Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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que pode ter no adulto um efeito tanto regressivo 
como progressivo. 1 0 
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Só quando interpretamos corretamente o simbolismo da condição de es-
tar contido " n o Redondo" podemos entender por que o termo autismo não se 
aplica a essa fase. Como o ego ainda não se desenvolveu, a tendência a relacio-
nar-se e o caráter de Eros da relação primal manifesta-se cósmica e transpessoal-
mente, e não de forma pessoal. É por isso que o Paraíso, o Lar Original, o Cír-
culo, o Oceano ou o Lago, figuram entre os símbolos do passado remoto. Estar 
contido nesse mundo cósmico é uma expressão da forma embrionária de exis-
tência anterior ao ego, na qual a mãe continente manifesta-se nos símbolos de 
uma realidade abrangente, ou seja, da realidade unitária. O termo autismo, signi-
ficando um estado no qual o objeto encontra-se totalmente ausente, só é inte-
ligível numa perspectiva que suponha a relação sujeito-objeto do ego adulto. Deixa 
de ser um termo correto uma vez que tenhamos compreendido a realidade uni-
tária primária da relação primal embrionária pré e pós-natal. Na fase pós-uteri-
na da existência na realidade unitária, a criança vive numa participation mystique 
total, num fluido-mãe psíquico, no qual tudo se encontra ainda em suspensão, 
dele não se tendo ainda cristalizado os pares de opostos, ego e Self, sujeito e obje-
to, indivíduo e mundo. É por esse motivo que esta fase é associada ao "sentimen-
to oceânico", que sempre torna a aparecer, mesmo em adultos, quando a realidade 
unitária complementa, substitui ou irrompe na realidade consciente do dia-a-dia 
caracterizada pela polarização entre sujeito e objeto. 
Na Psicanálise, a antítese entre a situação psíquica do recém-nascido e a 
tendência a formar relações objetais de um ego mais tardio é explicada com a 
ajuda de conceitos tais como "identificação" e "narcisismo primário". Contras-
tando com esses, termos como "adualismo".(Baldwin) e "união dual" (Szondi) 
expressam a situação primária da criança com precisão. A Psicologia Analítica 
emprega os termos mais universais participation mystique e "identidade incons-
ciente" (Levy-Bruhl). A condição psíquica da criança, se formulada nesses ter-
mos, não é interpretada como um ato de identificação, mas como uma identi-
dade inconsciente, ou seja, como um estado passivo. 
Só podemos falar em identificações e em atos de identificação quando já 
existe um ego desenvolvido. Tais identificações realmente ocorrem, por exemplo, 
em todos os rituais de iniciação. A instância iniciatória conscientemente produz 
uma identificação com os ancestrais, com o animal totêmico, etc. Mas quando 
falamos de atos inconscientes de identificação, estamos projetando injustifica-
damente a atividade de nosso ego sobre o inconsciente, que na realidade se caracte-
riza por uma identidade primária, isto é, uma identidade que simplesmente está 
ali, presente como tal. Neste sentido, a união dual da relação primal é uma cons-
telação de identidade, e não uma identificação de um ego ainda não existente 
de uma criança com a mãe. Esse "estar ali presente como tal" é precisamente 
o que caracteriza a realidade unitária e a existência num estado cósmico não 
subjetivo. 
Conseqüentemente, o caráter primário de Eros da relação primal - no qual 
primeiro a ocorrência de uma interpretação, seguida de coexistência e confronto, 
é inerente à vida da espécie, de modo que toda a existência da criança depende 
da realização dessa constelação do Eros - coloca-se em oposição direta ao nar-
cisismo primário de Freud ou a outro qualquer narcisismo primário imaginável. 
Não importa quanto possam parecer convincentes as razões que levaram Freud a 
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colocar em oposição narcisismo e relação objetai; mesmo assim ele errou no en-
foque da colocação, pois foi incapaz de compreender a constelação do relacio-
namento a-pessoal da relação primal. Esse relacionamento \u2014 e foi isso que levou 
Freud a formular uma oposição entre narcisismo e amor objetai - não é uma 
relação propriamente dita, pois esta pressupõe tanto um sujeito como um objeto. 
Nem um e nem o outro estão presentes na fase pré-ego da relação primal. É isso 
o que torna a relação primal diferente de todas as demais e posteriores relações. 
No entanto, o caráter de Eros da participation, ou relacionamento recíproco, 
é mais forte do que o que é possível em qualquer relação que pressuponha um 
oposto. 
Na Psicologia Analítica, o estágio urobórico do desenvolvimento infantil com 
todas as suas implicações arquetípicas descritas em meu livro Ursprungsgeschichte 
[A História da Origem da Consciência]* corresponde à fase de narcisismo pri-
mário, ao estado ainda não-objetal da personalidade infantil. Neste livro, não 
vou mais empregar o termo narcisismo em suas acepções tanto positivas como 
negativas, que foi o que fiz em certa medida no Ursprungsgeschichte, mas o re-
servarei para uma atitude e um desenvolvimento do ego específicos e negativos. 
Na união dual da relação primal ainda não existe tensão intrapsíquica en-
tre o ego e o Self. O desenvolvimento posterior do eixo ego-Self da psique, a co-
municação e oposição entre ego e Self iniciam-se com a relação entre, por um 
lado, a mãe e Self, e por outro, a criança enquanto ego. A essa altura, a fusão 
entre mãe e filho, entre Self e ego é constelada pelo relacionamento mútuo e 
pela dependência do Eros. Assim, quando falamos em uma divisão em dois do 
Self na relação primal, estamos tentando expressar, do ponto de vista da nossa 
consciência polarizadora, a condição paradoxal prevalente na relação primal. 
Ao mesmo tempo desejamos lançar luz sobre a relação dinâmica entre mãe e fi-
lho, e sobre o desenvolvimento do ego e da personalidade da criança dentro 
dessa relação. 
A relação primal é o fundamento de todos os relacionamentos, dependên-
cias e relações subseqüentes. A união dual, conquanto garantida pela natureza 
na fase embrionária uterina, após o nascimento emerge como necessidade pri-
meira do mamífero, especialmente do filhote humano. Eis por que em todas as 
criaturas que se desenvolvem no início dentro do corpo da mãe impõe-se a de-
pendência do pequeno e infantil em relação ao grande vaso continente, no co-
meço de toda existência. 
Para a nossa consciência discriminadora, a duplicação se manifesta pelo 
fato de a totalidade psicobiológica da criança, o seu Self Corporal, ser o funda-
mento automórfico do seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a existência da 
mãe é a pré-condição absoluta da existência do filho, em termos de doação e 
regulação da vida, a única que torna seu desenvolvimento possível. 
Aqui temos novamente o conceito de realidade unitária, uma realidade 
que transcende a divisão corpo/psique e se encontra de tal modo ligada ao cor-
po e ao mundo que psique, corpo e mundo tornam-se indistinguíveis. Assim, 
na relação primal da criança com sua mãe, aquilo que a consciência posterior-
mente tenta manter separados e distintos como opostos - o físico e o psíqui-
* Editora Cultrix, São Paulo, 1990. 
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co, o biopsíquico e o objetivo \u2014 ainda constituem uma só e única unidade. À 
primeira vista, pode-se supor, como Freud o fez, que o Self Corporal é o repre-
sentante do organismo e de seu mundo inconsciente e instintivo, que o incons-
ciente é o representante do organismo 1 1 e que a mãe representa o mundo enquan-
to meio ambiente e sociedade humana. Mas, no que se refere à situação original, 
uma divisão e classificação assim são impossíveis. Self Corporal e mundo encon-
tram-se tão estreitamente ligados quanto mãe e psique. O que depois surge para 
o ego como o inconsciente representa em igual medida tanto a reação do orga-
nismo biopsíquico como o mundo contido nessa reação, pois ambos ainda per-
manecem