emocional determina a existência da criança. 
Para a criança nessa fase, a mãe não está nem dentro nem fora: para a criança, 
os seios não fazem parte de uma realidade separada de si e externa; seu próprio 
corpo não é experimentado como seu. Mãe e filho continuam tão interligados 
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como na fase uterina, como se formassem uma unidade; só que a unidade que 
formam é dual. 
Em termos mitológicos, o ego ainda está contido no uroboros, e para o 
embrião a mãe é um vaso continente e circunstante, que para ele equivale ao mundo. 
A criança tem uma imagem corporal ainda indiferenciada e por isso mes-
mo tão grande e ilimitada quanto o cosmos. Sua configuração particular encon-
tra-se de tal forma fundida com o mundo, e daí com tudo aquilo que chama-
mos de externo, que sua extensão poderia ser chamada de cósmica. Somente 
quando seu ego vai-se desenvolvendo é que a criança começa a diferenciar sua 
própria imagem corporal e, concomitantemente, o mundo vai tomando contor-
nos mais claros como objeto em confronto com o ego. Em seu livro Notes on ike 
Body Image and Schema [Notas sobre a Imagem e Esquema Corporais] Clifford 
Scott escreve: "Uma parte da imagem corporal consiste numa percepção cons-
tantemente cambiante do mundo, cujos limites extremos implicam uma preocu-
pação com a determinação daquilo que só poderia ser chamado de limites do 
espaço e do t empo. " 8 
A união dual da relação primal é cósmica e transpessoal porque a criança 
não possui nem um ego estável nem uma imagem corporal delimitada. Trata-se 
de uma realidade unitária ainda não dividida em dentro e fora, em sujeito e obje-
to. É todo-abrangente. Nessa relação primal, a mãe também vive, da mesma forma 
que a criança, numa realidade unitária arquetipicamente determinada, porém só 
uma parte de si entra nela, porque seu relacionamento com o filho domina ape-
nas um segmento de sua existência total. A criança, no entanto, encontra-se to-
talmente imersa nesse reino, sendo que, para ela, nesse caso, a mãe representa 
tanto o mundo como o Self. 
Com a observação de que na fase embrionária a mãe é também o Self da 
criança, deparamo-nos com uma dificuldade: somos obrigados a presumir a exis-
tência, na primeira fase da relação primal \u2014 do ponto de vista de nossa existência \u2014 
de um Self dividido em dois da criança. Se estamos levando a sério a noção de 
uma fase embrionária pós-natal, temos então de dizer que a criança torna-se um 
Self, uma totalidade individual, apenas ao fim de um ano, ao fim de todo o pe-
ríodo embrionário intra e extra-uterino. Até então, em função de estar a criança 
contida na realidade unitária, temos uma situação paradoxal do ponto de vista 
da consciência. 
Por um lado, existe o Self Corporal 9 da criança, determinado pela espécie 
e emergente em simultaneidade com a totalidade corporal individual; por outro 
lado, a mãe, na relação primal, não apenas desempenha o papel de Self da criança, 
mas é na realidade esse Self. Mas o Self Corporal tem também o caráter de uma 
totalidade e não deveria ser tomado como uma entidade meramente fisiológica, 
porque disposição corporal e disposição psíquica, constelação hereditária e in-
dividualidade já se encontram presentes na unidade biopsíquica do Self Corporal, 
Do ponto de vista de nossa consciência discriminante, a estrutura do Self 
adulto implica sempre uma relação eu-tu. O ego vivencia o Self como um oposto, 
que se manifesta no interior da psique como o centro do Self, e no exterior co-
mo o mundo ou como outro ser humano, ou como a projeção de uma imagem 
arquetípica. Isto significa que o Self tem um caráter de Eros, que determina todo 
o desenvolvimento de um ser humano e que pode ser descrito como individuação, 
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como relação e como mudança de relação. Assim, o Self, paradoxalmente, con-
siste naquilo que mais essencialmente nós somos, mas que ao mesmo tempo assu-
me a forma de um " t u " ; para a nossa consciência, trata-se do centro individual 
da personalidade, mas simultaneamente possui um caráter universalmente hu-
mano e cósmico. Essa natureza dupla paradoxal do Self manifesta-se precoce-
mente na infância; enquanto "a própria essência" da criança, o Self é o Self Cor-
poral; enquanto um " t u " , é a mãe dessa criança. 
Na primeira fase da infância, a tendência que o Self tem para relacionar-se 
com um " t u " é "dada" e, do nosso ponto de vista, externalizada, pela mãe \u2014 
mas aqui devemos ter em mente que esse conceito de " fora" , implícito na no-
ção de externaiização, é realmente inadequado para referir-se ã situação cósmica 
da criança. No entanto, uma vez que só podemos descrever a realidade unitária 
da relação primal como uma relação entre duas pessoas, mãe e filho, nossa for-
mulação vê-se impossibilitada de dar conta inteiramente da real situação. 
A fase inicial, urobórica, do desenvolvimento da criança, por caracteri-
zar-se por um mínimo de desconforto e tensão e um máximo de segurança, e 
também pela unidade entre o eu e o tu, entre Self e mundo, se a referenciarmos 
ao mitológico, pode ser considerada paradisíaca. Por contraste, a situação do 
ser humano adulto é, necessariamente, de sofrimento. Uma vez que o ego adulto, 
enquanto sujeito da experiência, não se identifica nem com seu Self (sua pró-
pria totalidade), nem com o " t u " (os outros seres humanos e o meio ambiente), 
é obrigado a desenvolver-se em meio às tensões dos pólos antitéticos do Self e 
do " t u " . 
No adulto, a situação de tensão que se cria pela separação dos sistemas 
psíquicos - o consciente e o inconsciente - é normal. Simultaneamente a essa 
constelação, ocorre na personalidade como um todo uma polarização entre os 
dois centros: o ego como centro da consciência e o Self como centro da totali-
dade da psique, abrangendo consciência e inconsciência \u2014 e lado a lado com essa, 
uma outra polarização entre mundo interno e mundo externo. O ego situa-se 
entre o Self e o mundo, e o desenvolvimento automórfico da personalidade co-
mo um todo fica na dependência da atitude do ego em relação às solicitações 
internas e externas, do Self e do mundo. 
Mas na situação urobórica do período pré-ego, na qual o ego ainda repousa 
adormecido ou emerge apenas em momentos isolados, tais oposiçOes e tensões 
não existem. Porque, para o embrião, não é possível existir oposição entre ego-Self 
e continente materno, e a mãe é a um só tempo Self e " t u " , prevalecendo a rea-
lidade unitária do paraíso no início da situação pós-natal. Tanto na condição 
uterina como na pós-uterina, a criança fica protegida pelo continente circular 
da existência materna, pois para a criança a mãe é, reunidos numa única enti-
dade, Self, " t u " e mundo. A relação mais precoce da criança com a mãe possui 
um caráter único porque nela - e quase que exclusivamente nela - a oposição 
entre o autodesenvolvimento automórfico e a relação com o " t u " , que enche 
de tensão a existência humana, normalmente não existe. Por isso, a experiência 
dessa fase, que deixa suas marcas em todo o desenvolvimento posterior, é de par-
ticular importância para a psicologia dos indivíduos criativos, constitui-se nu-
ma, fonte de perene nostalgia,