Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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ligação à sua mãe são uma expressão do fato de que nesse estágio 
a totalidade corporal, o Self Corporal, é de maior importância do que o ego, que 
apenas gradualmente se configura. 
Voltamo-nos agora para as progressivas fases do desenvolvimento do ego 
da criança, se bem que tenhamos de voltar a cada momento às primeiras fases 
do desenvolvimento da criança com que nos ocupamos até agora. De modo que 
o que se segue será não apenas uma continuação do assunto precedente, mas tam-
bém uma recapitulação. A situação, no entanto, será considerada sob nova luz. 
Agora o fator decisivo será o ego, pois daqui em diante, como centro da cons-
ciência, ele será o pivô da experiência humana. 
O desenvolvimento da personalidade da criança do matriarcado para o pa-
triarcado reflete-se no desenvolvimento do seu ego. Nossa tentativa de distinguir 
diferentes fases do desenvolvimento do ego origina-se não apenas de tendência 
de sistematização por parte do autor, mas de um simbolismo da psique que é 
aparente na psicologia da criança, bem como na do adulto, e de uma compreen-
são daquilo que é importante para se compreender o desenvolvimento normal 
e os distúrbios do ego. 
Passando por um certo número de estágios, o ego desenvolve-se do matriar-
cado para um confronto com o arquétipo do pai, e daí em diante para alcançar 
seu mais alto grau de independência no patriarcado. Conseqüentemente, distin-
guimos os estágios inferiores do desenvolvimento do ego, que pertencem à re-
lação primal e ao matriarcado, dos estágios superiores, solares, nos quais o ego 
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já entrou em conexão com o Self masculino e com o arquétipo do pai, que se 
manifesta simbolicamente como o céu diurno e seu centro, o sol. 
Ao discutir o desenvolvimento do ego ativo, que no começo é comum pa-
ra ambos os sexos, iremos falar de "estágios fálicos do ego" . Este termo requer 
uma explicação. Apesar da palavra " fá l ico" , a expressão refere-se não a um ego 
sexualmente enfatizado mas a um ego cujas atividades dependem em grande par-
te da totalidade do corpo. Não é por acaso que em latim o falo é o fascinum, 
aquilo que fascina. Numa fase primitiva da história humana, o falo tomou-se 
o fascinum para ambos os sexos, enquanto que numa fase ainda mais primitiva 
o fascinum era a fertilidade e a menstruação da mulher. Para uma personalida-
de não centrada numa consciência de ego estável, o falo é o símbolo da autono-
mia do inconsciente e do corpo. No falo, a avassaladora e criativamente gerado-
ra autonomia do corpo torna-se para o ego a experiência autêntica, fascinante, 
de um poder superior, que aqui se manifesta como o Self Corporal. 
Nesse estágio, o fascinum do falo não é vivenciado pelo ser humano do 
sexo masculino como uma parte de si próprio, muito menos como uma parte 
de seu corpo, mas como alguma coisa transpessoal. No mesmo sentido, iremos 
falar de um "inst into" como de algo ao qual nós \u2014 enquanto ego \u2014 estamos su-
jeitos e pelo qual somos dirigidos. Também nós experimentamos essa força im-
pulsionante não como uma parte de nós mesmos, da qual podemos dispor, mas 
como alguma coisa transpessoal, da qual estamos mais ou menos à mercê. Por 
essa razão, posteriormente, os instintos são apreendidos sob a forma de deuses 
e cultuados como tais: a sexualidade, por exemplo como Afrodite, e o instinto 
agressivo, como Marte. 
Assim, o fálico é alguma coisa superior e transpessoal no mundo do ho-
mem primitivo e, da mesma forma, o ego fálico, em seu desenvolvimento inde-
pendente, é vivenciado pelo ser humano, que ainda não está identificado com 
seu ego, como um poder transpessoal possuidor de uma atividade própria. 
Nessa fase do desenvolvimento da personalidade, a psique ainda não está 
inteiramente polarizada em consciência e inconsciente e, mais especificamente, 
a hierarquia óbvia das autoridades psíquicas, dentre as quais nos identificamos 
com o ego como centro da consciência, ainda não está desenvolvida. O ego é, 
ainda, um complexo autônomo, um complexo entre muitos outros, e a identi-
dade da personalidade consigo própria ainda não se baseia em sua identidade 
com o ego. Assim, podemos com igual razão dizer que a identidade de Self da 
criança não se desenvolveu ainda ou, pelo menos, não tem reflexão, como a do 
adulto que reflete a respeito de si próprio como sendo um ego; ou poderíamos 
dizer que a criança tem, por assim dizer, uma consciência flutuante, instável, 
não localizada, uma consciência de Self. 
Essa contingência de não estar localizada no ego liga-se à predominância 
do Self Corporal sobre o ego e ao fato de que a oposição entre ego e Self ainda 
não ter se desenvolvido totalmente. Expressões desta constelação são os fatos 
de que a criança, via de regra, ainda fala de si própria como " e l e " ou "e la" , e 
de que também o adulto, em muitas situações de culpa e de alienação, tem o 
sentimento de que não foi " e l e " , mas alguma outra parte dele que agiu. 
Essa autonomia do complexo do ego é vivenciada como algo impessoal, 
especialmente quando, na fase matriarcal, a personalidade é em grande parte in-
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consciente e dirigida pela sua própria totalidade, como se por algo superior e 
transpessoal. Quando, no desenvolvimento psicológico posterior do homem oci-
dental, o indivíduo adquire experiência direta de si próprio, ocorre algo seme-
lhante. Na experiência do Self do processo analítico, o analisando freqüentemen-
te nota com espanto: "Então, isto sou eu. " Enquanto que inicialmente o ainda 
não-ego da criança vivencia espantado a si próprio como um ego no desenvol-
vimento posterior do processo de individuação o homem experimenta a si pró-
prio como não-mais-um-ego e como um "não-ego". 
Falamos do não-ego da fase inicial, porque nessa fase a existência do ho-
mem é determinada, em grande parte, pelo coletivo. Ele vive como parte de um 
grupo, não como um indivíduo separado. Só com o progressivo desenvolvimen-
to do ego o automorfismo torna-se evidente como uma tendência da psique pa-
ra o indivíduo desenvolver-se em sua unicidade. Isto se expressa na centrover-
são, que deflagra o desenvolvimento do ego no interior da psique e empurra o 
complexo do ego e a consciência para o primeiro plano. Este desenvolvimento 
reflete-se no arquétipo do herói, que personifica o protótipo do ego em sua opo-
sição ao não-ego. A atividade instintiva formatava do ego nessa fase tem um ca-
ráter masculino em ambos os sexos e entra em oposição com a Grande Mãe, a 
figura dominante do mundo matriarcal, uma vez que a guerra de libertação do 
ego é dirigida contra ela. 
As primeiras formas de ego no processo de aquisição de independência 
são fálicas, mas ainda matriarcais. A primeira fase do desenvolvimento do ego 
que distinguimos é o estágio "fálico-ctônico". Sua forma vegetativa e animal é 
ainda, em alto grau, passiva e dirigida. Ainda não se livrou da dominância do po-
der matriarcal da natureza e do inconsciente. Em contraste, o ego nos estágios 
mágicos seguintes, o "mágico-fálico" e o "mágico-guerreiro", já tem uma con-
siderável atividade própria. É o ego mágico-guerreiro que primeiro supera sua 
dependência do matriarcado, tanto que efetua a transição para o patriarcado 
com o que o subseqüente "ego solar" está relacionado. Na fase solar-guerreira, 
o ego identifica-se com o arquétipo do pai. Segue-se o estágio solar-racional do 
ego patriarcal adulto, cuja independência culmina num relativo livre-arbítrio e 
num também relativamente livre ego-cognitivo, característico do desenvolvimen-
to ocidental moderno. Distinguimos: 
O estágio fálico-ctônico do ego 
a) vegetativo 
b) animal 
O estágio mágico-fálico do ego 
O estágio mágico-guerreiro do ego 
O estágio solar-guerreiro do ego 
O estágio solar-racional do ego. 
Os Estágios Fálico-Ctônico e Fálico-Mágico do Ego 
O estágio fálico-ctônico do ego é ainda matriarcal; está correlacionado com 
a Grande Mãe