Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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tão na verdade o cara era um cidadão exemplar. Foi assim que surgiu a campanha do
jornal para a construção de banheiros públicos. Chegou uma hora na discussão que ti-
vemos que interromper, porque senão ficaríamos ali três dias. Eu propus deixar para
publicar no domingo, ao lado de uma matéria contando o que aconteceu, a discussão
que fizemos e abri para que outros fizessem o mesmo. Dez jornalistas resolveram es-
crever sobre o assunto e isso tomou duas páginas do jornal. E para mim esse é um dos
momentos mais bonitos do jornal. Aquelas duas páginas que discutiam a nossa profis-
são. Depois de publicado, o debate recomeçou na sessão de cartas\u201d. 
Esse tipo de postura era constante no Diário da Manhã, e foram várias as grandes
coberturas que surgiram aparentemente do nada nos 19 meses em que o jornal brilhou.
\u201cE quando havia tentativa de desviar o jornal desse caminho, denunciávamos imedia-
tamente. Publicávamos. Por exemplo: esteve aqui ontem o senhor tal que não queria
que nós publicássemos tal assunto\u201d, relembra Novaes. 
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Diário da Manhã, 1983: jornalismo transformador 
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TESÃO DE FAZER JORNALISMO
A experiência do Diário da Manhã durou pouco. Um ano e sete meses. Mas foi ines-
quecível. Entre os fatores que contribuíram para a saída de Novaes \u2013 e que culminariam
com o fechamento do jornal dois anos depois \u2013 o cerco político realizado pelo governa-
dor Íris Rezende, que proibiu o Estado de anunciar no jornal, e as disputas de poder
internas, envolvendo o proprietário Batista Custódio, foram determinantes. \u201cO que foi
uma pena, porque era um jornal que dava um tesão de fazer\u201d, desabafa Novaes. 
\u201cNunca mais eu quis dirigir nenhum jornal. Não vou conseguir chegar a um jor-
nal com essa independência. Fora a qualidade. Os articulistas que o jornal tinha. O
Jânio de Freitas, por exemplo, que estava longe há muito tempo, voltou para a co-
municação para fazer uma coluna no jornal sobre o Rio de Janeiro. O Newton Car-
los fazia uma coluna internacional. O Cláudio Abramo escrevia às vezes. O Carlos
Drummond de Andrade, o Fernando Sabino e o Millôr Fernandes escreviam no ca-
derno de cultura\u201d, lembra. 
Atualmente, Novaes segue como uma das grandes referências do jornalismo brasilei-
ro, mantém colunas em jornais de grande circulação e programas sobre meio ambien-
te em TVs Públicas. E o Diário da Manhã permanece em sua vida, não apenas como
lembrança, mas como um sonho que se fez real. 
\u201cTínhamos alguns conflitos com o pessoal dentro da redação. Tínhamos conflito
com o pessoal do Partido dos Trabalhadores (PT). Porque o pessoal do PT queria fa-
zer um jornal partidário. E a gente dizia não. O jornal era aberto a tudo. O jornal não
pode ser partidário. E isso levou a algumas dificuldades. Mas chegou a um momento
em que houve essa soma de crises e resultou então num impasse porque a mulher do
Batista Custódio, a Consuelo Nasser, exigia que se demitisse metade da redação. Eu
cheguei a negociar com a redação para abrir mão de um aumento salarial em troca de
não demitir ninguém, mas com um compromisso assinado no sindicato. Mas isso não
adiantou. O Batista fechou questão e eu disse que saía. Saíamos todos. Fiquei um ano
e sete meses no Diário da Manhã\u201d. 
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E o que havia começado com um artigo, terminou com outro. Este que republicamos
no livro, como homenagem a Novaes e ao jornal que ele fez. E para que os leitores sai-
bam que podem comandar um veículo de comunicação e que a imprensa pode ser mui-
to melhor justamente por isso. 
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Neste sábado de Natal, deixo de ser editor geral do Diário de Manhã. Uma espécie
de presente às avessas, neste Brasil abastardo e humilhado.
Sempre disse à redação que, quando chegasse esse dia, gostaria de sair metade do
meu rosto triste, por esgotar-se uma história fascinante, na qual me atirei de corpo e
alma, 24 horas ao dia (nesses 19 meses de Goiás, só vivi, respirei, sonhei Diário da Ma-
nhã, sem tempo para mais nada, nem para fazer amigos fora do jornal).
Mas com a outra metade tranqüila, pela certeza de haver feito tudo que era possível
para ajudar a crescer esse extraordinário projeto de construir um jornal só comprome-
tido com os fatos, com o leitor e com a comunidade.
Nenhum caminho leva a lugar algum, dizia uma personagem de livros que andou em
voga em passado recente. A diferença única é que alguns caminhos têm coração, ou-
tros não têm. O caminho do Diário da Manhã, para mim, foi todo coração, como di-
ria o poeta Maiakovski.
Agora, por circunstâncias, as duas trajetórias se separam, a minha e a do jornal
(embora, à convite de Batista Custódio, continue aqui com meus artigos). O Diário
da Manhã, cercado por forças terríveis, terá de reajustar sua estratégia, repensar seus
meios, reorientar seus caminhos. Vamos nos separar, por isso. Sem rusgas. Sem bri-
gas. Sem mágoas.
Nada disso cabe. Não me arrependo um segundo de ter vindo, de ter feito tudo que
fiz. Faria de novo.
O Diário da Manhã foi um reencontro comigo mesmo, com os valores mais fundos
e mais antigos, herdados de meu pai, minha mãe, meus avós, e temperados ao longo de
uma vida pessoal acidentada.
Foi, ao mesmo tempo, como que uma retomada da cidadania plena, com a possibi-
lidade de discutir os problemas do país, do Estado, da cidade, sem nenhuma restrição,
sem nenhum compromisso com interesses de grupos ou ideologias.
ARTIGO O DIREITO DE NÃO MENTIR Washington Novaes
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Foi um exercício de democracia e de convívio ver o crescimento e a consolidação de
um conselho editorial onde todos \u2013 editores, repórteres, redatores e diretores \u2013 têm
igual voz e voto e onde as decisões são tomadas por maioria e respeitadas por todos,
inclusive os vencidos.
Foi um jogo de esperança ver o jornal comprometer-se com tantas causas, principal-
mente as causas dos desvalidos. Ver o jornal liderar a luta em defesa dos invasores da
fazenda Caverinha, transformados em moradores da Vila Fim Social. Foi emocionante
assistir a mudança daquelas 4.500 famílias que pela primeira vez conseguiam um chão
para erguer seu teto.
Foi reconfortante, ver um jornal resistir a todas as pressões que queriam engajá-lo na
campanha eleitoral, vê-lo abrir espaço para todas as tendências representadas na soci-
edade. Foi empolgante vê-lo expor suas vísceras para contar ao público como algumas
pessoas ligadas ao PDS, conluiadas com inescrupulosos, tentaram fraudar o resultado
de uma pesquisa eleitoral para favorecer o candidato do partido governista na eleição
de 1982 em Goiás. Foi glorioso ver o jornal correr o risco de desmoralizar-se negando
crédito à pesquisa que ele mesmo encomendara \u2013 mas recusando-se a pactuar com a
falcatrua de pessoas que hoje até arrotam grandezas e virtudes.
Alegrou a alma presenciar a luta do jornal para tentar evitar demissões no funciona-
lismo goiano, sendo coerente com a pregação que vinha fazendo, sobre a necessidade
da prevalência ao social no Brasil, neste momento. Uma coerência que o levou a lutar
desesperadamente durante dez meses contra a necessidade de cortes, em seus próprios
quadros, apesar do agravamento da crise. 
Retemperou a fé na possibilidade de um jornalismo independente ver o Diário da
Manhã colocar em discussão \u2013 para que a comunidade possa se posicionar a respeito
\u2013 temas como o projeto GICA e o projeto dos chineses de Formosa para Goiás, os