Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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estiverem presentes \u2014 mesmo que seja em animai-
zinhos \u2014 liberam sentimentos de ternura parental, quando faltam, a reação não 
se produz. Inquestionavelmente ainda temos muito o que aprender a respeito 
desses fenômenos instintivos que são sempre a expressão de um relacionamen-
to arquetipicamente determinado entre indivíduos da mesma espécie. 
Enquanto na primeira fase da relação primal a mãe aparece como mundo 
continente e nutriente, a segunda fase caracteriza-se pela forma distintamente 
humana do arquétipo da mãe. Aqui, de novo, com toda certeza, a mãe é um ar-
quétipo e não apenas uma mãe pessoal, individual; isto é, ela é a Grande Mãe, 
a Deusa Mãe; mas ao mesmo tempo tomou-se uma mãe humana. As funções que 
previamente eram desempenhadas pelo mundo anônimo e sem forma no qual 
a criança ainda não delimitada "flutuava" \u2014 as funções de continente, nutrien-
te, aquecimento e proteção \u2014 agora tornam-se humanizadas. Isto é, são expe-
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r i m e n t a d a s n a p e s soa d a m ã e , q u e , a p r i n c í p i o e m m o m e n t o s i s o l ados e d e p o i s 
c o n t i n u a d a m e n t e , é v i v e n c i a d a e r e c o n h e c i d a c o m o um ser h u m a n o ind i v i dua l . 
Só g r a d u a l m e n t e , c o n f o r m e a c r i ança va i l e n t a m e n t e s e d e s e n v o l v e n d o em di-
r e ç ã o a t o rnar -se u m a p e r s o n a l i d a d e d o t a d a de consc i ênc i a de e g o , é q u e c o m e -
ça a p e r c e b e r a m ã e c o m o u m a f i gura pessoa l , i n d i v i d u a l , e t rans fo rma-se n u m 
s u j e i t o c u j o o b j e t o é a m ã e . A t é e n t ã o a m ã e p e r m a n e c e t o d o - p o d e r o s a ; a rela-
ç ã o p r i m a l c o n s t i t u i a i n d a t o d o o c a m p o da v i d a da c r i ança , até a cr iança t o r -
nar-se i n d i v i d u a l i z a d a e seu e g o d e s e n v o l v e r - s e . Surge e n t ã o u m a r e l a ção eu- tu . 
Na fase a n ô n i m o - c ó s m i c a , a r e l a ç ã o p r i m a l d e t e r m i n a i n t e i r a m e n t e o sen-
t i m e n t o d e ex i s t i r d a c r i ança n o m u n d o , m a s q u a n d o a m ã e torna-se u m ind i v í -
d u o s u p e r - h u m a n o , a e x i s t ê n c i a soc i a l d a c r i ança c o m e ç a . N a fase u r o b ó r i c a d a 
r e l a ç ã o p r i m a l , m ã e e f i l h o f o r m a m u m a u n i ã o dua l d e n t r o d a r ea l i dade unitá-
r ia , m a s a par t i r desse p o n t o o d e s e n v o l v i m e n t o n o r m a l da c r i ança d e p e n d e da 
h a b i l i d a d e de seu S e l f e do seu e g o r o m p e r e m aos p o u c o s a l i g a ç ã o c o m a uni-
d a d e d a r e l a ç ã o p r i m a l . D a í p o r d i a n t e o d e s e n v o l v i m e n t o a u t o m ó r f i c o d a cr ian-
ça e das suas p r e d i s p o s i ç õ e s e s p e c í f i c a s v ê m p a r a p r i m e i r o p l a n o . 0 a r q u é t i p o da 
m ã e c o n t i n u a d o m i n a n t e , o q u e s i gn i f i ca q u e o d e s e n v o l v i m e n t o da c r iança , nesse 
e s t á g i o , d e p e n d e a inda d a r e l a ç ã o m ã e - f i l h o . A g o r a , p o r é m , a c r iança e m e r g e c a d a 
v e z m a i s d a es fera m a t e r n a l pa ra enra i zar -se n u m m u n d o u n i v e r s a l m e n t e h u m a n o . 
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RELAÇÃO PR IMAL E DESENVOLVIMENTO 
DA RELAÇÃO E G O - S E L F 
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Exatamente da mesma forma que o desenvolvimento geral do corpo da 
criança depende da alimentação fornecida pela mãe, assim também o desenvol-
vimento de sua psique depende da alimentação psíquica proporcionada pela fi-
gura materna. Nesse contexto, a relação primal propicia à criança quatro tipos 
essenciais de experiência. 
Enquanto mãe e filho ainda formam uma identidade indiferenciada, a re-
lação primal funciona para a criança como possibilidade de relacionamento com 
seu próprio corpo, com seu Self, com o " t u " e com o mundo, tudo ao mesmo 
tempo. A relação primal é a base ontogenética da experiência de estar-no-pró-
prio-corpo, de estar-com-um Self, de estar-unido, de estar-no-mundo. 
Como vimos, a relação primal do embrião pós-uterino (na qual o Self da 
criança, externalizado, ainda se encontra na mãe), quando não sujeita a distúr-
bios caracteriza-se por uma situação paradisíaca de união original entre mãe e 
filho, livre de tensões. A criança acha-se envolta por um vaso continente macio, 
que representa mãe, mundo, corpo e Self, tudo ao mesmo tempo. Sua existên-
cia natural é de sono e paz, quase como na fase uterina. O simbolismo ligado a 
essa fase é: saciedade, calor, segurança e total envolvimento pelo vaso maternal 
protetor. 
Distúrbios perturbadores do ego \u2014 fome, sede, frio, umidade e dor \u2014 são 
regulados e compensados quase que instantaneamente pela mãe, que represen-
ta o Self, de modo que a segurança, a placidez do sono e a identidade eu-tu e 
corpo-Self são sempre restauradas. 
A disponibilidade ou indisponibilidade da mãe para relacionar-se com a 
unidade biopsíquica do filho é de importância crucial não apenas para essa uni-
dade mas também para a formação inicial do ego da criança, pois a consciência 
independente da criança e as formas positivas e negativas de suas reações egói-
cas estão diretamente conectadas com sua experiência corporal. Ternura, sacie-
dade e prazer conferem um sentimento de segurança e de ser amado que é a ba-
se indispensável de um comportamento social positivo e de um sentimento de 
segurança em estar no mundo, e também de uma precoce e absolutamente indis-
pensável confirmação da condição de vida independente da criança. O instinto 
de autopreservaçâo expresso no impulso de ingerir aumento é o mais fundamen-
tal de todos os instintos; é evidente que se expressa através do corpo e consti-
tui-se numa experiência essencialmente corporal. Na espécie humana encontra-se 
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inseparavelmente ligado à mãe, e este fato constela a inseparabilidade do auto-
morfismo e da relação com um " t u " , que é característico do desenvolvimento 
humano mais precoce. 
É muito próprio da natureza do automorfismo que desde o início gran-
des quantidades de libido sejam dirigidas para o desenvolvimento independente 
da criança. Conforme o ego vai-se tornando independente, sua orientação visa 
esse desenvolvimento, e isto não deve ser considerado como uma tendência in-
fantil e muito menos patológica. O equilíbrio característico da relação primal 
normal, antes de as partes componentes e do núcleo do ego se terem juntado 
para formar um ego consciente, já contém implicitamente a tensão produtiva 
entre o eu e o " tu " , a partir da qual se desenvolve uma personalidade sadia. 
Já falamos em outro lugar1 da importância do Self Corporal e do simbo-
lismo metabólico da fase urobórica para a psicologia primitiva e para a mitolo-
gia e os rituais da humanidade, além de já termos assinalado que essa fase filo-
genética tem seu correspondente ontogenético na primeira infância. O Self Cor-
poral, a totalidade da unidade biopsíquica, é uma instância reguladora que ope-
ra a serviço da totalidade e que dirige, quase que com exclusividade, o desenvol-
vimento biopsíquico da criança, inclusive sua progressão através das fases arque-
tipicamente condicionadas. No estágio mais precoce, como vimos, a mãe como 
Self externalizado, como Self Relacionai, complementa o Self Corporal da crian-
ça. Ambos encontram-se ainda indiferenciados na realidade unitária caracterís-
tica da relação primal. 
Uma das dificuldades essenciais no desenvolvimento da criança consiste 
no fato de o ego precisar ir se instalando gradualmente no corpo único, próprio, 
individual da criança. Este processo, que caminha lado a lado com o desenvol-
vimento do ego da criança, é responsável pela extraordinária importância de to-
da experiência corporal na primeira fase da infância.