Vozes da Democracia
382 pág.

Vozes da Democracia


DisciplinaRadiojornalismo I15 materiais1.573 seguidores
Pré-visualização50 páginas
à presidência.
JOÃO FERRADOR, COMUNICADOR
A comunicação dos trabalhadores foi decisiva na organização da resistência. Vito
Giannotti explica que \u201cde 1975 em diante multiplicaram-se os boletins de fábrica.
15_03 AF miolo 8/10/06 9:25 AM Page 56
57
| 
VO
ZE
S
DA
DE
M
OC
RA
CI
A 
 | 
 C
ON
TE
XT
O 
SU
DE
ST
E
Todos clandestinos, evidentemente, muitas vezes com o título de Interfábricas. Era o
germe avançado da organização. Para se fazer um boletim Interfábrica era necessário
realizar um monte de pequenas reuniões, de discussões. E tudo isto juntava trabalha-
dores e estudantes, jornalistas, padres e intelectuais. A imprensa operária foi um fator
determinante desta reaglutinação e da mobilização nestes anos\u201d, diz. 
Havia, nessa época, todo tipo de publicação, com jornais da imprensa alternativa
vendidos em banca, bem como novos instrumentos intermediários entre o trabalho de
bairro e o trabalho de fábrica, como o famoso ABCD Jornal. No final da década de
1970, nascem os boletins feitos de recortes de jornais da grande imprensa, dos quais o
mais célebre foi o Jornal dos Jornais, vendido de mão em mão nas fábricas de São Pau-
lo. Em sindicatos de luta, como o dos Metalúrgicos do ABC, o jornal do sindicato, a
partir das greves de 1978, passou a ter um papel cada vez mais importante (leia maté-
ria \u201cC\u2019os sons do boré, mil gritos reboam\u201d, à página 76). Assim, tornou-se diário, co-
mo continua até hoje. Sindicatos e oposições sindicais passam, a partir de 1979, a pro-
duzir muitas cartilhas, algumas delas totalmente ilustradas por militantes políticos que
se integravam ao renascido movimento operário.
A importância das ilustrações nos materiais dos sindicatos pode ser explicada por
meio de diversas histórias. Uma das mais elucidativas remete ao fim dos anos 70 e co-
meço dos 80, quando João Ferrador foi celebrizado em camisetas à época das greves
do ABC. João Ferrador era um personagem que apareceu, incialmente, em março de
1972, no boletim Tribuna Metalúrgica, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em
uma chamada que dizia: \u201cBilhete do João Ferrador\u201d. Sujeito de cara enfezada, que apa-
recia ao lado de um slogan: \u201cHoje eu não tô bom\u201d, foi uma criação de Henfil e Laer-
te que virou logomarca do jornal do sindicato. \u201cEra o símbolo do trabalhador sindica-
lizado, mas que não se limitava apenas ao sindicato. Estava presente nas residências,
bares, campos de futebol, parques de diversões, camisetas de operários, nas feiras\u201d,
afirma a doutora em História Social pela PUC-SP, Telma Bessa. 
Como uma forma de identificação operária, o João Ferrador expressou a situação de
vida dos trabalhadores e foi porta-voz da categoria, dando visibilidade aos protestos,
15_03 AF miolo 8/10/06 9:25 AM Page 57
reivindicações e anseios da categoria no período, tratando de questões como arrocho
salarial, custo de vida, lutas sindicais. \u201cSua maneira de se colocar, de escrever os bilhe-
tes de forma irônica, examinar temas, questionar, falar e pensar sensibilizou os traba-
lhadores em seu cotidiano\u201d, explica Bessa.
Vito Giannotti completa a análise, explicando que a gama de materiais de comuni-
cação produzida nos sindicatos não parava de crescer. \u201cPara uma classe operária mi-
grante vinda do Nordeste, produziam-se cordéis; para o Sul industrializado, faziam-se
grupos de teatro, entrosando ainda mais a classe operária e a classe média no projeto
que explodiria a partir de 1980\u201d, recorda-se. Junto a isso, multiplicavam-se os debates
e palestras sobre o momento atual e a história da classe trabalhadora. Sindicatos e
CEBs investiam muitos esforços na formação de militantes. Para o pesquisador do Nú-
cleo Piratininga, \u201cEra preciso vencer a tentativa de lobotomia que a ditadura e sua te-
levisão, a Globo, tinham começado a fazer desde 1968, com o AI-5 (Ato Institucional
Número 5). E conseguiu-se\u201d.
O professor Faro destaca três \u201csuportes comunicacionais\u201d que foram decisivos du-
rante o período da redemocratização para toda essa rede de movimentos sociais: os
vídeos comunitários, as rádios comunitárias e a imprensa alternativa \u2013 incluídos, nes-
te último caso, os jornais sindicais. Tudo isso, permitido em parte pelo desenvolvimen-
to tecnológico e em parte por sua própria dinâmica social. \u201cFui testemunha de comu-
nidades de base que reproduziam suas experiências de discussão através de vídeos gra-
vados por lideranças locais e retransmitidas em emissoras de baixa freqüência\u201d. Ao
mesmo tempo, uma variedade muito grande de folhas impressas \u2013 algumas articula-
das por jornalistas que operavam na chamada \u201cimprensa nanica\u201d \u2013 ajudava a dar con-
sistência a esse movimento. \u201cNão tenho dúvidas de que os processos de comunicação
cimentaram, por assim dizer, a participação da sociedade civil no processo de demo-
cratização\u201d, ressalta.
O material produzido no Sudeste não ficava restrito à sua cidade de origem \u2013 e nem
mesmo era realizado sem contato com outras regiões do Brasil. Sem internet, a comu-
nicação e a troca de material tinha que ser feita com criatividade e ajuda das organiza-
15_03 AF miolo 8/10/06 9:25 AM Page 58
59
| 
VO
ZE
S
DA
DE
M
OC
RA
CI
A 
 | 
 C
ON
TE
XT
O 
SU
DE
ST
E
ções nacionais que tivessem representações regionais. No período, existiram muitas ini-
ciativas de ajuda mútua entre movimentos de vários estados. Mais uma vez, as tentati-
vas de enviar publicações ou ajudar a realizá-las em outros estados mais distantes, eram
facilitadas pela estrutura das CEBs e pela articulação das esquerdas que precedeu a cri-
ação da CUT e do PT. 
Para a articulação dos sindicatos e movimentos populares, Vito Giannotti registra
que era fundamental a troca de materiais de informação, formação e propaganda, co-
mo boletins, jornais, cartilhas, livros e etc. \u201cHouve toda uma rede de contatos que se
desenvolveu através de viagens de organização pelo Brasil afora. E sempre, o fator per-
manente de aglutinação e organização era a imprensa, a comunicação\u201d.
[1] Ação Popular (AP): organização que surgiu da Juventude Universitária Católica (JUC) na década de 1960, com
um perfil de esquerda. Seus integrantes, que dirigiram a UNE durante os primeiros anos da ditadura militar, foram
influenciados pelas idéias da Revolução Cubana, do marxismo-leninismo e pelo pensamento de Mao Tsetung. A
maioria dos seus integrantes entrou para o Partido Comunista do Brasil (PC do B) a partir de 1968.
[história] Contexto Sudeste
[onde e quando] São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais; de 1960 a 2005, especialmente
1970 a 1989
[quem conta] Bernardo Kucinski, Fernando Massote, JS Faro, Sérgio de Souza Brasil e Vito Giannotti 
[entrevistas realizadas] de setembro de 2004 a janeiro de 2005
15_03 AF miolo 8/10/06 9:25 AM Page 59
GRITO DO POVO 
DA ZONA LESTE
PRISCILA D. CARVALHO é assessora de comunicação do Conselho Indigenista Missionário
(Cimi) e integrante do Intervozes
15_03 AF miolo 8/10/06 9:25 AM Page 60
61
| 
VO
ZE
S
DA
DE
M
OC
RA
CI
A 
 | 
 G
RI
TA
 P
OV
O
\u201cO Grita Povo a gente lia. Por causa desse envolvimento que a gente tinha na comu-
nidade e sabia que de lá vinham as informações. O Grita Povo, de uma forma muito
mais politizada, com experiência do que fazia, tinha as informações que nós da rádio
gostaríamos de passar para a comunidade. O que estava acontecendo no mundo, no
Brasil, e os assuntos da nossa comunidade. Era o que a gente queria fazer na rádio. Lo-
gicamente isso contribuiu, porque a referência de todo mundo acabou sendo o Grita
Povo, era o acesso que nós todos tínhamos ao que acontecia em todo lugar. Um jornal
até pequeno, mas com muita informação\u201d.
Quem conta a história é Sueli Maria de Almeida.