Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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por causa da expansão da lavoura de soja, que receberam
bem a idéia de uma cooperativa de jornalistas. Desde o início, pensávamos em fazer um
jornal, mas vimos que não tínhamos recursos. Tratamos de organizar a cooperativa,
aglutinar mais gente e juntar dinheiro para fazer um semanário.
_ Se o Coojornal fosse editado por uma empresa convencional, ele teria a mesma força?
Claro que não. O grande diferencial era a participação. O jornalista era o dono da em-
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presa e isso gerou uma grande simpatia no meio. O cooperativismo é a forma mais de-
mocrática de organização. Essa coisa do controle da empresa, que está na mão do jor-
nalista, era bem original.
_Como surgiu a tendência em se fazer uma memória da ditadura que ainda não havia
acabado?
Não queríamos atrair a censura, que recém havia saído das redações. Trabalhávamos no
limite que o regime permitisse. Avançávamos aos poucos. Falávamos indiretamente das
questões que estavam no ar, que a esquerda estava levantando, mas que não tinham es-
paço. E, à medida que começamos a notar o interesse das pessoas, passamos a ficar mais
ousados. O Ernesto Geisel começou a colocar, muito discretamente, o discurso da aber-
tura lenta, gradual e segura. Aparentemente, a revolução era vitoriosa: tinha eliminado
seus inimigos e podia se dar ao luxo de descomprimir um pouco o ambiente político. 
_Mas como explicar a prisão de vocês, já na década de 80?
A abertura teve vários solavancos. Um dos problemas que a abertura encontrou foi o cres-
cimento da imprensa alternativa. Ela puxou a imprensa convencional para novos temas \u2013
e aí vem a importância dela. Havia mais espaço, mas a imprensa convencional se acomo-
dou na posição de não incomodar o regime. Até porque o regime censurava e financiava
essa imprensa. Esses grupos todos que estão aí ganharam muito dinheiro. Mas esse reflu-
xo na abertura política é uma parte da história que ainda não foi bem contada. Houve um
plano deliberado para detonar a Coojornal, desde medidas oficiais tomadas pelo governo
até ações terroristas, como o caso das bombas nas bancas. Eu sei que houve reunião do III
Exército com empresários, em que se orientou a não apoiar a \u201cimprensa comunista\u201d.
_ Isso acabou acirrando, também, uma cisão interna na cooperativa?
O grupo que dirigia a Coojornal achava que o importante era preservar a organização, a
estrutura de trabalho. Achávamos que aquele processo ia passar. Mas havia um grupo
mais à esquerda, que defendia o fim dos serviços prestados para terceiros, para concen-
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trarmos esforços no jornal, fazer um jornal mais agressivo e buscar apoio no leitor, o que
era uma coisa utópica. Na hora em que começa a ter bomba em banca, até o leitor te
abandona. Aí veio o processo, veio a prisão, se acirrou a disputa interna. O grupo da opo-
sição ganhou a eleição e as pessoas \u2013 a essa altura tínhamos cerca de 400 sócios, mas a
maioria não tinha essa perspectiva política \u2013 se afastaram. No meu caso, como os salári-
os começaram a atrasar e eu ainda divergia com a linha deles, me afastei. Hoje a gente
vê que havia uma briga interna muito forte. Por isso que a pequena imprensa é necessá-
ria. Aqui no Jornal Já, por exemplo, posso abordar temas que a Zero Hora não pode. Na
nossa edição sobre o golpe de 1964, publicamos a manchete \u201cO dia em que o Rio Gran-
de vacilou\u201d, nos referindo aos dias em que o estado poderia ter comandando uma reação
contra o golpe. Se fizesse isso na Zero Hora, o pessoal que apoiou o golpe iria pra cima
do jornal, dizendo que, ao contrário, os gaúchos estiveram sempre do lado certo, apoia-
ram a revolução e impediram a implantação do comunismo no Brasil.
_ Já outros jornais não precisaram ser muito sutis e falaram logo em \u201crevolução\u201d.
Mesmo na Zero Hora, a palavra \u201cgolpe\u201d apareceu aqui e ali. Mas o pequeno jornal pode
fazer isso, e isso influi no grande jornal. Se o pequeno traz uma informação quente, o gran-
de jornal não pode ignorar por muito tempo. Um conjunto de pequenos jornais consegue
expressar opiniões que precisam de espaço. Para a saúde do sistema democrático é preci-
so um conjunto de pequenas mídias instigando a mídia grande, que tende a se acomodar,
porque ela é uma mídia empresarial, está muito mais ligada aos seus próprios interesses.
[história] Coojornal
[onde e quando] Porto Alegre (RS), de 1976 a 1983
[quem conta] Elmar Bones (foto) e José Antonio Vieira da Cunha 
[entrevistas realizadas] Abril de 2004
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A imprensa alternativa gaúcha conheceu um herói, que também passou pelas páginas
do Coojornal. Ele era feio, faminto, tinha barriga d\u2019água, catava restos num depósito de
lixo e cultivava um grande sonho a cada novo dia: fazer o desjejum. Seu nome, Rango,
que pelas bandas do Sul quer dizer \u201ccomida\u201d. Seu pai, o desenhista Edgar Vasques. 
\u201cEle nasceu do sentimento de resistência à mentira oficializada\u201d, diz Vasques. Ao denun-
ciar a fome dos brasileiros, Rango denunciava a falácia da ditadura, de que o País ia bem.
Nascido numa revista de estudantes de Arquitetura da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS) em 1970, Rango estreou na grande imprensa na Folha da Ma-
nhã, em 1973. Com a demissão dos jornalistas, entre eles Vasques, Rango foi pulando de
jornal em jornal, sendo o pivô, inclusive, de uma apreensão nas bancas, do velho Pasquim.
Antes de um mártir da luta contra a ditadura, Rango foi um sucesso editorial. Talvez
porque a linguagem do humor atraísse o público, assim como a qualidade da piada e as
alfinetadas nos militares. \u201cO Rango ajudou a formar uma opinião pública contra a cen-
sura e a ditadura, a favor da democracia. Certamente, nós, humoristas, contribuímos\u201d, en-
tende Vasques. Rango queria comer, apenas. Mas era justamente por aí que as grandes
questões da política nacional eram colocadas por Vasques. Afinal, como falar de desenvol-
vimento num país em que a miséria do povo era maquiada por uma bem arquitetada cen-
sura entre governo e empresários da imprensa? \u201cO que mais me preocupava na época da
censura era a alegação do milagre econômico. O grande problema era resolver a questão
da fome no País. Isso era um ponto estratégico da discussão sobre democracia\u201d, avalia.
Hoje, Vasques participa do Sindicato dos Grafistas de Porto Alegre e possui uma série
de problemas nas articulações das mãos, devido à compulsão por desenhar. Rango já tem
17 livros, mas está desempregado porque, para o autor, cada tirinha sua é uma porrada
no estômago. E ironia do destino: sua fome é cada vez mais atual, tanto que em 2005, no
prestigiado HQ Mix, o prêmio para os maiores cartunistas do Brasil foi justamente um
troféu do Rango. Vasques ri: \u201cHoje, acho engraçado ver o presidente instituindo um pro-
grama chamado Fome Zero. Quando eu falava disso, dava cadeia\u201d.
UM HERÓI FAMINTO
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[história] Rango
[onde e quando] Porto Alegre (RS), de 1970 a 2005
[quem conta] Edgar Vasques
[entrevistas realizadas] Abril de 2004
[Reprodução]
Herói e Milagre: a fome vem de antes
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As imagens que a história congelou talvez tenham sido aquelas das assembléias em
praças e campos de futebol, onde operários da região do estado de São Paulo conheci-
da como ABCD \u2013 as cidades de Santo André, São Bernardo do