Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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O objetivo do jornal era retratar as lutas do movimento, além de ser material para
formação política e divulgação de notícias que não saíam na grande imprensa. Depois
de reuniões e desentendimentos para escolher um nome (\u201ctudo era muito democrático
naquela época\u201d), ficou-se com Grita Povo, sugerido por Dom Angélico. 
\u201cA gente montava naqueles espelhos de máquina de escrever elétrica, letraset pros tí-
tulos, desenhos, tudo muito artesanal. Saímos com uma tiragem de 2 mil exemplares\u201d,
lembra. Cada paróquia recebia uma quota de jornais e o padre e algumas pessoas da
comunidade garantiam a venda. \u201cTinha retorno, tinha sempre alguém da comunidade
que avisava o jornal do que ia acontecer. Então, a gente pautava e ia fazer as matérias.
E tudo isso sempre acontecia nos finais de semana, que era quando o pessoal dos mo-
vimentos saía pra lutar pelos direitos, porque todo mundo trabalhava. As coisas fervi-
lhavam no fim de semana. De segunda a sexta, todo mundo levava sua vidinha normal.
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Em pauta no Grita Povo: dos bairros da Zona Leste paulistana a Brasília
[Reprodução]
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Eu trabalhava num banco\u201d, conta a jornalista Regina Vilela, na época ainda estudante.
O jornal cobria manifestações, divulgava reuniões e atividades nas comunidades. Du-
rante um longo período, a página central falava de cada um dos 10 setores em que era
organizada a diocese. O Grita Povo dava notícias de lutas e de direitos, abordava te-
mas nacionais e internacionais, principalmente latino-americanos. 
A capa da edição número 77, de agosto de 1987, dá idéia dos temas tratados pelo
jornal. A página foi dividida em retângulos. No primeiro deles, destaque para o texto
\u201cContra a política atual: Greve Geral dia 28/08/87\u201d e um desenho de grevistas com fai-
xas: \u201cNão Voltar ao FMI \u2013 Direito dos Trabalhadores \u2013 Pagamento das perdas salari-
ais \u2013 Reforma Agrária \u2013 Repúdio ao Plano Bresser\u201d. 
No retângulo abaixo: \u201cPlenário Pró-participação Popular na Constituinte - A entre-
ga estadual das assinaturas de iniciativa popular\u201d. E, distribuídas em retângulos meno-
res, as chamadas: \u201cAssembléias nas favelas\u201d, \u201cMovimento dos Sem Terra\u201d, \u201cSemana
da Juventude\u201d, \u201cEspantando Bruxas\u201d e \u201cDesatando Nós\u201d, \u201cA Bíblia na Região\u201d e \u201cSe
cuida Brasil!\u201d.
O arquivo dos jornais, hoje encadernados e guardados na sede da Cúria de São Mi-
guel, evidencia a quantidade de mudanças gráficas e editoriais pelas quais o Grita Po-
vo passou. \u201cHavia muitas discussões sobre a maneira como fazia, que tipo de lingua-
gem, de enfoque, de pauta. Alguns achando que devia se massificar mais, ser um bole-
tim muito mais leve, que ainda era muito massudo\u201d, lembra Strabelli.
Houve uma primeira fase que durou de agosto de 1982 a agosto de 1984 (número 1
ao 23), em que o Grita Povo era um tablóide mensal com 8 páginas de 6 colunas, im-
pressão off-set e contava com uma equipe de estudantes de jornalismo na sua produ-
ção \u2013 o que permitia uma cobertura mais quente de manifestações e acontecimentos re-
gionais. \u201cPra eles era uma experiência prática e pra gente era interessante porque trou-
xeram formatação\u201d, diz o responsável pelo jornal até 1988.
O jornal deixa de ser publicado entre 1984 e março de 1985. Volta quinzenal, com
12 páginas de papel ofício. Desenhos e caricaturas, que já existiam antes, passaram a
ser mais usados que as fotografias, por causa da impressão mais simples. Segundo um
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editorial da edição da volta do jornal: \u201cVimos que fazer um jornal popular, com cara
de grande imprensa, não era possível (...). Portanto, achamos melhor parar e discutir
(e como discutimos...). Voltamos. Uma sexta-feira sim, outra não, você terá este jor-
nal na mão. Dependendo de sua participação e das demais comunidades, podemos
melhorar. Contamos com o seu apoio\u201d (número 23 \u2013 página 2). Foi uma adequação
do jornal aos recursos técnicos que o Cemi tinha, para gastar menos com impressão.
Segundo algumas das pessoas que estavam lá, foi também um momento de mudan-
ça da orientação do jornal, que se afastou de temas nacionais e passou a cobrir mais
dos temas locais.
\u201cO Grita Povo mudou na visão da Arquidiocese, passou a ser voltado pra questão re-
ligiosa. Quando começou a abandonar esse lado social, a maioria das pessoas foi sain-
do\u201d, lembra Regina Vilela. 
Strabelli vê aquela mudança de forma diferente: \u201cA gente acabou criando uma rede
de repórteres populares, que fizeram os cursinhos de como fazer uma redação, como
redigir uma notícia. Dependendo das coisas que a gente sabia que ia acontecer num de-
terminado local a gente pedia pra alguém fazer a cobertura. Foram duas experiências
que poderiam ter casado muito bem, mas a gente não tinha como segurar a rapaziada,
que começava a ter que procurar emprego pra sobreviver\u201d. A conseqüência mais visí-
vel da mudança foi o aumento de matérias frias ou opinativas. 
Na página 2, ficava uma coluna de Dom Angélico, onde o bispo comentava algum
fato \u2013 eclesial ou não \u2013 da quinzena. As seções fixas variaram muitas e muitas vezes
nos anos de jornal. Encarte de quadrinhos, uma seção de culinária (com receitas casei-
ras simples que tinham o objetivo de melhorar a saúde da população) e uma coluna so-
bre santos foram algumas delas. 
Com o passar dos anos, os temas tratados pelo jornal foram voltando-se mais e mais
para os assuntos da igreja, ao mesmo tempo em que enfraqueciam ou se transforma-
vam os movimentos populares da região. 
Os motivos para o fim do Cemi e do Grita Povo tiveram a ver com a mudança do
cenário político nacional e com uma mudança da orientação da igreja católica que fez
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Solidariedade em foco: questão indígena e reforma agrária
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com que os setores progressistas perdessem força dentro da instituição e que as priori-
dades saíssem dos trabalhos sociais e comunitários. Nesse processo, que incluiu trocas
de bispos e fechamento de portas para os trabalhos das CEBs, Dom Angélico foi trans-
ferido em 1989 para a diocese de Brasilândia, bairro da Zona Norte de São Paulo, e
depois para a cidade de Blumenau (SC). 
Com a abertura democrática, a criação de partidos, a volta da possibilidade de mil-
itância em sindicatos, a igreja deixou de ser um dos únicos espaços possíveis de atua-
ção política. Na análise de Gilberto Nascimento, \u201ca igreja ajudou demais na organiza-
ção, na cessão dos espaços e no apoio aos movimentos populares. Mas geralmente
quando uma liderança avançava, crescia, começava a questionar muito, acabava sain-
do dos espaços da igreja. Isso explica um pouco porque as coisas organizadas pela igre-
ja perderam força mais tarde, quando outros caminhos de participação voltaram a
existir\u201d. Nascimento participava também do Movimento Popular de Arte, o MPA, que,
entre outras atividades, organizava a \u201cPraça do Forró\u201d, com manifestações culturais e
populares no centro de São Miguel.
A nova orientação da igreja fez com que a existência de estruturas como a do Cemi
perdesse sentido e a manutenção do Centro \u2013 que chegou a ter 23 funcionários, em
1988 \u2013 tornou-se cara e pouco atrativa para os financiadores estrangeiros. 
As pessoas que participaram daquele momento, no entanto, lembram dele como um
período intenso de formação. Potencializados por ferramentas de comunicação \u2013 rá-
dios-corneta, vídeos, jornais e outros \u2013 os movimentos fizeram parte de um processo
de \u201cperda do medo de se comunicar. Reconquista do direito à cidadania ou,