sociologia  weber e kelven
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sociologia weber e kelven


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em Bobbio (1998, p. 255-256) e Dulce
(1989, p. 71).
3 Para maiores informações, ver Lévy-Bruhl (1997, p. 99).
Rica condensação traz-nos Diniz (1998, p. 66-68). Tam-
bém vemos boas referências em Reale (2000, cap. XXXI).
4 Referimo-nos aqui ao fato da proposição de Kelsen que
afirmava necessária \u201cdependência\u201d da Sociologia Jurídica
perante a Ciência Jurídica, visto que para delimitar o que
viria a ser \u201cDireito\u201d, a primeira utilizava-se de conceitos
elaborados pela segunda. Veremos mais adiante tal posição
de maneira detalhada.
5 Excelente demonstração do jurista italiano Norberto
Bobbio sobre a influência da obra de Jellinek na Sociologia
Jurídica de Max Weber, mormente no que tange às lições
tomadas por empréstimo na tarefa de distinguir entre Soci-
ologia do Direito e Dogmática Jurídica. Ver Bobbio (1998,
p. 260-263). Também encontramos uma boa referência em
Dulce (1989, p. 62-65), e também em um pequeno ensaio
sobre o conceito sociológico de Direito em Max Weber em
Krawietz (1994, p. 7-26).
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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 27: 171-179 NOV. 2006
trata de evidenciar essas duas perspectivas de
modo a esclarecer suas lógicas internas e operar
sua distinção fundamental entre a Dogmática e a
Sociologia jurídicas. Nosso autor já inicia o capí-
tulo \u201cEconomia e as ordens socias\u201d de sua Eco-
nomia e sociedade deixando evidente sua inten-
ção: \u201cQuando se fala de \u201cDireito\u201d, \u201cordem jurídi-
ca\u201d e \u201cnorma jurídica\u201d, deve-se observar muito
rigorosamente a diferença entre os pontos de vis-
ta jurídico e sociológico. Quanto ao primeiro, cabe
perguntar o que idealmente se entende por direito.
Isto é, que significado, ou seja, que sentido
normativo, deveria corresponder, de modo
logicamente correto, a um complexo verbal que
se apresenta como norma jurídica. Quanto ao úl-
timo, ao contrário, cabe perguntar o que de fato
ocorre, dado que existe a probabilidade de as pes-
soas participantes nas ações da comunidade \u2013 es-
pecialmente aquelas em cujas mãos está uma por-
ção socialmente relevante de influência efetiva
sobre essas ações \u2013, considerarem subjetivamen-
te determinadas ordens como válidas e assim as
tratarem, orientando, portanto, por elas suas con-
dutas\u201d (WEBER, 1999, v. I, p. 209; grifos no ori-
ginal).
Depreende-se desta passagem que Weber re-
duz a tensão entre Dogmática Jurídica e Sociolo-
gia do Direito a um cariz estritamente
metodológico. Ele considera que quando tratamos
da primeira ciência servimo-nos do método lógi-
co-normativo, ao passo que na segunda utiliza-se
o método empírico-causal, este típico da Socio-
logia. O método lógico-normativo possui a finali-
dade de verificar no interior de um \u201ccosmos de
regras abstratas\u201d suas regras de validade, reali-
zando uma verificação de compatibilidade lógica
das normas em um ordenamento. Esta operação,
portanto, situa-se no plano ideal, ou seja, no pen-
samento racional, no plano das idéias. Já o méto-
do empírico-causal investiga o comportamento dos
indivíduos frente a um sistema de regras, avalian-
do a potencialidade de suas condutas subsumirem
aquelas disposições, ou ainda, orientarem-se se-
gundo o conteúdo da norma, ainda que não cum-
prindo o disposto nela.
A Dogmático-jurídica para Weber possui uma
peculiaridade especial: ela situa-se na esfera do
dever-ser (Sollen), porquanto lida com a forma
de melhor regular (prescrever) condutas e
organizá-las sistemática e logicamente, de modo
a criar um sistema isento de contradições e exigível
perante seus destinatários. Como ele próprio nos
ensina a Dogmático-jurídica: \u201c[...] propõe-se a
tarefa de investigar o sentido correto de normas
cujo conteúdo apresenta-se como uma ordem que
pretende ser determinante para o comportamento
de um círculo de pessoas de alguma forma defi-
nido, isto é, de investigar as situações efetivas
sujeitas a essa ordem e o modo como isso ocor-
re\u201d (ibidem).
Assim entendido, a Dogmática Jurídica inves-
tiga as hipóteses em que uma norma será consi-
derada proibida, permitida, concessiva, explicativa,
integrativa, dentre outros tipos, de sorte a impor-
se como uma ordem àqueles a ela sujeitos. \u201cPara
esse fim\u201d, continua Weber, \u201cassim procede: par-
tindo da vigência empírica indubitável daquelas
normas, procura classificá-las de modo a encaixá-
las em um sistema sem contradição lógica inter-
na. Este sistema é a \u2018ordem jurídica\u2019 no sentido
jurídico da palavra\u201d (ibidem).
Por outro lado, entende-se por Sociologia Ju-
rídica na obra weberiana o estudo do comporta-
mento dos indivíduos frente às normas vigentes e
à determinação do grau em que se verifica a ori-
entação dos homens por esse conjunto de leis (or-
dem legítima). A tarefa sociológica na seara do
Direito atém-se a investigar, no plano da realida-
de, do acontecer fático, o que sucede no com-
portamento das pessoas que se submetem a um
ordenamento e de que maneira verifica-se sua ori-
entação segundo esta ordem legítima. Como bem
interpreta e assinala Julien Freund (2000, p. 178),
a Sociologia Jurídica \u201c[...] tem por objeto com-
preender o comportamento significativo dos mem-
bros de um grupamento quanto às leis em vigor e
determinar o sentido da crença em sua validade
ou na ordem que elas estabeleceram. Procura,
pois, apreender até que ponto as regras de direito
são observadas, e como os indivíduos orientam
de acordo com elas a sua conduta\u201d.
Vislumbra-se que a preocupação de Weber em
situar esses limites específicos, destina-se a não
permitir a confusão entre aqueles assuntos refe-
rentes aos aspectos normativos e aqueles situa-
dos no acontecer social (empíricos). Tal tarefa
decorre da diferenciação quanto às regras do \u201cser\u201d
(Sein) e do \u201cdever-ser\u201d (Sollen), de tradição
kantiana, na qual o comportamento humano ori-
entado conforme a norma \u2013 atuar este que se si-
tua no plano do \u201cser\u201d, da realidade fática \u2013 é de
incumbência de estudo da Sociologia Jurídica; ao
passo que as regras jurídicas, a forma de sua cri-
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MAX WEBER E HANS KELSEN: A SOCIOLOGIA E A DOGMÁTICA JURÍDICAS
ação, seu conteúdo a ser prescrito, sua organiza-
ção em um sistema lógico interno, isento de con-
tradições, seriam da alçada da Dogmática Jurídi-
ca, visto que se situam na esfera do \u201cdever-ser\u201d.
Fica evidente tal consideração quando nos repor-
tamos ao próprio Weber, quando assevera com
propriedade: \u201c[...] a ordem jurídica ideal da teoria
do direito [leia-se aqui Dogmática Jurídica] não
tem diretamente nada a ver com o cosmos das
ações [...] efetivas [objeto da Sociologia Jurídi-
ca], uma vez que ambos se encontram em planos
diferentes: a primeira, no plano ideal de vigência
pretendida; o segundo, no dos acontecimentos
reais\u201d (WEBER, 1999, v. I, p. 209)6.
Um ponto bem peculiar é necessário não se
deixar obnubilar: a Sociologia Jurídica é respon-
sável por investigar o comportamento dos indiví-
duos conforme um ordenamento jurídico posto
(vigente)7, orientando-se por ele, para o cumprir
ou o burlar. Um estelionatário, a fim de livrar-se
do peso da lei, orienta-se segundo a norma com o
fito de escapar-lhe. Ele visa aplicar a máxima dili-
gência em não ser descoberto, porque ao orien-
tar-se conforme a norma percebe que aquele com-
portamento é reprovável e sujeito à sanção. Aten-
te-se, assim, para o fato de que a observância ou
não observância normativa não é requisito essen-
cial para determinar o que é e o que não é tarefa
da Sociologia Jurídica investigar. Assim, basta a
ação do indivíduo conforme a ordem prescrita para
que encontremos matéria de análise. Como Weber
explica: \u201cO fato de pessoas quaisquer se compor-
tarem de determinada forma porque a consideram
prescrita por normas jurídicas é, sem dúvida, um
componente essencial da gênese real empírica, e
também da perduração, de uma \u2018ordem jurídica\u2019\u201d
(WEBER, 1999, v. I, p. 210; grifos no original). E
complementa sua idéia em um outro trecho: \u201cTam-
bém é desnecessário [dizer] [...] que todos