Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


DisciplinaEducação Infantil1.776 materiais9.852 seguidores
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de rosos . . . 
A mais influente de todas era Kra, que comandava as demais mulheres, de-
terminando também as tarefas que cada uma deveria impor a cada homem. Cada 
uma das mulheres impôs ao marido a tarefa que a sra. Lua havia indicado. Os ho-
mens fizeram tudo. As mulheres passavam quase o ano inteiro na Grande Caba-
na. Durante o dia, uma ou outra mulher retornava ao acampamento. Ficava um 
pouco de tempo e determinava novas tarefas para o marido. Comia também o as-
sado que este lhe havia preparado, pois estava sempre faminta. E às vezes também 
dormia com o marido, enquanto, a maior parte das mulheres dormia reunida na 
Grande Cabana. Elas raramente vinham até o acampamento para passar a noite. 
Cada uma das mulheres exigia que um b o m suprimento de carne fosse deixado 
à mão em sua cabana de moradia, dizendo ao marido: "Xa lpen, na Grande Caba-
na, quer muita carne para s i ! " De modo que os homens saíam com freqüência pa-
ra caçar e traziam grande quantidade de carne de animais, que era sempre deixa-
da com as mulheres para evitar que a perigosa Xalpen ficasse ainda mais furiosa. 
Certa vez, as mulheres se reuniram num grande relvado muito boni to ; nes-
se lugar, jogaram kloketen numa cabana espaçosa em forma de cone. Os homens 
ficaram no acampamento, bastante afastado dali, tomando conta das crianças pe-
quenas e fazendo todo o serviço. Quando um soórte entrava no acampamento, 
eles se escondiam sob seus mantos. O soórte sempre tratava-os mal e às vezes os 
espancava severamente. 
Kran, o Homem Sol, era um excelente caçador e bom corredor. Em suas 
andanças, sempre encontrava uma grande quantidade de animais. Estava quase 
sempre caçando. Todos os dias trazia para casa muita carne, que era distribuí-
da entre as demais cabanas. Algumas jovens vinham todos os dias até o acampa-
mento. Vinham da Grande Cabana, e diziam aos homens: "Xa lpen nos enviou. 
Ela quer carne! " E os homens tinham de entregar tudo o que possuíam. As mo-
ças carregavam sempre uma grande quantidade de carne de volta para a Grande 
Cabana. 
Certo dia, o Homem Sol havia saído para caçar nas colinas e logo matou 
um grande guanaco, pois era um bom caçador. Carregou o animal nos ombros 
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e voltou em direção ao acampamento. Fatigado pela árdua jornada e pela pesada car-
ga, jogou-a resmungando no chão. Sentou-se para fazei um pequeno descanso ao lado 
de uma moita. N e m suspeitando que tinha chegado perto da cabana das kloketen, 
sentou-se não muito longe de uma lagoa. Não demorou que avistasse duas moças na 
margem: estavam tomando banho. Falavam alegremente e sorriam bastante. Cau-
telosamente, Kran arrastou-se para perto delas; queria ouvir o que estavam dizendo. 
Estavam pintadas como os ketérnen, que às vezes eram colocados perto da Grande 
Cabana. As j ovens treinavam para manter-se rigidamente eretas, dando passos bem 
pequenos para a frente e para trás, como a sra. Lua as havia ensinado a fazer. E se 
divertiam muito com isso. Diziam: " L o g o vamos conseguir f a z ê - l o . . . Como os 
homens ficarão surpresos!" E continuavam dando risadinhas. Faziam troça dos 
homens, porque os homens acreditavam que elas eram realmente ketérnen. Diver-
tiam-se bastante com a malandragem das mulheres e com o medo constante dos 
h o m e n s . . . As moças continuaram brincando por um bom per íodo de t e m p o . . . 
Quando Sol chegou no acampamento, ele mostrou-se completamente indi-
ferente em relação aos homens e mulheres, mas ninguém sequer suspeitou da coi-
sa terrível que acabara de presenciar. Com todo o cuidado, fo i então visitar os ho-
mens um por um em suas cabanas; contou-lhes o j ogo de malandragem que as mu-
lheres estavam representando; explicou-lhes como todos eles vinham sendo enga-
nados pelas mulheres. Os homens então ficaram sabendo a verdade: na Grande 
Cabana havia apenas mulheres, que pintavam inteiramente o corpo e colocavam 
um tólon na cabeça para que ninguém as reconhecesse. . . Quando os homens ou-
viram isto, ficaram muito zangados, mas também esconderam sua agitação. Kran 
deu-lhes ordens estritas para que nada demonstrassem.. . 
Uma grande inquietação, porém, se apossou deles. As mulheres deram-se 
conta disso. A sra. Lua gritou para o acampamento: "Acalmem-se! Xalpen está 
muito zangada!" Mas essas palavras não acalmaram os homens. Desesperada, a sra. 
Lua confessou às mulheres: " A s coisas parecem ruins para nós. Vamos fazer mais 
uma tentativa de assustar os homens; vamos logo fazer a encenação de Xalpens 
ke x a t ! " 1 1 Imediatamente as mulheres formaram duas filas e saíram de dentro 
da Grande Cabana, uma ala à direita e outra à esquerda da entrada. Entre as alas, 
a própria sra. Lua apareceu saindo da cabana. Em voz alta, ela chamou os homens 
para se aproximarem, pois Xalpen agora iria convocar as mulheres uma por uma 
para o interior da Cabana e devorá-las! Sua intenção era provocar um terrível pa-
vor nos homens. Nesse meio t empo, porém, os homens haviam-se equipado cada 
um com um grosso bastão. No momento em que a sra. Lua disse para os homens 
do acampamento: "Aproximem-se um pouco ; vocês verão como Xalpen está fu-
riosa! Todas as mulheres estão para ser devoradas!" \u2014 os homens atacaram feroz-
mente. Aproximaram-se rapidamente, correndo muito mais do que se supunha 
fossem capazes. A sra. Kra ordenou que parassem e gritou: " N ã o cheguem tão 
perto, homens! Fiquem longe da Cabana!" Nesse momento, o Sol deu um as-
sobio, tendo-se escondido bem perto da Cabana. Os homens entenderam o sinal 
e forçaram ainda mais a marcha. A Lua gritava com extremo pavor: "Para trás, 
homens, ou Xalpen dará o b o t e ! " . . . As outras mulheres no interior da Cabana 
tinham sido obrigadas a ficar olhando. Em seu desespero, todas encorajavam a mu-
lher lunar: " O s homens estão per to ! Grite mais a l t o " . . . " A i , ai, ai ! Para onde po-
deremos fugir?" Mas os homens empurraram a sra. Kra para trás, de encontro à 
Grande Cabana. Finalmente, alcançaram a entrada e invadiram o seu interior. For-
mando uma densa aglomeração, empurraram a Lua à sua frente. 
Então Kran gritou com toda a força que possuía: "Derrubem as mulheres!" 
E os homens brandiram seus bastões. Golpearam furiosamente a massa de mulhe-
res, estrangulando a primeira mulher que lhes caía nas mãos. Em pouco tempo, 
todas as mulheres jaziam ensangüentadas e mortas no chão. Por vezes alguns ho-
mens encontravam-se subitamente face a face com a esposa ou a filha. Quando 
era possível, faziam com que outro homem as matasse. Mas alguns massacraram 
seus próprios parentes, tamanha era a sua raiva! 
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O Homem-Sol tirou seu bastão flamejante do fogo. Com este atingiu sua 
poderosa esposa. Ao primeiro golpe que desferiu toda a abóbada celeste tremeu. 
Ao segundo e ao terceiro golpes, o tremor tornou-se ainda mais ameaçador. Por 
isso, o Sol conteve-se e não matou sua mulher, com medo de que todo o firma-
mento pudesse desabar. A sra. Kra escapou da Grande Cabana e imediatamente 
fugiu para os céus. 
No mesmo instante, Kran correu atrás de sua mulher. Mas desde esse dia, 
nunca conseguiu alcançá-la. No rosto dela ainda podem ser vistos os buracos e as 
negras cicatrizes causados pelo fogo . Às vezes a mulher aparece totalmente ver-
melha; isto acontece quando se encoleriza contra o homem. Mas desde esse dia 
o ódio do homem por essa mulher enganadora jamais mor r eu . . . 1 2 
Conclusões a Serem Tiradas desse Mito 
Quando essas cerimônias eram executadas por mulheres, estavam envol-
tas em mistério. Os homens preservaram esse princípio. Pois essas cerimônias ces-
sariam imediatamente de ser o que eram se a população de mulheres tivesse po-
dido compreender o espíríto masculino e o que os homens pretendiam fazer. 
Reunindo-se, os homens tinham vários objetivos. Mas o primeiro e funda-
mental objetivo era jamais permitir que a posição de poder dos homens sobre as 
mulheres lhes fugisse das