Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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gular do intestino como perfeitamente natural se o treinamento tiver começa-
do na época certa do desenvolvimento, recebe-o, porém, como um choque se 
tiver começado cedo demais. A castração anal é mais do que um dano à totali-
dade-corpo, pois a auto-avaliação negativa induzida pela mãe constela a forma-
ção de um superego negativo. O superego torna-se o representante de uma in-
tervenção externa moralmente desvalorizadora, que é superimposta ao desen-
volvimento natural da criança. Conseqüentemente, esse superego negativo en-
tra num conflito não-natural com o Self Corporal e com o Self da criança, ins-
talando-se uma perigosa divisão na personalidade. 
A compulsão que destrói o ritmo autônomo da criança violenta-lhe a per-
sonalidade, causando assim uma perda de segurança e um dano ao desenvolvi-
mento do ego. O Self, que confere segurança, é substituído por um superego-supe-
rexigente, violentamente superexigente, que induz não apenas incerteza mas tam-
bém culpa, porque a criança não consegue viver ã altura de suas solicitações. Ten-
tando preencher essas solicitações exageradas, a criança assume ativamente a com-
pulsão, identifica-se com ela e assim torna-se compulsiva. 
0 ego, que depende do Self para ser guiado, exclui-se, colocando-se em 
oposição ao Self, que como Self total e Self Corporal abrange também o aspec-
to inferior rejeitado do corpo e do mundo, e, ao introjetar a consciência grupai 
negativamente avaliadora, baseia-se no superego como representante do cânon 
cultural. A maneira pela qual se exclui e se coloca em oposição ao Self \u2014 e, con-
seqüentemente, em oposição à sua própria natureza \u2014 é a mesma que o grupo 
emprega para o mesmo propósito \u2014 compulsão, supressão e repressão. Essa di-
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visão da personalidade dá lugar a agressões que são projetadas no exterior num 
esforço destrutivo, moralístico para destruir o mal nos outros (psicologia do bo-
de expiatório) ou então \u2014 quando isso não funciona a contento \u2014 leva a uma 
intensificação dos sentimentos de culpa que continuam a alimentar o processo 
circular do tabu e da autodefesa. 
A ansiedade que emerge na castração anal manifesta-se principalmente no 
medo de ser infectado pelo mal e de ser incapaz de eliminar o mal de sua pró-
pria natureza. Infecção, doença, demônio e morte são um grupo coerente de sím-
bolos para o mundo inferior, anal, que ameaça e permanentemente põe em pe-
rigo a existência superior da cabeça e do ego. A perda do excremento e do pó-
lo inferior reprimido do corpo é vivenciada como ser excluído e morto ; daí o 
termo castração anal. Não mais, como no mundo matriarcal, se encontram mor-
te e terra de um lado, e vida e céu de outro, juntos numa unidade superordena-
da; em vez disso, terra-morte-inferno e mundo inferior são hostis ao mundo su-
perior. São poderes devoradores desencadeando uma destruição a partir da qual 
não há renascimento possível. A concepção cristã de um inferno eterno é uma 
expressão teológica da demanda pela eliminação do lado inferior da vida, que 
é tão completamente excluído que não pode mais integrar uma unidade supe-
rior com o aspecto mais elevado, celestial. Já nos referimos à relação existente 
entre demônio, excremento e mau cheiro. Este aspecto anal, ou "antro infernal", 
é apenas uma de suas características. Mas não é por acaso que o inferno carre-
ga um outro estigma anal em outro aspecto também. Estou me referindo ao ca-
ráter sádico da eliminação do mal, que é tão típico do inferno patriarcal de to-
das as religiões. O cristão, por exemplo, que imputa aos santos um prazer tão 
nauseante pelo sofrimento de seus companheiros humanos, está obviamente vin-
gando-se dos santos que reprimiram seu próprio aspecto ctônico. Pois na vida 
da psique, o atormentado, os atormentadores e os espectadores pertencem ao 
mesmo grupo, e cada um desempenha todos os três papéis ao mesmo tempo. O 
pecador atormentou os santos com seu pecado, atormenta-se com a autopuni-
ção e sofre o tormento. Mas, ao mesmo tempo, o santo é o atormentador do pe-
cador que ele mesmo é por ter atormentado o aspecto ctônico-terreno pelo qual 
agora padece. Mas os demônios são também santos enquanto representantes do 
céu, que fazem as pessoas sofrerem e devem, da mesma forma, suportar os so-
frimentos que eles próprios se impuseram, mas ao mesmo tempo colocam-se de 
lado como santos e observam o processo. Um dos exemplos mais chocantes da 
conexão entre o inferno e o mundo anal é fornecido pelo inferno de Hieronymus 
Bosch, que retratou esse aspecto anal de maneira única na arte mundial. A co-
nexão entre os demônios e o aspecto anal é evidente também no folclore - as 
leis e costumes judaicos, por exemplo, oferecem inúmeras ilustrações disso. 
No desenvolvimento normal, quando não houve distúrbios na relação pri-
mal no que se refere ao afastamento natural do pólo inferior do corpo, o pólo 
ego-cabeça desenvolve-se da mesma forma, tanto no menino como na menina, 
e a polarização da personalidade e do mundo efetua-se predominantemente à base 
da oposição entre ativo e passivo, mais do que entre masculino e feminino. Nesta 
fase, é verdade, começa a "separação dos Pais do Mundo", que culmina na per-
cepção da oposição entre masculino e feminino. Mas a característica da Gran-
de Mãe de conter os opostos se expressa também no fato de o filho a ela conec-
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tado não se tornar sexualmente inseguro mas também de ainda não perceber o 
sexo, pois o desenvolvimento comum a ambos os sexos é ainda mais pronuncia-
do do que o aspecto da diferença sexual. 
Só depois que a ênfase sobre o aspecto anal e a crise anal concomitante 
foram superados é que o processo de dar ênfase à parte de cima (que vai culmi-
nar enfim no predomínio do ego-cabeça superior enquanto ego "so lar" ) pode 
prosseguir sem distúrbios. Mas essa superação é também a pré-condição para uma 
mudança de ênfase no interior do pólo inferior do corpo, passando da parte de 
trás para a da frente, para uma diferenciação entre o anal posterior e o genital 
anterior, que freqüentemente é acompanhado de uma estimulação da zona ge-
nital. Esta mudança também se relaciona com a aquisição especificamente hu-
mana da postura ereta, pela qual a zona genital, que nos mamíferos quadrúpe-
des é oculta, fica exposta à vista e também ao alcance das mãos da criança. Esta 
abertura da zona genital em sua conexão com a parte anterior do corpo é algo 
especificamente humano, pois apenas no homem a união sexual ocorre num con-
fronto frente à frente, que, em contraste com o mundo animal, estende-se des-
de o pólo inferior até o pólo superior do corpo, isto é, abrange todo o corpo e 
com ele toda a personalidade. Mas, do ponto de vista do simbolismo corporal, 
frente significa dentro do campo visual do ego-cabeça, enquanto que o anal, en-
quanto posterior, fica fora do campo visual e, por isso, como tudo o que se si-
tua atrás, faz parte do simbolismo do inconsciente. 
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OS ESTÁGIOS NO DESENVOLVIMENTO 
DO EGO DÁ CRIANÇA 
Embora até aqui nos tenhamos preocupado com a fase matriarcal do de-
senvolvimento da criança e com o início da liberação desta em relação a essa mes-
ma fase, o tempo todo tivemos em mente o desenvolvimento do ego. Mas esse 
desenvolvimento do ego estava de tal modo sob a dominação da mãe, que nos-
sa preocupação principal ficou sendo a relação, não do ego, mas do Self total 
do filho com o corpo e com a mãe enquanto representante do mundo. Eis por 
que as zonas erógenas do corpo da criança descobertas por Freud tiveram um 
papel tão importante na nossa discussão, apesar de o significado dessas zonas 
ter sido colocado num contexto diferente do de Freud, e de ter-se atribuído im-
portância não tanto ao seu aspecto erógeno, centrado no prazer, e mais ao seu 
aspecto de experiência gnoseógena. Mas tanto a ligação da criança com seu cor-
po como sua