Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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gócios especiais da CFT, o escândalo da manipulação das cotações de alimentos nos úl-
timos meses. 
Foi extraordinário assistir a essa iniciativa inédita, única no País, que é a criação de
um Conselho de Leitores, para que a comunidade possa dizer o que quer e espera de
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um jornal. Como foi extraordinário ver esse mesmo Conselho debater as relações da
imprensa com o poder público e até as demissões no próprio Diário da Manhã. 
Valeu uma vida profissional ver a corporação jornalística de Goiás mergulhar na dis-
cussão sobre o papel dos jornais e dos jornalistas, dos sindicatos de jornalistas. Ver, afi-
nal, a ética da imprensa ser discutida de público, ainda com as feridas sangrando, mas
sabendo que desse debate depende o procedimento de abertura política do País. 
Chegou o momento, porém, que o Diário da Manhã não teria mais como fugir ao
cerco que lhe foi imposto exatamente por ser independente, livre, isento, comprometi-
do com o fato e o leitor. O jornal terá de reciclar-se, redefinir-se, reprojetar-se. Terá de
levar uma vida mais que espartana para sobreviver sem concessões que o maculem.
Chegou, então, o momento da separação.
Mas é preciso dizer ainda, uma vez, nesta hora, que a crise do Diário da Manhã, o
seu calvário, é a sua glória. Ele sofre porque não dobra a espinha. 
Sofre porque os poderes todos ainda não se convenceram de que o Brasil só sairá da
crise se houver uma grande discussão nacional sobre tudo, colocando tudo em questão
\u2013 e com o povo participando. Mas o povo só participará se houver meios de comuni-
cação que o ouçam, e abram espaço, e dêem voz. E os poderosos estaduais, ou federa-
is, ainda não querem ouvir o povo, abrir-se à crítica e ao debate. Preferem compor-se
com os inimigos de ontem e fazer um arremedo de participação. 
Sofre porque os empresários ainda não descobriram que, se não existirem jornais in-
dependentes, eles continuarão a ser vítimas inermes do autoritarismo burocrático, que
distribui favores e concentra renda. E cada um desses empresários esperará calado que
chegue a vez de naufragar.
Sofre porque cada um de nós ainda não entendeu completamente o quanto carrega
em si mesmo de autoritarismo \u2013 e só o vê no próximo e nos que detêm o poder. 
Mas o Diário da Manhã vai continuar. Porque ele já não é mais um projeto apenas
do Batista Custódio e da Consuelo Nasser. É de cada um dos jornalistas que aqui es-
tão. É dos leitores. É da comunidade. 
Talvez nos encontremos de novo noutra volta de caminho. Ou não. 
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Seja como for, se a vida continuar generosa como é, um dia terei netos e poderei con-
tar-lhes que, uma vez, trabalhei num extraordinário jornal, que não tinha medo de na-
da. Um jornal em que era possível exercitar a conquista maior de uma vida: o direito
de não mentir. 
E talvez meus netos comecem a brincar de jornal.
Goiânia, dezembro de 1983 
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[história] Diário da Manhã
[onde e quando] Goiânia, 1982 e 1983
[quem conta] Washington Novaes
[entrevista realizadas] janeiro de 2004
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[Arquivo pessoal]
Cláudio Abramo, Washington Novaes e Marco Antônio Coelho
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LIÇÕES DE 
UM JORNALISMO
DEBOCHADO
MARIANE RODOVALHO é jornalista, trabalha na TV Gênesis em Brasília e é integrante
do Intervozes
[COLABORARAM]
EDUARDO HORÁCIO JR é jornalista e editor de política do jornal Tribuna do Planalto, 
em Goiânia
FAGNER RIBEIRO é estudante de jornalismo, em Goiânia
PATRÍCIA BRINGEL é jornalista e repórter TV Anhanguera, de Goiânia
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\u201cSó não mexam com Dona Cotinha\u201d. No derradeiro governo militar de Goiás, essa
lei informal corria pela boca da imprensa alternativa. Explica-se: de acordo com jorna-
listas que trabalharam em veículos da região, Ari Valadão, último governador indica-
do pela ditadura, distribuía as verbas de publicidade inclusive para jornais totalmente
contrários à ditadura ou ao seu governo \u2013 contanto que Maria Valadão, a primeira da-
ma do estado na época, conhecida como Dona Cotinha, ficasse fora das notícias e dos
editoriais. Nessa conjuntura, de abertura lenta, gradual e dolorosa, o jornal Top
News desenvolveu seu jornalismo \u201cengajado e debochado, crítico e feroz\u201d, como de-
fine Nilton José, jornalista que trabalhou na redação do semanário, e hoje professor
da Universidade Federal de Goiás (UFG).
No final da década de 1970, principalmente durante o governo de Valadão, Goiás
passou a contar com importantes iniciativas na comunicação alternativa. A capital do
estado vivia um momento de lutas políticas e sociais, com o Movimento dos Posseiros
Urbanos de Goiânia \u2013 ação de destaque nacional com grandes ocupações de terra ur-
banas. No norte do estado (hoje Tocantins), também havia o conflito entre os sem-ter-
ra e os latifundiários.
A imprensa dividia-se basicamente entre progressistas e conservadores. Na tentati-
va de uma cobertura mais completa, crítica e plural, o pequeno Top News e os jornais
Diário da Manhã e Opção registraram muitas dessas manifestações populares, tudo
apurado e pesquisado por pequenas equipes de jornalistas (ver \u201cDiário da Manhã: o
leitor no comando do jornal\u201d, à página 150). Na contramão dessa visão, os jornais O
Popular e Folha de Goyas refletiam, na maior parte do tempo, de maneira conserva-
dora, a posição das aristocracias rural e urbana em suas páginas, contemplando a vi-
são dos grandes proprietários e da elite.
Top News, durante sua fase mais combativa, contava também com publicidade ofi-
cial do governo Ari Valadão, conforme contam jornalistas que trabalhavam em sua re-
dação na época. A idéia original do semanário, criado em 1973, era firmar-se como um
jornal de serviços. Assumido por jornalistas da revista Planeta, o Top News passa pa-
ra uma nova fase e adqüire vertente de caráter místico. Apenas a partir de 1980, quan-
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do o jornalista Joãomar Carvalho assume a edição do jornal, o Top News se transfor-
ma em um semanário de crítica política de Goiás.
A crítica debochada surge aos poucos, conforme seus jornalistas vão percebendo que
assim sua mensagem chegava com mais força, e mais longe. O jornal inovou ao abrir
espaço para movimentos populares e setores emergentes da política de esquerda publi-
carem suas opiniões, sem cortes. E, assim, tornou-se referência. O Top News também
ironizava os veículos tradicionais e autoritários, ao mesmo tempo que aceitava e fazia
sua própria autocrítica, tudo com muita clareza e abertura.
O estrangulamento das experiências progressistas teve início durante o mandato de
Íris Rezende, primeiro governador eleito no pós-ditadura, em 1983. Ao chegar ao
poder, Íris realizou uma faxina na distribuição publicitária, o que asfixiou os pequenos
veículos com os contratos de prestação de serviços. \u201cNão se trata de figura de lingua-
gem. Os meios de comunicação recebiam, de acordo com seu tamanho e prestígio, co-
tas mensais do Estado, a título de remuneração pelos serviços prestados \u2013 a divulgação
de atos da administração pública. Vale dizer que os preços cobrados do Estado são in-
finitamente maiores que os pagos pelos anunciantes da iniciativa privada. A análise que
fiz \u2013 e que os fatos comprovam \u2013 é que, para não desagradar ou perder importante cli-
ente, a mídia começa a fazer vista grossa para os problemas políticos como falta de
água tratada e