Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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movimentos, que já sofriam menos repressão, e a
paralela diminuição dos efeitos da censura oficial sobre os jornais tradicionais tiraram
da imprensa alternativa boa parte do papel central que representava para as demandas
sociais. O sonho do Posição acabou em 1979.
Como legado, o Posição deixou exemplares de 65 edições publicadas, que servem de
fonte para conhecer a história capixaba. Além de se apresentar como uma experiência
jornalística que fortalece o interesse pela imprensa alternativa brasileira. O jornal, até
hoje, também continua estimulando seus protagonistas, como o jornalista Robson Mo-
reira, que teve o rumo de sua vida transformado depois daqueles anos.
Nascido no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Robson foi um dos participantes
mais ativos do Posição. Só não ficou nos últimos meses da publicação, quando o jornal es-
teve sob o controle de um pequeno grupo de militantes do Partido Comunista do Brasil.
Antes, participou do período em que a publicação foi produzida por jornalistas, e, poste-
riormente, de quando incorporou outros profissionais \u2013 como intelectuais e integrantes de
movimentos sociais, que chegaram ao conselho editorial, definindo pautas e enfoques.
Nessa entrevista, o diretor de programação da STV \u2013 Rede SescSenac de Televisão, fala
sobre as fases do Posição, e analisa o envolvimento de diferentes setores com a produção
do jornal. Desde a repercussão junto aos movimentos sociais que surgiam, como os sindi-
catos e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), até a distribuição \u201cde mão em mão\u201d.
_ Como você entrou no jornalismo e chegou até o Posição?
Minha vontade foi reforçada quando vi a revista Realidade, em que o José Hamilton
Ribeiro, correspondente na guerra do Vietnã, perdeu a perna numa mina. Sempre gos-
tei muito de ler e da língua portuguesa. Em Vitória, um dos primeiros lugares no qual
trabalhei foi uma financeira. Um dia apareceu por lá uma repórter de A Gazeta pedin-
do alguns dados sobre pessoas que estavam devendo. Puxei a gaveta e abri as fichas.
Tinha um monte de gente. No dia seguinte, o diretor me chamou com a gaveta na mão.
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A repórter botou o meu nome. Me demitiram por justa causa e fui fazer o que a moça
também estava fazendo. 
Fui à própria A Gazeta e comecei. Saí logo para A Tribuna, de onde acabei sendo de-
mitido também. Então cheguei ao Posição. Passei três anos só com ele. Quando abri-
ram o curso de Comunicação no estado, em 1975, entrei e me formei na primeira tur-
ma de jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Em A Gazeta, tive
o prazer de conhecer figuras como o Jô Amado, que tinha acabado de voltar do exílio.
O Jô me ensinou bastante. Depois, quando A Tribuna passou por uma reformulação,
fui com o Jô, o Sérgio Egito e outros.
_ Antes do jornalismo, você teve alguma ligação política?
Sempre fui um cara muito preocupado com as questões sociais. Não participei do gol-
pe de 1964, mas o meu pai era da polícia de Minas Gerais e foi convocado para o quar-
tel em Governador Valadares. A única informação que as tropas tinham era que os co-
munistas iam invadir o Brasil. Era um desespero, a cidade deserta, todo mundo de por-
ta fechada, e eu sem entender nada. Cresci acompanhando aquilo. 
Quando entrei na universidade, vimos as manifestações no Rio e a primeira coisa que
eu quis foi me aliar ao movimento estudantil. Dei sorte que, assim que entrei na facul-
dade, estava vencendo o mandato do diretório do Centro de Ciências Jurídicas e Eco-
nômicas da Ufes. Montamos uma chapa. Eu entrei como vice.
_ E como começou o Posição?
Quando a gente estava em A Tribuna, fizemos uma matéria sobre um despejo num lu-
gar chamado Cantinho do Sossego, no município da Serra (ES). O jornal bateu na ban-
ca e causou escândalo. O governador Élcio Álvares ligou para a direção e pediu a ca-
beça de todo mundo. 
Quando a gente saiu de A Tribuna, o Jô estava bastante adiantado com a idéia do Po-
sição. Já pensava em sócios para ajudar, para conseguir algumas cotas de dinheiro. Is-
so foi em outubro de 1976. Eu tinha 23 anos, o Jô tinha uns 35. O jornal seria para
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imprensa alternativa, difícil de ser feito, complicado na sua execução, um misto de cu-
riosidade e vontade. 
Eu e o Jô nos comprometemos a garantir que o jornal sairia toda quinzena e nos en-
tregamos ao Posição. Era complicado, tinha de mandar para Belo Horizonte, onde o
fotolito era feito, depois para a gráfica de um conhecido nosso em Juiz de Fora, onde
rodava e mandava para a rodoviária. 
Pegávamos o jornal e saíamos de madrugada distribuindo, vendendo nos botecos. Eu
levava para a universidade e ia com o Jô para os bairros. A proposta era encontrar um
jeito de incluir os movimentos sociais nos meios de comunicação, para eles serem os
personagens. Participávamos de tudo o quanto era reunião de comunidade, de comi-
tês, lavradores e todos nos respeitavam, porque contávamos as histórias deles. 
Com dois mil exemplares, colocávamos 500 na banca e distribuíamos 1.500 nas comu-
nidades, de mão em mão. Num outro momento, quando o jornal passou a ser rodado
em Vitória, fomos muitas vezes para a gráfica dobrar o jornal com caneta Bic para fi-
car mais barato. 
Então, uma turma passou a se aprofundar no jornal. O Robson, meu xará, o Carioca,
a Miriam, o Adílson... Depois teve a Ana Doimo e o Tadeu César, e a Tina, a ex-mu-
lher do Jô. Tinha alguns jornalistas de A Gazeta e de A Tribuna que eram mais ousa-
dos. O Tinoco dos Anjos era envolvido, além do Rogério Medeiros, o Luís Fabrini e o
Luzimar Nogueira.
_ Quais eram os movimentos sociais que participavam do jornal?
Não estávamos ligados a partidos ou organizações. Nós tínhamos uma realidade, em
função do início da abertura de uma ditadura muito feroz, e muita coisa não era dita.
Então, dizíamos isso com todas as letras, naquilo que se referia ao estado do Espírito
Santo. Depois, fizemos do movimento popular na periferia a grande matéria-prima pa-
ra o jornal. Nós não fazíamos para eles, mas falávamos dos problemas por meio do jor-
nal que, se eles se organizassem, podiam conquistar a vida de que estavam necessitando. 
E eles se animavam a conversar com outro e daqui a pouco, tinha grandes famílias en-
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volvidas. Era uma situação de abandono, de miséria absoluta, de falta de saneamento
básico, de falta de comida. Isso foi muito importante, mas, em 1978, quando já estava
praticamente consolidado o processo de abertura, a sensação que passamos a ter é que
a imprensa alternativa perdeu um pouco do que a motivava. Várias pessoas que esta-
vam voltadas para a imprensa alternativa começaram a migrar para partidos políticos,
a entender que tudo ia passar agora por uma fase de democracia, pelo voto, pelo po-
vo. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) começou a aparecer. O PC do B (Partido
Comunista do Brasil) começou já também a botar as garras de fora, e ficou uma mili-
tância mais político-partidária do que uma causa. 
_ Como era a censura? Não tinham que mostrar os originais para o Exército?
Tínhamos registro na censura, mas os caras só descobriam o que saía quando chega-
va na banca. Só levávamos ao Batalhão de Infantaria de Vila Velha no início do jor-
nal. Em 1978, a coisa já não estava tão brava. Fizemos uma edição, com a capa do 14
Bis que, quando bateu na banca, a polícia invadiu o Posição e recolheu todos os jor-
nais. A polícia acompanhava principalmente eu e o Jô, e passamos a falar bobagem,
cifrado. Mas nem