Vozes da Democracia
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novos bairros;
o Movimento Popular da Saúde \u2013 o MOPS; outros movimentos pastorais, a partir da
Igreja do Rosário, atuantes principalmente em bairros pobres da periferia cuiabana, in-
centivando a organização de jovens, mulheres e mães\u201d, registra. 
Ao mesmo tempo, no meio rural mato-grossense, a partir de meados dos anos 80, o
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) regional passou a desempe-
nhar um papel marcante. De acordo com Galetti, \u201ca caminhada dos trabalhadores
sem-terra de Jaciara a Cuiabá (mais de 100 quilômetros), com acampamento final no
pátio da Igreja do Rosário, no centro da capital, foi um evento de repercussão muito
forte para toda a sociedade mato-grossense\u201d. Ele conta que o acampamento possuía
dezenas de barracas cobertas de plástico preto, ao lado da Igreja do Rosário de São Be-
nedito. Um cenário que, ao mesmo tempo, afligia e tocava o fundo da alma de muitos
passantes. O cientista político recorda-se que vários professores, estudantes e técnicos
da UFMT, da rede pública estadual, militantes do PT e da CUT e dos movimentos sin-
dicais, populares e comunitários da grande Cuiabá \u201cparticiparam ativamente deste no-
tável processo sócio-político\u201d. Ao final da mobilização, o movimento obteve uma vitó-
ria parcial, na medida em que os acampados conseguiram um assentamento na região
Norte do estado. \u201cNo entanto, a simples posse da terra, pelo menos para um certo con-
tingente destes trabalhadores, não era a solução para o problema\u201d, explica Galetti.
Outros momentos da luta dos trabalhadores no meio rural durante a década de 1980
e início dos anos 90 marcaram o estado do Mato Grosso. Entre eles, a mobilização dos
sem-terra e parceleiros da Gleba Coqueiral, no município de Nobres, no Norte do esta-
do. A luta foi liderada inicialmente por um grupo de mulheres sem-terra. Galetti con-
ta que na cidade antigos posseiros, moradores centenários da Fazenda São José do
Quebó, foram violentamente despejados de suas terras, sob a mira de armamento pe-
sado de jagunços e militares a mando de um fazendeiro. \u201cEstes trabalhadores também
conseguiram um avanço notável: formaram uma associação de parceleiros e lutaram
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por suas reivindicações, tendo alcançado parte delas, dentre as quais o assentamento na
própria gleba. Parece-me, no entanto, que a mudança mais notável a destacar em vários
destes lutadores ocorreu em termos da nova visão de mundo que adquiriram. Em palavras
bem simples: muitos deles compreenderam a importância de construir sua própria organi-
zação, independente e autônoma do Estado e de partidos políticos e religiões\u201d, avalia. 
Além de Nobres, outros munícipios no Mato Grosso, como Rondonópolis, Cáceres,
Várzea Grande e Poconé também tiveram lutas interessantes dentro deste processo. Em
Poconé, município na \u201cboca\u201d da região pantaneira, no começo dos anos 90, os garim-
peiros que trabalhavam atolados no barro, começaram a se organizar, formando a As-
sociação dos Filãozeiros. 
Nas mobilizações por lutas específicas que acabavam por refletir o processo de rede-
mocratização, surgiam, em Goiás, associações de moradores e movimentos por mora-
dias (leia \u201cLições de um jornalismo debochado\u201d, à página 166). O político Pedro Wil-
son cita as entidades representativas como o Conselho Consultivo de Associações de
Bairros (CCAB) e a Federação dos Posseiros de Goiás. 
O amálgama dos movimentos pela democracia no Centro-Oeste reuniu artistas, in-
telectuais, exilados, trabalhadores em educação, estudantes, sindicalistas, religiosos, se-
tores empresariais mais progressistas e a mídia alternativa. Como no restante do Bra-
sil, as mobilizações terminariam por desaguar na campanha pelas Diretas Já.
ALTERNATIVA JÁ!
O professor Luiz Carlos Galetti, da UFMT, lembra que a redemocratização no Cen-
tro-Oeste teve momentos que não se alinharam imediatamente com a cronologia dos
movimentos nacionais, dentre outras razões pela divisão das forças políticas regionais
em 1979, data da primeira eleição \u201cseparada\u201d para Mato Grosso e Mato Grosso do
Sul. \u201cComo a divisão do antigo \u2018MT\u2019 foi obra de gabinete e não resultou de pressões
sociais de baixo para cima, ela implicou em uma desarticulação das constelações de lí-
deres locais e regionais, abrindo caminho para novas lideranças\u201d. O processo a que Ga-
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letti se refere foi presenciado nos dois lados do antigo estado e fez com que as antigas
elites perdessem referências anteriores das articulações regionais, levando aos \u201crachas\u201d
nos grupos das elites tradicionais. Segundo ele, grupos da sociedade e organizações dos
mais variados matizes passaram a ocupar o vácuo político deixado pelas lideranças ain-
da oriundas do período pré-1964, como o caso de Felinto Müller, cujo passamento em
1973 possibilitou até a divisão do estado, para exclusiva conveniência do planejamen-
to da transição tramada por Golbery e Geisel. Neste contexto, no início da década de
1980, ganhou relevo na região a campanha eleitoral de 1982, que restabeleceu as elei-
ções diretas para governadores. 
E foi justamente um deputado do Mato Grosso, Dante de Oliveira, do PMDB (Par-
tido do Movimento Democrático Brasileiro) o responsável por apresentar no Congres-
so Nacional a emenda que previa o restabelecimento das eleições diretas. Precisamen-
te, no dia 2 de março de 1983, dando início concreto à mobilização pelas Diretas Já. 
No mês seguinte, quando Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Aloisio Lorscheiter (an-
tigo presidente da CNBB) já haviam se pronunciado em defesa das eleições diretas, o
PMDB inicia diálogo com outras forças políticas para a adesão à campanha. O PT, for-
jado na união de sindicalistas, Comunidades Eclesiais de Base, lideranças sociais, estu-
dantes e trabalhadores rurais, adere ao movimento.
Em junho de 1983, a direção nacional do PMDB realiza em Goiânia, com a partici-
pação de cinco mil pessoas, o lançamento oficial da campanha das Diretas Já. Entida-
des como Ordem dos Advogados do Brasil, União Nacional dos Estudantes, e CNBB
são procuradas pelo sindicalista Lula e pelo senador peemedebista Teotônio Vilela pa-
ra aderir à campanha. As mobilizações ganham corpo ao longo do ano em diversas re-
giões brasileiras e na capital federal. A população já sai às ruas para integrar atos de
apoio à \u201cemenda Dante Oliveira\u201d. No Centro-Oeste, 20 mil se reúnem em comício de
Anápolis (GO). Mais do que o dobro comparece a ato na capital do Mato Grosso do
Sul, Campo Grande. Em abril, Goiânia reúne mais de 200 mil pessoas pelas Diretas.
Entre eles, Franco Montoro (governador de São Paulo), Ulysses Guimarães (presidente
do partido e deputado federal por São Paulo), Jáder Barbalho (governador do Pará),
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Íris Rezende (governador de Goiás) e Tancredo Neves (governador de Minas Gerais).
Já em Cuiabá, o número de manifestantes pode ter envolvido mais de 40 mil.
\u201cDesde um ponto de vista mais incisivo e objetivo, o movimento Diretas Já foi sem
dúvida o processo político mais forte e decisivo para a queda da ditadura militar\u201d, ava-
lia o professor Luiz Carlos Galetti. Ele registra a realização de dois grandes comícios
em Cuiabá, em 1984, que reuniram milhares de pessoas no centro da cidade. O primei-
ro, na avenida Getúlio Vargas, altura da Praça Alencastro. E o segundo na Praça Ra-
chid Jaudi. \u201cNeste último, pode-se dizer que ocorreu a maior concentração política da
história de Mato Grosso\u201d. Galetti recorda-se que as pessoas ocuparam toda a praça e
\u201cespalhavam-se também pelos espaços laterais, tomando as ruas Barão de Melgaço,
Isaac Povoas e adjacências, formando