Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação
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Erich Neumann - A CRIANÇA Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação


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Paralelamente a esse processo, ocorre a remoção do Self que se desloca 
da mãe para a pessoa da criança, um desenvolvimento com o qual se logra com-
pletar a primeira configuração de autonomia da criança; é quando se atinge essa 
formação de um Self unitário que a criança humana verdadeiramente nasce.2 
Na relação primal a experiência da personalidade da criança ocorre em grande 
parte, se bem que não inteiramente, no nível do corpo, através dos corpos tan-
to da mãe como da criança. Por isso, as funções corporais elementares passam 
a constituir-se como focos apropriados de experiência: respirar, chorar, engolir, 
urinar e defecar - pelo lado ativo, enquanto pelo lado passivo: ser aquecido, aca-
riciado, banhado e l impo. A superfície do corpo com suas zonas erógenas é o 
palco principal da experiência da criança, tanto de si mesma como dos outros; 
quer dizer, a criança ainda vivencia tudo na própria pele. A pele, pela qual a crian-
ça entra em contato com o mundo externo, é o campo de sua experiência do 
mundo, e o superenfatizado trato alimentar, com suas zonas oral de ingestão 
e ano-uretral de ejeção, é o campo de sua experiência interna. Estas zonas de 
fronteira, nas quais se dão as trocas entre o interno e o externo, são muito ati-
vas, e a criança torna-se extremamente consciente delas. Sobre um pano de fun-
do de um sentimento corporal total, com ênfase genérica no prazer, e de um go-
zo alimentar que se coordena com o instinto da fome e proporciona a todo o 
corpo uma sensação de repleção equivalente a um orgasmo alimentar (Rado ) , 
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as zonas corporais gradualmente dividem-se em pontos de concentração de ex-
periência. 
A primeira fase do desenvolvimento da criança, por ser dominada pelo ins-
tinto de autopreservação e pelo impulso para o autodesenvolvimento, é pontua-
da pelo simbolismo da nutrição, pois alimento é não só a substância concreta 
de que se constrói o corpo, como também significa ao mesmo tempo vida, ale-
gria de viver e intensificação do processo vital. Assim, o leite materno é muitís-
simo mais que apenas alimento concreto. É símbolo de um mundo amistoso, 
e, o que dá na mesma, do arquétipo da Grande Mãe. Simboliza a essência da união 
dual positiva e sua nutrição, satisfação da sede, segurança, calor, proteção, pra-
zer, não-estar-sozinho, relacionamento, superação da dor e do desconforto, pos-
sibilidade de repouso e sono, um sentimento de estar em casa no mundo e na 
vida como um todo. 
Ao enfatizar as zonas oral e anal, Freud reconheceu a importância do tra-
to alimentar, suas portas de entrada e saída. Mas confinar sua teoria a zonas eró-
genas e descrever a constelação de instintos conectados a essas zonas como uma 
fase preliminar do desenvolvimento sexual, provou-se bastante inadequado. Só 
ao compreender a conexão entre o desenvolvimento biopsíquico específico do 
homem e seu correspondente simbolismo, torna-se clara a ligação entre a fase 
arquetipicamente condicionada, por um lado, e o desenvolvimento de ego e Self 
por outro. 
0 " l e i t e " pertence naturalmente à esfera oral, mas o oral aqui é símbolo 
de toda troca com o mundo. A boca tem implicações cósmicas, e mais tarde so-
ciais, que ultrapassam muito o significado local, concreto e material de uma mem-
brana mucosa erógena. Como todo o corpo, mas em especial suas zonas de algu-
ma forma destacadas, a boca nessa fase - e em grande parte daí por diante tam-
bém \u2014 é uma unidade psicológica. Faz parte de um mundo simbólico e de uma 
apercepção simbólica do mundo. Não é por acaso que o beijo como expressão 
de uma situação inter-humana é algo mais que a estimulação de uma membra-
na mucosa. O fator essencial do beijo consiste na experiência simbólica funda-
mental de uma abertura para o exterior, para o mundo e para o " t u " e numa 
conexão com o " tu " . 
Receber e ingerir, ou comer, estão ligados à boca, da mesma forma que 
respirar e falar. Oral não é apenas sugar e lamber, mas também balbuciar, falar 
e cantar. Daí, quando se diz que determinada coisa é oral, não se trata, como 
acreditam os psicanalistas, da expressão de um estágio infantil da libido, mas 
do ponto de emergência de um mundo arquetípico de símbolos da maior impor-
tância. Na criança, claro, esse mundo consiste em seu próprio tornar-se um ser 
e está estreitamente ligado com sua existência; mas toda existência humana, tan-
to na esfera espiritual como na psíquica, contém um significado simbólico cru-
cial que não pode ser reduzido ao infantil. 
Quando falamos de um uroboros alimentar, queremos dizer que para a 
criança a totalidade da existência humana manifesta-se no mesmo nível básico 
do instinto de alimentar-se e do simbolismo da nutrição. Nunca é demais subli-
nhar que comer e o alimento \u2014 como o demonstra incontáveis vezes o simbo-
lismo da linguagem e do mito, do sonho e dos contos de fadas \u2014 significam uma 
maneira de interpretar o mundo e de integrar-se nele. 
Como vimos, uma criança que se vê privada de sua mãe \u2014 e da relação pri-
mal \u2014 adoece. Esta doença não é primariamente física, mas psíquica, e reflete-se 
numa diminuição progressiva de seu interesse pela vida; não pode ser curada por 
alimentação material, mas unicamente pela restauração da relação primal que 
nutre sua totalidade. Conseqüentemente, quando dizemos que o " co rpo " da re-
lação primal é simbólico e abrange o mundo, estamos apenas tentando dar uma 
formulação para a unidade original real do dentro e do fora, que é a realidade 
tanto filogenética como ontogenética do homem considerado em seus primór-
dios. E nossa consciência polarizadora que primeiro tenta \u2014 freqüentemente de 
forma bastante inadequada \u2014 quebrar essa realidade unitária, dividindo-a em 
física e psíquica, em elementos concretos e abstratos. 
Para o ego, que de início "desperta" de modo apenas intermitente do tor-
por de uma existência pré-ego respondendo a intensas cargas de libido, a realida-
de existe apenas como fragmentos isolados. Esses fragmentos de realidade neces-
sariamente devem estar intensamente carregados, uma vez que é a sua carga ener-
gética que os traz à percepção do ego. Entre os focos de realidade nesta fase ini-
cial encontram-se as zonas erógenas descobertas por Freud; elas podem ser tam-
bém com toda justiça denominadas de gnoseógenas, uma vez que não só trans-
mitem prazer como também conhecimento a respeito da realidade.3 Só chega-
remos a uma compreensão adequada do desenvolvimento da criança se conside-
rarmos esses fenômenos à luz da situação humana como um todo. Também no 
mito, no ritual e na linguagem - que conserva seu caráter simbólico até hoje \u2014 
o conhecimento mais precoce do mundo expressa-se através do simbolismo do 
corpo. Em alemão, os radicais, básicos dos termos que vêm a seguir são claramen-
te os mesmos. Apreender é "engol ir" e "assimilar"; "compreender" é "prender 
usando as duas mãos", "ingerir", "digerir"; negar é "rejeitar", "jogar fora", "eje-
tar", "eliminar" - e muitos outros exemplos que poderiam ser acrescentados, 
relacionados com o conhecimento humano prístino do mundo através do sim-
bolismo do corpo. 4 
Esse conhecimento inicial do mundo e o desenvolvimento do corpo, acon-
tece em ligação estreita com a mãe, não apenas com o seu corpo, que fornece 
alimento, calor e proteção, mas também com todo o seu amor, consciente e in-
consciente, pelo filho e pelo corpo do mesmo. Também aí a relação primal é 
decisiva para o destino do indivíduo, uma vez que na primeira fase do desenvol-
vimento o amor e o conhecimento, o desenvolvimento do ego e a relação com o 
" t u " encontram-se intimamente ligados. Um distúrbio radical na relação primal 
pode levar a criança à idiotia, s ao passo que uma relação primal positiva propi-
cia uma base essencial \u2014 não decerto a única - de abertura paia o mundo, in-
dispensável para o subseqüente desenvolvimento intelectual da