Vozes da Democracia
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prensa universitária\u201d, para que as entidades estudantis voltassem a ter publicações de
todos os tipos. Isso aconteceu na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na ECA, no
Conselho dos CAs, na História, na Geografia, na Economia, na Politécnica, Medicina,
Direito, também na Luiz de Queiroz [Agronomia]... As escolas procuravam voltar a ter
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seus jornais e havia um empenho sistemático dos jovens filiados ao PCB. 
_ O que mais você destacaria deste período?
Na ECA, fazíamos as semanas de jornalismo, com vários estudantes de outros estados.
E aí, em 1972, realizou- se o primeiro encontro nacional de estudantes de comunica-
ção, em Goiás, precedido por encontros estaduais. Esse movimento gerou uma série de
publicações, e a descoberta de artistas. Outros encontros por área também foram or-
ganizados, uma vez que a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi declarada entida-
de clandestina.
_ E os problemas com a ditadura?
Em novembro de 1974, temos uma vitória espetacular do MDB. Mas então a repres-
são vem sobre as pessoas que reconstruíram os movimentos, vem sobre nós, sobre as
pessoas públicas \u2013 mas em um ambiente muito diferente. E a reação da sociedade foi
diferente, como no caso do Herzog. Em 1976, há a retomada do movimento estudan-
til, a igreja se mobiliza na defesa dos direitos humanos. Em 1978, vêm as greves do mo-
vimento operário. Depois a Anistia, em 1979. Esse processo todo resultará na Consti-
tuinte em 1987/88, que significou finalmente a derrota da ditadura. 
_ Mas voltemos à imprensa universitária.
Verificar o que foi a imprensa universitária do início dos anos 70 é ter elementos para
compreender um pouco melhor a imprensa operária da década de 1980. Temos aí um
timaço de comunicadores, que produziu filhotes de todo o tipo até hoje. 
IMPRENSA SINDICAL, BERÇO DA OBORÉ
_ Os projetos e atividades na USP acabaram por desembocar em projetos profissionais,
que depois vêm a se transformar na OBORÉ. A partir de que momento isso ocorre?
Em 1972, o Sindicato dos Têxteis de São Paulo queria desenvolver uma campanha de
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filiação, que trouxesse dez mil novos sócios. Para essa iniciativa, foi chamado nosso
grupo na ECA: eu, Laerte, Paulo Markun e Diléa Frate. Nessa mesma época, um gru-
po de artistas da ECA e da FAU-USP decide lançar o Balão. A soma dessas duas expe-
riências vai dar origem à OBORÉ em 1978.
_ E como o Sindicato dos Têxteis entrou em contato com vocês?
Foi por meio de um operário, Hércules Correia, que era do comitê central do PCB e
nos colocou em contato com o sindicato. Na primeira reunião com a diretoria, pega-
mos o jornal do sindicato e a primeira palavra do editorial era \u201cnão obstante\u201d. Todo
o restante do texto seguia nessa linha, nada compreensível para os trabalhadores.
Quando começamos a fazer os materiais, distribuíamos no cursinho supletivo do sin-
dicato, para ver se o pessoal tinha entendido. A gente refazia até ficar compreensível. 
_ Vocês tinham outros mecanismos para testar o produto, não?
Nessa época, o Laerte e eu fizemos um folheto do tamanho de uma nota de dinhei-
ro: era o programa do MDB, em 23 palavras e desenhos. Distribuíamos no futebol,
na saída dos jogos no Pacaembu. Percebemos que o material tinha de caber na car-
teira, no bolso da camisa do sujeito. E os folhetos eram muito bem recebidos, não
eram jogados fora no chão.
_ Quando vocês incorporam a questão do humor nos trabalhos? 
A OBORÉ começa a mudar a imprensa operária em 1978, antes das greves. A OBORÉ
e essa imprensa são filhas da imprensa universitária, onde o humor era considerado
positivo. Também fomos percebendo que entre os trabalhadores todo mundo botava ape-
lido, havia uma gozação permanente. 
_ Como isso dialogava com elementos mais políticos, \u201csérios\u201d e técnicos das publicações?
Uma parte do nosso grupo trabalhou como pesquisador do Censo do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatísticas) em 1970. Com a ida aos domicílios e os relató-
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rios do Censo em mãos, descobrimos entre os trabalhadores uma combinação de can-
saço, casa pequena, má iluminação, falta de leitura e tudo mais. Concluímos que, do
ponto de vista gráfico, a imprensa alternativa, que tinha longos textos num corpo mui-
to pequeno, não funcionava. Os trabalhadores queriam que você fosse curto e grosso,
mas que ao mesmo tempo explicasse tudo. 
_ De que modo esse acúmulo vai caminhando para a criação da OBORÉ?
A necessidade do trabalho permanente foi importante na fundação da OBORÉ. Era
preciso ter peridiocidade \u2013 para ser curto e grosso e explicar tudo \u2013 e isso não era pos-
sível só com trabalho em hora extra. 
Em 1977, o Lula é eleito presidente dos Metalúrgicos. Todos os jornais de sindicatos
tinham a mesma cara e o Lula queria um jornal por fábrica. E uma revista com temas
mais aprofundados.
O Laerte estava em São Bernardo e o Lula propõe a ele que juntasse um grupo de jo-
vens jornalistas para desenvolver um trabalho nos sindicatos. 
_ E nesses trabalhos vocês consolidam o \u201cbaião de três\u201d. 
Baião de três era essa coisa de fazer uma chamada publicitária, que pegasse o cara lo-
go pela manchete. Depois, o texto curto, que não intimidasse o trabalhador. E a foto
ou o desenho que ajudasse a explicar tudo. 
_ Isso se mantém hoje?
Eu vejo a imprensa sindical, em geral, desorientada. Parece que se perdeu o que descobri-
mos na época. Nas escolas de comunicação, não há mais a disciplina Jornalismo Sindi-
cal, os jornalistas hoje mal pensam em atuar na área. Os meios, no entanto, evoluíram
muito: o sindicato dos bancários, dos metalúrgicos, têm grandes gráficas por exemplo. 
É impossível entender o que aconteceu com o movimento sindical nos últimos vinte
anos sem reconhecer a existência de uma imprensa própria dos trabalhadores. Não foi
\u2013 e não é \u2013 a grande imprensa que informou os trabalhadores para irem à luta. 
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Publicação da OBORÉ em parceria com o Diap: união com os trabalhadores
[Reprodução]
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_ Um exemplo para ilustrar essa reflexão?
Todos os anos, morrem cinco mil pessoas por acidente de trabalho. Outras 200 mil são
mutiladas. Algo em torno de 800 mil adoecem por fatores ligados ao trabalho. Todo
ano, há muitos anos. Isso significa um custo, na área da previdência e em termos de
horas paradas, que supera os R$ 30 bilhões. Esse assunto continua não existindo para
a grande imprensa. E a imprensa sindical está dando muito menos atenção a isso do
que deve. 
_ Você conhece, Sérgio, alguma universidade, alguma faculdade que trate disso no
currículo?
Não. Eu não conheço nenhuma escola de jornalismo que tenha tido como propósito,
por exemplo, entrar no ambiente de trabalho, e mostrar como as coisas funcionam. As
empresas não fazem mais reportagem e as escolas não formam repórteres. 
UNIÃO COM \u201cOS DE BAIXO\u201d
_ Você fala muito no trabalho da OBORÉ se basear em \u201cuma união com os de baixo\u201d .
Há um momento em que isso surge claramente em sua vida?
Em 1968, estava em uma manifestação estudantil na Praça Benedito Calixto, em São
Paulo. E vem de lá uma bomba de efeito moral. Eu pego para jogar de volta contra a
polícia e quando olho o rótulo, vejo a marca que simbolizava a cooperação dos Esta-
dos Unidos com os programas sociais brasileiros. Para mim, a relação entre imperialis-
mo e ditadura ficou absolutamente clara ali. 
A partir desse dia, a primeira e a última coisa que penso é como enfrentar esses caras
que estão aqui para atirar em nosso povo, para submetê-lo, que estão aí, ameaçando o
futuro da humanidade.