Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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Campo, São Caetano e
Diadema \u2013 decidiam as greves que mudariam os rumos do País. Tudo registrado na-
quele colorido falho das câmeras Super 8, quando não em preto e branco, filmado na
maior parte das vezes pelos próprios metalúrgicos, que já conheciam a importância da
comunicação e experimentavam as novas tecnologias da época. Quando se fala no pe-
ríodo da redemocratização na região Sudeste do Brasil, aqueles anos que começam em
meados da década de 1970, talvez essas sejam as imagens que ficaram eternizadas. Mas
o movimento dos metalúrgicos do ABCD, que começa a tomar corpo em 1975, apesar
de ser o mais conhecido nas lutas pela reabertura para a democracia, não foi o único
a experimentar os meios que fossem possíveis para enviar e registrar a mensagem de
que essa abertura não poderia ser tão lenta e gradual quanto alguns desejavam.
\u201cNos bairros, nas fábricas, estava em curso um longo caminho de disputa contra-he-
gemônica. Isto se multiplicava também nas escolas, que tinham sido dizimadas de seus
militantes pela repressão. De 1977 para cá, recomeçava o movimento estudantil\u201d, lem-
bra o jornalista e pesquisador do Núcleo Piratininga de Comunicação, Vito Giannotti.
Essa disputa contra-hegemônica havia começado já em 1968, quatro anos depois do
golpe, quando trabalhadores nas fábricas, militantes de esquerda e ativistas dos mais
variados grupos nascidos do trabalho das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), or-
ganizavam-se clandestinamente, já começando a falar de reagir, protestar, exigir melho-
res condições de trabalho ou de vida, no caso dos bairros. Gianotti diz que \u201ceram cen-
tenas de pequenas reuniões, de cursinhos de Mobral, de Madureza [Mobral era a alfa-
betização; Madureza, o atual supletivo], organizados com a finalidade de juntar traba-
lhadores e puxar o papo para a política. Eram muitos jornaizinhos feitos à noite e ro-
dados nos fundos das igrejas, enquanto o ditador Geisel e sua tropa de torturadores e
assassinos continuava se deliciando com o extermínio dos tradicionais militantes co-
munistas.\u201d
Foi em 1977, a partir da publicação do que ficou conhecido como \u201ca farsa do rea-
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juste de 1973\u201d, quando a falsificação dos índices econômicos provocou um arrocho sa-
larial fortíssimo, que então a classe operária voltou à cena. Já havia vários movimen-
tos de contestação, de setores descontentes com a ditadura. Nesse momento, já existi-
am os movimentos pela Anistia e os declaradamente defensores do fim da ditadura. Pa-
ra o pesquisador, o que foi realmente determinante para o início da reabertura foi a vol-
ta da classe operária, \u201catravés das oposições sindicais e dos sindicalistas autênticos
agrupados em torno da liderança do Lula no ABC Paulista\u201d.
A partir da explosão das greves, em maio de 1978, começou um processo de organi-
zação dos trabalhadores, com encontros decisivos, como o Encontro Nacional das
Oposições Sindicais (ENOS) e o Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição à
Estrutura Sindical (ENTOES), ambos em 1979. Enquanto isso, também se articulava o
nascimento de um novo partido político, o Partido dos Trabalhadores. E os partidos
comunistas tradicionais, atordoados pela nova conjuntura e destroçados pela repressão
dos anos 70, reorganizavam-se por caminhos próprios.
JORNALISTAS E REVOLUCIONÁRIOS
O jornalista Bernardo Kucinski, professor licenciado da Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e hoje assessor especial da Secretaria
de Comunicação da Presidência da República, lembra-se do Movimento Contra o Cus-
to de Vida. \u201cMas também havia as oposições sindicais, as comunidades de base e a im-
prensa alternativa\u201d. Em seu livro Jornalistas e Revolucionários, referência sobre o pe-
ríodo da ditadura militar, Kucinski registra o papel essencial que diversos veículos da
imprensa alternativa \u2013 como os jornais Opinião, Movimento e O Pasquim \u2013 tiveram
no processo de redemocratização, especialmente no Sudeste. 
Para José Salvador Faro, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP) e da Universidade Metodista de São Paulo, a iniciativa de Geisel em promo-
ver uma abertura \u201clenta, gradual e segura\u201d tinha o objetivo de oferecer uma resposta
ao isolamento social em que o governo militar se encontrava, \u201cfato agora praticamen-
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te comprovado pelo jornalista Elio Gaspari, através da demonstração das divergências
no núcleo do sistema de poder na época\u201d. 
No Sudeste em geral, e mais espeficicamente em São Paulo \u2013 talvez a região social-
mente mais explosiva por conta dos efeitos trazidos pela segregação da modernização
econômica \u2013, uma verdadeira rede de movimentos sociais foi se formando. Faro diz que
era difícil encontrar um segmento que não tivesse se articulado em torno de demandas
de natureza específica, mas \u201cnem por isso desprovidas de significação política\u201d. 
A abertura seria, portanto, uma forma de canalizar as pressões que resultavam des-
se processo. \u201cVale lembrar, nesse sentido, o papel que a igreja católica desempenhou
através das Comunidades Eclesiais de Base, mas também a rearticulação do movimen-
to sindical, do movimento estudantil, o papel da OAB \u2013 Ordem dos Advogados do Bra-
sil, ABI \u2013 Associação Brasileira de Imprensa, SBPC \u2013 Sociedade Brasileira para o Pro-
gresso da Ciência etc.\u201d, explica o Faro. Em todos esses casos é possível verificar um
acúmulo de discussões que acabavam por convergir para a necessidade do restabeleci-
mento das garantias democráticas.
Os anos 80 abrigam o surgimento de vários movimentos sociais urbanos, que se
originam na maiore das vezes nos locais de moradia (leia o texto \u201cGrito do Povo da
Zona Leste\u201d, à página 58). Reivindicam direitos básicos de cidadania, como abasteci-
mento de água e coleta de esgotos, iluminação, transporte, calçamento, atendimento
médico e acesso à escola. Lutam também pela legalização de loteamentos clandestinos,
cada vez mais comuns nos bairros de periferia. Em vários momentos, partem para a
ação direta. Nos anos 80, há ocupações de terrenos e de conjuntos habitacionais em
construção em várias capitais e quebra-quebras de ônibus e trens urbanos.
Para Vito Giannotti, a abertura veio apenas e exclusivamente por conta de toda essa
pressão popular. \u201cEste povo que, logo após a crise do petróleo, começou a acordar.
Claro, foi muito lento este despertar. A ditadura, com sua Rede Globo, tinha feito e
continuava fazendo seu serviço de alienação do povo. O terror completava a ação,
acompanhado da mídia dos Marinhos e seus compadres de classe. Não faço nenhum
elogio ao ditador Geisel. Não é nenhum sacerdote da abertura e não tem nada de mãos
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limpas como alguém quer fazê-lo passar\u201d.
O professor aposentado do departamento de História da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), Sérgio de Souza Brasil, também diz que os militares não tive-
ram outra escolha senão a abertura. Entretanto, para ele, as pressões teriam sido me-
nos populares. Para Souza Brasil, a chamada abertura lenta e gradual, foi fruto não do
desejo unilateral dos comandantes militares, mas das condições históricas que determi-
navam a recuperação do espaço democrático, advindas da pressão e iniciativa de inte-
lectuais orgânicos de esquerda. Na análise do professor da UFRJ, todos os \u201cchamados
\u2018movimentos sociais\u2019 não eram mais do que grupos de esquerda que preconizavam,
com apoio da burguesia insatisfeita, transformações na ordem política, e menos das
pressões verdadeiramente