Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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ser percebida pelo mesmo ape-
nas no exterior, através de um homem em particular, de um Grande Indivíduo, 
é da maior importância para a estruturação da psique humana. Pois, nesse de-
senvolvimento, a autoridade do Self como personalidade-mana toma forma co-
mo um centro detentor efetivo do poder, emerge do anonimato e torna-se o lí-
der do grupo. E ao mesmo tempo dá ao ego uma configuração mais clara, deter-
minada pelo Self de cada membro do grupo. 
O grupo mais primitivo que conhecemos é o de machos caçadores; é o precur-
sor de todos os grupos de machos. A julgar por tudo o que sabemos a seu respeito, 
foi nele que o ego mágico se desenvolveu. Esse grupo remonta aos primeiros tempos 
do desenvolvimento humano, quando o ritual mágico da fertilidade ainda estava na 
mão das mulheres, e quando a autoridade suprema em todos os domínios, tais como 
a nutrição e a fertilidade, estava sujeita à Grande Deusa Mãe. 
As atividades do grupo de machos estava subordinada a esse mundo ma-
triarcal. A magia do grupo de machos relacionava-se com a possibilidade de ad-
quirir poder sobre a caça comestível e de poder matá-la. Conseqüentemente, nas 
pinturas da Era Glacial, os mais antigos documentos conhecidos da magia hu-
mana, a fêmea animal grávida detinha o papel central. Mas no estágio matriar-
cal a presa de caça era considerada como o aspecto terrível da Grande Mãe em 
seu aspecto terrível masculino. Ela própria, ou seu aspecto terrível, freqüente-
mente é representada por um tigre, um leão, uma pantera ou um leopardo. 
Na fase matriarcal, o grupo de machos identificava-se ritualmente com esse 
aspecto matador da Grande Mãe. O grupo de machos caçadores representa o as-
pecto de morte da Mãe Terrível que, como Grande Mãe, é Soberana não apenas 
da vida mas também da morte. Por essa razão, os rituais de caça e matança per-
tencem aos homens; rituais de vida, de procriação e de renascimento pertencem 
ao grupo das fêmeas. Na identificação do grupo dos machos com o aspecto ter-
rível da Grande Mãe, o macho torna-se idêntico ao símbolo mortífero da espa-
da como falo destrutivo. Esse símbolo é introjetado pelo grupo dos machos. E 
como "Masculino Terrível" essa introjeção fortalece o homem, enfatizando es-
pecialmente sua atividade e agressividade, que são traços masculinos arquetípi-
cos. 
Esse fortalecimento e essa ênfase do princípio masculino desempenham 
um papel especial no estabelecimento do patriarcado nas sociedades humanas. 
Da mesma forma que o Masculino Terrível é uma fase preliminar do "Pai Ter-
r íve l " que desempenha um papel tão importante na formação do superego na 
cultura patriarcal, assim também o ego guerreiro-matador, guerreiro-mágico, do 
grupo de machos caçadores, é a forma preliminar do ego solar que posteriormen-
te vem a libertar-se definitivamente da dominação do arquétipo da mãe. 
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A Transcendência do Matriarcado pelo 
Ego Mágico-guerreiro e pelo Ego Solar 
Dentro da fase mágica do ego, temos distinguido o estágio mágico-fálico, 
no qual o ego é determinado essencialmente pelo arquétipo da mãe, e do está-
gio mágico-guerreiro, no qual o ego não apenas começa a opor-se ao arquétipo 
da mãe, mas também ganha consciência da masculinidade que irá culminar no 
estágio solar do patriarcado. 
No estágio fálico, o ego começa a se sentir especificamente masculino, opos-
to à mulher, à Grande Mãe e ao matriarcado. O fortalecimento do ego mascu-
lino começa com o fortalecimento da sua resistência ao princípio feminino. Essa 
tendência à resistência é intensificada pelo apoio dos homens uns aos outros den-
tro dos grupos de machos e nas sociedades de homens que sempre adquirem ex-
trema importância quando o elemento matriarcal é o dominante. 
O apoio de um homem a outro homem \u2014 apoio cuja origem remonta à 
mais antiga reunião de homens no grupo de machos caçadores dos tempos pri-
mordiais \u2014, de início é dominado pela magia feminina. A Grande Mãe, como 
Deusa da Fertilidade, do Alimento e dos Animais, seguramente desempenhava 
um papel importante na magia da caça muito antes de surgirem os rituais de fer-
tilidade da agricultura. E o macho caçador é sempre, simultaneamente, matador 
e guerreiro. 
Assim, em sua ligação com a Grande Mãe, a atividade mágica era ao mes-
mo tempo fálica e guerreira; isto torna-se marcantemente evidente nos desenhos 
de rochas paleolíticas, nos quais o pênis do macho caçador está em contato com 
a mulher suplicante que permanece de pé atrás dele. Aqui a atividade fálica do 
macho em relação à mulher tem uma relação clara com sua atividade de caça-
dor e guerreiro em relação ao jogo amoroso. Ambas pertencem à esfera da fer-
tilidade, sobre a qual a mulher tem o domínio. Essa Grande Mulher em sua ati-
tude suplicante não é \u2014 como certas interpretações do papel da mulher na era 
primordial poderiam levar a supor - a vítima e a presa da agressividade mascu-
lina; o masculino fálico e guerreiro encontra-se ainda a serviço da mulher e sob 
o seu domínio no que se refere à fertilidade e à nutrição. Os que adotam a tese 
largamente aceita (em grande parte, como produto do pensamento eclesiástico) 
de que os povos caçadores originalmente eram monoteístas, deixam de consi-
derar o significante papel da mulher nesse período inicial da humanidade, cujo 
caráter matriarcal ainda não foi suficientemente reconhecido. Já tentamos, com 
certa freqüência, explicar o que queremos dizer por matriarcado. Devemos a Fro-
benius 7 um exemplo bem conhecido, mas até agora pouco explorado, do signi-
ficado mágico da mulher em culturas primitivas: 
No ano de 1905, na região das florestas entre Luebo e o rio Kasai, depa-
rei-me com representantes dessas tribos de caçadores que são bem conhecidos 
como pigmeus. Eles tinham encontrado um local de refúgio nas florestas do Con-
go após terem sido empurrados para fora do platô. Alguns poucos, três homens 
e uma mulher, acompanharam a expedição por cerca de uma semana. Certo dia 
- era quase de noite e já nos havíamos tornado muito bons amigos - houve um 
grande problema na área da cozinha. Perguntei aos meus três pequenos amigos 
se podiam matar um antílope para nós antes do f im do dia. Eles me olharam com 
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um óbvio espanto de ouvir minhas palavras. Então um deles deixou escapar 
como reposta que gostariam muito de fazê-lo, mas que naquele dia era comple-
tamente impossível, uma vez que não tinham fe i to os preparativos. Seguiu-se uma 
longa discussão que teve como resultado final a decisão dos caçadores declaran-
do-se dispostos a fazer esses preparativos no dia seguinte ao nascer do sol. E as-
sim nos separamos. Os três homens então passaram a investigar tudo ao redor, para 
afinal dirigir-se para uma elevação numa colina das vizinhanças. 
Como eu estava impaciente por saber em que poderiam consistir esses pre-
liminares, levantei-me antes do nascer do sol e rastejei até as moitas ao lado da 
clareira que os pigmeus haviam escolhido para suas cerimônias na tarde anterior. 
Era madrugada ainda quando os homens chegaram. Não estavam sozinhos, pois 
a mulher estava com eles. Os homens abaixaram-se sobre o solo, limparam-no e 
deixaram-no liso. Um dos homens então agachou-se e, com um dedo, desenhou 
alguma coisa na areia. Por todo esse t empo, a mulher e os outros homens murmu-
ravam orações e encantamentos. Seguiu-se um silêncio expectante. 0 sol levantou-se 
no horizonte. Um dos homens caminhou para um canto da clareira e colocou uma 
flecha em seu arco. Após alguns minutos, os raios do sol caíram sobre o desenho. 
No mesmo instante, rápido como um raio, aconteceu o seguinte: a mulher ergueu 
as mãos para o sol, c omo se tentasse capturá-lo, e lançou gritos que para mim eram 
totalmente ininteligíveis; o homem disparou a flecha; a mulher berrou mais ainda; 
e então, de armas em punho, os homens arremeteram contra aquele pedaço de 
solo, e saíram correndo pelo mato rasteiro dos arredores.