Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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populares\u201d. Por outro lado, Souza Brasil entende que tais
processos determinaram o surgimento, no âmbito da universidade, de um retorno às
discussões sobre como constituir uma instituição refletindo a realidade social brasileira,
\u201cnão mais fundamentada num esquerdismo pseudo-revolucionário\u201d. 
Segundo Souza Brasil, que ingressou como professor na UFRJ em 1967, e foi mem-
bro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a universidade (professores e estudantes),
que até antes da ditadura militar efervescia em expressões populistas e sem correta aná-
lise histórica, \u201cviu-se obrigada a pensar o que é uma universidade múltipla, participan-
te, reflexiva e realmente voltada à preparação de quadros intelectuais compromissados
com as transformações sociais. Ou seja, saiu-se de uma universidade que se \u2018conduzia
para fazer a revolução\u2019, para uma universidade que necessitava pensar em como trans-
formar historicamente a sociedade\u201d.
A universidade não esteve diretamente ligada à produção e à articulação dos movi-
mentos e dos veículos e projetos alternativos de comunicação. Teve, porém, um papel
importante nesse processo, por meio de docentes, estudantes e funcionários que produ-
ziam reflexões que, depois, eram absorvidas pelos movimentos. O professor de Histó-
ria da UFRJ lembra da \u201cenorme importância que tiveram os professores cassados \u2013 exi-
lados ou não \u2013 na produção da autocrítica que ocorreu. Tais professores, qualificados
por suas inteligências e produções acadêmicas, transformaram-se em agentes \u2018provoca-
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dores\u2019 para os que permaneciam \u2018lutando\u2019 na universidade.\u201d
Para ele, a interação nacional entre professores em exercício, professores cassados,
exilados e não-exilados, estudantes que se tinham qualificado em universidades es-
trangeiras e que, portanto, traziam experiências interessantes sobre as lutas socais em
outros países, permitiram que se pudesse produzir diretrizes para uma universidade
realmente plural. \u201cA universidade passou a dialogar com jornalistas, comunicadores,
midiólogos e intelectuais orgânicos até então afastados das discussões acadêmicas e
que, portanto, anteriormente, não conheciam as \u2018intimidades teóricas dos procedi-
mentos revolucionários\u2019\u201d. 
Ou seja, antes do golpe, segundo Souza Brasil, a universidade era dominada pelo \u201ces-
querdismo populista\u201d, que começou, com as possibilidades vislumbradas da abertura,
a interagir com outros segmentos de intelectuais que haviam sido rechaçados anterior-
mente. \u201cPara essa transformação colaboraram jornalistas e comunicadores que resisti-
ram aos imperativos da ordem militar sob a ditadura\u201d.
MINEIROS PELA DEMOCRACIA
Fernando Massote, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Uni-
versidade Federal de Minas Gerais (Fafich-UFMG), diz que, com o objetivo de acele-
rar a crise do regime militar, Minas Gerais deu vida ao Movimento do Manifesto dos
Mineiros pelas Diretas Já. \u201cApoiávamo-nos no exemplo histórico do Manifesto dos
Mineiros de 3 de outubro de l943, que abriu caminho para a derrubada da ditadura
de Vargas. Queríamos partir de Minas, como em l943, para mobilizar o Brasil e virar
novamente a mesa da história aprofundando a democracia com as Diretas Já\u201d. O pro-
fessor da UFMG explica que a sede da iniciativa e um dos seus principais promotores
foi o Instituto Mata Machado de Análises Políticas, Econômicas e Sociais, que enca-
beçou o movimento juntamente com a Associação dos Professores Universitários de
Belo Horizonte.
Massote, que foi porta-voz do instituto, lembra que Edgar da Mata Machado, o patro-
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no da instituição, havia sido secretário do governo Magalhães Pinto, entre l963 e o gol-
pe de l964, quando se demitiu diante das manobras golpistas. Mais tarde, nos chamados
anos de chumbo da ditadura, perdeu o filho, José Carlos da Mata Machado, que fora di-
rigente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e militante da Ação Popular (AP)
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Um dos representantes mais atuantes do Instituto foi o vereador Arthur Vianna, do
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que leu o Manifesto dos Mi-
neiros Pelas Diretas Já na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte, lembra Massote.
\u201cUm militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B), Luiz Carlos Bernardes, que
é economista e jornalista, deu uma contribuição especial na articulação do movimento
e ficou encarregado \u2013 juntamente comigo \u2013 de redigir o Manifesto. Redigidos, discuti-
dos e aprovados os termos do Manifesto, partimos para colher assinaturas da popula-
ção, o apoio dos movimentos populares para além dos que já integravam o movimen-
to e as lideranças políticas de todos os partidos\u201d. Assinaram logo, sem dificuldade, vin-
te deputados estaduais do PMDB. Nenhum dos vereadores do Partido Democrático
Social (PDS, sucessor político da Arena) na Câmara Municipal da capital mineira ade-
riu ao movimento. Darcy Ribeiro, à época Secretário de Cultura do Estado do Rio de
Janeiro, também deu seu apoio ao movimento, assim como vários artistas que foram
convidados a se integrar ao movimento e o apoiaram.
\u201cNão eram processos isolados, absolutamente\u201d, afirma o professor José Salvador Fa-
ro. Muitos deles, lembra, tinham a ver com a realidade paulista ou carioca ou ainda
gaúcha \u201ccertamente as regiões mais sensíveis às demandas de natureza associativa\u201d.
Faro observa que, em todos os casos, eram movimentos articulados por entidades na-
cionais (igreja, OAB, ABI, SBPC), \u201co que conferia às suas reivindicações um caráter na-
cional, além do efeito que tinham sobre as instâncias de representação política, ou se-
ja, partidos e Congresso Nacional\u201d.
O pesquisador Vito Giannotti ressalta que a aglutinação desses movimentos, os con-
tatos nacionais, tudo isso deve muito à ala da igreja católica que defendia a Teologia
da Libertação, \u201cque foi possível também graças à tradição comunista de milhares de
militantes de esquerda sobreviventes da ditadura, que desde o começo mostraram seu
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caráter nacional, sua necessidade de aglutinação e expansão, justamente para se con-
trapor à ditadura, que tinha uma abrangência nacional\u201d.
TRABALHADORES E DELEGADOS
De todo esse caldeirão, em 1980 nascerá o Partido dos Trabalhadores, aglutinando
diversos setores da esquerda brasileira e dos lutadores populares contra a ditadura.
Também foi desse esforço de aglutinação que, em 1981, será realizado o primeiro gran-
de encontro de trabalhadores após o golpe de 1964, a Conferência Nacional das Clas-
ses Trabalhadoras (Conclat). Reuniu 5.030 delegados no município de Praia Grande,
em São Paulo, e foi dali que surgiu a Comissão Nacional Pró-CUT. Dois anos depois,
em 1983, nasceria a CUT.
Em 1983, o País continuava agitado pela longa crise do regime militar, que oscilava
sempre entre a propalada abertura e o continuísmo golpista, como define o professor
da UFMG Fernando Massote. \u201cA eleição para presidente da República pelo voto dire-
to era a solução mais adequada para a crise e o movimento popular a adotava sempre
com maior intensidade\u201d, diz. O movimento pelas Diretas Já desenvolvia-se, alimenta-
do por essas situações e apoiando-se, também, na necessidade de consenso crescente
por parte dos governadores eleitos pelo voto popular, direto, em 1982. A presença de
um general-presidente \u2013 Figueiredo \u2013 na direção do País era um fato anacrônico e em
dissonância com o ritmo democratizante já impresso à vida nacional pelo menos de-
pois das eleições para governador em 1982. E nesse contexto, um dos governadores em
função, Tancredo de Almeida Neves, de Minas Gerais, já articulava a sua candidatura