Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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às dis-
sensões havidas dentro da sociedade civil no encaminhamento e consolidação de práticas e
propostas.
Considerando o paradoxal fortalecimento e organização crescentes da sociedade civil no
Brasil, desde a década de 1970, é de se esperar que tenha também ocorrido um aumento
importante do número de atores (entidades sindicais, ONGs, instituições religiosas, asso-
ciações e outras) envolvidos em práticas democratizadoras e interessados em participar da
formulação e implementação das políticas públicas para as comunicações. 
A maioria dos registros históricos sobre a democratização da comunicação, no entanto,
desconsidera a discussão da década de 1970 sobre as políticas nacionais (democráticas) de
PREFÁCIO UMA INICIATIVA FUNDAMENTAL Venício A. de Lima
[sociólogo, mestre e doutor em comunicação e professor da UnB - Universidade de Brasília]
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comunicação, realizadas no âmbito acadêmico e também de entidades como a Abepec
(Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa da Comunicação, criada em 1972) e identificam
o início do movimento da sociedade civil apenas a partir da constituição da Frente Nacional
de Luta por Políticas Democráticas de Comunicação, que veio a ocorrer doze anos depois,
em 1984.
A coleção que o Intervozes agora publica, sob o sugestivo título de Vozes da Democracia,
mesmo sem esgotar o tema, representa um inédito passo no sentido do registro da história
das experiências práticas e das propostas da sociedade civil para a democratização da comu-
nicação no Brasil.
São 28 textos, pesquisados e escritos por 32 repórteres, que contemplam uma impressio-
nante diversidade, incluindo depoimentos, entrevistas e relatos de ações de resistência cole-
tados em todas as regiões do País e \u2013 mais importante \u2013 a grande maioria deles desconheci-
dos porque até hoje restritos ao espaço local de sua incidência histórica.
Aqui são encontrados, dentre outros, relatos que revelam as ações de democratização da
comunicação construídas, por exemplo, na igreja católica através da UCBC (União Cristã
Brasileira de Comunicação), do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), do Cemi (Centro
de Comunicação e Educação Popular), das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e da
Rádio 9 de Julho; no coletivo OBORÉ de São Paulo e nos Enecoms (Encontros Nacionais
dos Estudantes de Comunicação).
São descritas experiências como do Coojornal de Porto Alegre; e outras menos conheci-
das como do Grita Povo da Zona Leste da cidade de São Paulo; do grupo \u201cSalamandra-Boi\u201d
da Vila Penteado, também de São Paulo; do jornal Posição do Espírito Santo; da Rádio Papa
Goiaba do Rio de Janeiro; das experiências dos jornais Diário da Manhã e Top News de
Goiânia; do Fifó de Vitória da Conquista; do Jornal da Cidade de Aracaju; da Coojornat de
Natal; do Tesc (Teatro Experimental do SESC) de Manaus; do Porantim; do Resistência e
do Jornal Pessoal de Belém e do Varadouro de Rio Branco no Acre.
Toda a diversidade e riqueza desses depoimentos, entrevistas e relatos de ações de resistên-
cia mostram um lado quase oculto de nossa realidade histórica: atores anônimos enfrentan-
do os tempos sombrios da ditadura militar e contribuindo no longo e inacabado processo
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de redemocratização do país. Ao mesmo tempo, esses atores marcaram posição na disputa
em torno de políticas públicas democráticas de comunicação entre nós.
Esse esforço do Intervozes, que agora se transforma em livro, faz parte de um movimento
mais amplo e de importantes conseqüências. O principal paradigma conceitual que tem
orientado boa parte dos segmentos organizados da sociedade civil comprometidos com o
avanço na área de comunicação, não só no Brasil, tem sido a idéia-força da sua democrati-
zação. Essa é, certamente, uma bandeira consensual. Todavia, uma das falácias dessa cons-
trução discursiva é que ela indica a possibilidade de que a grande mídia hegemônica, priva-
da e comercial, seria passível de ser democratizada. Isso equivale a acreditar que os grandes
conglomerados de mídia abririam espaço para a pluralidade e a diversidade de vozes de nossa
sociedade. Recentemente Bernard Cassen considerou essa \u201ccrença\u201d uma ilusão fundamental,
não só da esquerda, mas, sobretudo, daqueles que trabalham na perspectiva de que \u201cum
outro mundo é possível\u201d.
Pois bem. As construções discursivas não surgem independentemente das circunstâncias
históricas nas quais elas são geradas. E é por isso que a tentativa de \u201cre-enquadrar\u201d a luta
pela democratização na perspectiva de que o direito à comunicação é um direito humano
fundamental e se expressa, sobretudo, através da criação de um sistema público de comu-
nicação igualmente independente do Estado e da iniciativa privada, pode mudar os rumos
de como essa luta tem sido conduzida até agora.
É isso que o coletivo Intervozes está tentando fazer. A proposta conceitual de um direito
à comunicação não é coisa nova. O novo é a retomada do conceito, apoiada numa articu-
lação internacional, como foco principal da organização de movimentos e de propostas de
ação e, além disso, vinculada à discussão concreta de um sistema público de comunicação.
É verdade que os obstáculos para sua articulação são inúmeros. Em primeiro lugar, o
direito à comunicação não logrou ainda o status de direito positivado. Isso ainda não acon-
teceu nem mesmo em nível dos organismos multilaterais que têm a capacidade de provocar
o reconhecimento internacional do conceito. Isso faz com que, simultaneamente à articu-
lação política de ações específicas, se desenvolva também a luta pelo reconhecimento for-
mal do direito. Em segundo lugar, há históricas e poderosas resistências ao conceito, exata-
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mente pelo poder que ele teria de abarcar, sob suas asas, um imenso leque de reivindicações
e bandeiras em relação à democratização da comunicação. O coletivo Intervozes está cons-
ciente dessas \u2013 e de outras \u2013 dificuldades, mas está disposto a ir em frente.
Nesses tempos em que assistimos a um esforço deliberado \u2013 e aparentemente bem suce-
dido \u2013 de reconstrução da memória nacional através da ótica parcial de grupos de mídia
dominantes, a iniciativa do Intervozes adquire uma relevância fundamental, ao mesmo
tempo em que consolida esse grupo de jovens comunicadores como ator imprescindível no
cenário contemporâneo da luta permanente pela democracia das comunicações no Brasil.
Brasília, maio de 2005.
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FILHOS DE 
UM PAÍS EM 
CONSTRUÇÃO
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Não existe democracia sem comunicação democrática. Foi com base nessa reflexão
que, no final de 2002, começamos a elaborar o que viria a ser este livro. Buscávamos
entender o papel da comunicação no processo de redemocratização do Brasil. Para essa
tarefa, reunimos 32 repórteres, que levantaram histórias e personagens em diferentes
cantos do Brasil. Um trabalho que poderia ser definido como árduo não tivesse sido
tão divertido e gratificante. Nessa longa jornada em busca da história recente do País,
aprendemos muito. E é o fruto desse aprendizado que agora dividimos com os leitores. 
Desde o princípio, o que nos moveu a olhar o passado foi a vontade de entender o
Brasil na perspectiva de transformá-lo. Do resultado desse mergulho, acreditávamos, tra-
ríamos material suficiente para poder compartilhar com nossos leitores descobertas
capazes de apontar caminhos. Foi o que ocorreu. E o resultado, na nossa avaliação,
mais do que o recorte de um momento das comunicações