Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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apocalíptico tradicionalmente as-
sumido pelas autoridades eclesiais perante a mídia; depois, fortaleceu a prática da li-
berdade de imprensa no exercício do jornalismo, tanto incentivando o episcopado a se
converter em fonte permanente de notícias, quanto fomentando as Comunidades Ecle-
siais a ler criticamente o noticiário veiculado pela empresas jornalísticas.
_ Quais são os princípios da UCBC e como era a relação da instituição com a socieda-
de civil?
A UCBC ancorou-se historicamente em princípios basilares como: liberdade de expressão,
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pluralismo ideológico e democratização cultural. Esse comportamento não dogmático per-
mitiu seu trânsito na sociedade civil brasileira, então castigada pela repressão institucional.
_ O congresso em Campinas, em 1975, teve a presença de Dom Paulo Evaristo Arns
falando sobre Incomunicação Social. O que a participação de Dom Paulo trouxe de
mais importante ao congresso?
A presença de Dom Paulo Evaristo Arns no congresso de Campinas foi reconfortante na-
quele momento, pois nos trouxe uma mensagem carregada de sabedoria e perseverança. 
Aprendemos, dolorosamente, o que era a Incomunicação Social, pois as autoridades de
então receberam com desconfiança a presença do cardeal Arns em nosso encontro
anual. Tanto assim que a mídia ignorou solenemente o nosso congresso. Por isso tomei
a iniciativa de reunir em livro as principais reflexões ali esboçadas, com a finalidade de
ampliar a sua difusão nacional.
_ Em tempos de repressão, a UCBC lançou o projeto Leitura Crítica da Comunicação.
Qual a origem da iniciativa? Atualmente, o projeto volta a ser desenvolvido com ênfa-
se pela UCBC. Da proposta original, o que mudou?
A autoria foi coletiva. Pretendia ser um contraponto em relação àquelas jornadas de
inspiração norte-americana que faziam uma leitura puramente moralista da mídia. Nós
queríamos enfatizar sua leitura política, naquele sentido de leitura do mundo sugerida
por Paulo Freire. 
Infelizmente, a dinâmica do projeto acabou por torná-lo enviesado, na minha opinião,
assumindo o caráter de leitura ideológica, no sentido althusseriano. Mas esta nunca foi
a intenção da equipe que se reuniu intensivamente para esboçar suas diretrizes. 
_ O que motivou o senhor a construir boa parte de sua vida na luta por novas políti-
cas de comunicação?
A minha obstinação pelas políticas de comunicação está enraizada no sentimento de-
mocrático, que cultivo intensamente. 
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Toda sociedade precisa definir claramente as regras do jogo comunicacional, sob o ris-
co de convertê-lo em território propício às artimanhas dos manipuladores de plantão.
É possível que as políticas instituídas não sejam tão democráticas quanto gostaríamos,
mas é fundamental que elas garantam espaços pluralistas e responsáveis, no sentido de
garantir seu constante aperfeiçoamento. 
O casuísmo como política comunicacional tem sido danoso à nossa sociedade, fortale-
cendo a ação dos tradicionais donos do poder.
_ A igreja conseguiu superar a visão instrumentalista da comunicação, evoluindo nas
questões dos direitos humanos?
Pouco a pouco a igreja vai superando suas posturas conservadoras. A questão dos di-
reitos humanos tem povoado intensamente a agenda da igreja católica. Sua apropria-
ção comunicacional deve incluir tanto a denúncia das violações (agenda negativa),
quanto as conquistas civilizatórias (agenda positiva).
_ Qual o papel da UCBC nos dias de hoje? Antes, a figura do inimigo era muito clara:
era a ditadura, era o autoritarismo. Quem são os \u201cinimigos\u201d de hoje? 
O papel da UCBC hoje deve ser o fortalecimento da sociedade democrática. Ultrapas-
samos os maniqueísmos peculiares à conjuntura da sua fundação, marcada pelo auto-
ritarismo. Se existe inimigo à vista ele continua sendo a exclusão comunicacional, res-
ponsável pelo lento desenvolvimento da nossa vida democrática.
[história] Igreja e comunicação
[onde e quando] São Paulo (SP), de 1964 a 1982
[quem conta] Dom Paulo Evaristo Arns 
e José Marques de Melo
[entrevistas realizadas] Abril a Junho de 2004
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RÁDIO NOVE DE JULHO, 
ECOANDO A RESISTÊNCIA POPULAR
A Rádio Nove de Julho, da Arquidiocese de São Paulo, nasceu em 1953 e teve gran-
de participação na luta contra o regime militar, apoiando a resistência popular, denun-
ciando prisões políticas, torturas, desaparecimento de pessoas. 
No dia 30 de setembro de 1973, sua concessão não foi renovada e seus transmis-
sores foram lacrados. Para o monsenhor Dario Benedito Bevilacqua, porta-voz da
Arquidiocese de São Paulo e diretor da rádio, \u201cesse gesto arbitrário do governo di-
tatorial foi, segundo os analistas da época, uma tentativa de silenciar a igreja, pois
Dom Paulo Evaristo Arns já representava para todo o Brasil uma voz que lutava pe-
la liberdade, contra a tortura. Isso desagradava profundamente o regime militar\u201d.
Bevilacqua ressalta que \u201cnão havia nenhuma razão legal para essa punição\u201d. 
A importância da Nove de Julho é destacada por Dom Paulo, que considera a rádio, tal
como é hoje, \u201cum instrumento de comunicação insuperável. Soube que tem um programa
com 500 mil ouvintes. Onde é que você, na vida, pode falar para tantas pessoas?\u201d.
Depois de muita luta para a devolução da rádio, o então presidente Fernando Hen-
rique Cardoso assinou um decreto para sua reabertura em 1996. Mas a Nove de Julho
voltou a funcionar efetivamente apenas em outubro de 1999, quando Dario Bevilacqua
foi nomeado por Dom Paulo para ser diretor da rádio.
_ Qual é a principal característica democrática da Nove de Julho?
Uma das características da rádio é que o ouvinte fala, participa. Existe a preocupação
de que suas opiniões possam ser manifestadas.
Agora, temos uma linha, uma filosofia. A visão democrática não significa que deva ce-
der a rádio para pessoas que são contra a democracia, por exemplo. Entendo democra-
cia como valorização da pessoa humana, então precisamos de uma rádio que respeite
os direitos das pessoas.
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_ O que a rádio, como rádio católica, defende?
A justiça, a verdade e o amor, porque são esses os valores do evangelho. O fato de ser
uma rádio católica não significa que ela reze o dia inteiro. A oração é importante, te-
mos alguns momentos, como a transmissão da missa, a reza do terço. 
Mas temos programas jornalísticos, o programa Jornal dos Trabalhadores, feito por
uma equipe de profissionais de jornalismo, onde se procura transmitir os acontecimen-
tos a partir da ótica do trabalhador. Tem duração de uma hora e é feito, atualmente,
em parceira com a Central Única dos Trabalhadores \u2013 a CUT. 
Cada vez mais os católicos precisam marcar sua presença no mundo da comunicação. 
_ Qual o papel da igreja na comunicação nos dias atuais? Há inimigos a serem comba-
tidos hoje, a exemplo do que ocorria no trabalho da rádio nas décadas de 1960 e 1970
com a ditadura militar?
Hoje, os grandes inimigos são os inimigos da pessoa humana. A igreja tem como mis-
são defender a pessoa humana, a salvação da pessoa humana e fazer com que não vi-
va na exclusão. Existem grandes formas de exclusão que são inimigas da igreja, por
exemplo, a necessidade de educação de milhares e milhares de brasileiros analfabetos. 
Claro que em certos momentos a falta de liberdade era uma grande