Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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Ari Valadão defendia a modernização do campo feita na visão dos bancos.
Nessa época, estavam chegando as grandes levas de pessoas de outros estados em Goiâ-
nia, levando aos grandes conflitos urbanos. Não é por acaso que os conflitos pela posse
da terra começam sobretudo com o Ari Valadão. Porque essas pessoas não tinham onde
morar, o Estado não tinha políticas de moradia, então o Movimento dos Posseiros Urba-
nos de Goiânia fazia embates e os jornais cobriram isso muito bem. O Opção cobriu mui-
to bem, e o Diário da Manhã também. 
O Diário fez uma matéria sobre a chamada \u201cOperação Band\u201d, dos Bandeirantes, que
localizou os mortos pela ditadura aqui enterrados. Acharam corpos aqui no Sudoeste
de Goiás, em Jataí.
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_ O que ficou de lição do Top News para o jornalismo e para vocês?
Foi pra gente uma grande escola. A gente era muito jovem. Cometemos talvez muitos
erros, jornalista jovem é muito arrogante, a gente custa a aprender a ter humildade, cus-
ta a compreender que tem uma responsabilidade social e o Top News nos ensinou isso. 
O Top News levou um banho em algumas coisas que nós sabíamos, que conhecíamos.
Nós demos uma contribuição, apesar de muita gente não gostar do Top News, porque
ele mexeu com muitos interesses, agindo de forma debochada. 
O jornalismo tem uma função social muito importante. Mas cumprir isso em que espaço?
Na construção da democracia cultural informativa, que desemboca na democracia políti-
ca e econômica? Em que meios? E em que espaços? Eu acho que o movimento social está
mais uma vez sinalizando qual é o espaço, na comunicação popular, no cyber espaço, por
meio da internet. 
O Top News, a cooperativa e a Rádio Universitária [ligada à Universidade Federal de
Goiás] foram nossas grandes escolas de democracia, apontando nossos limites, desco-
brindo possibilidades. E têm sido o campo de realização disso até hoje. 
[história] Jornal Top News
[onde e quando] Goiânia (GO), de 1973 a 1988
[quem conta] Joãomar Carvalho e Nilton José
dos Reis Rocha
[entrevistas realizadas] Outubro de 2003 a
Abril de 2004
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Durante a ditadura, Goiás padeceu com o modelo econômico, social e político im-
posto pelos militares ao País. Com uma economia que girava em torno da produção
rural, com o poder concentrado nas mãos de poucas famílias latifundiárias, o impulso
desenvolvimentista gerava a destruição do Cerrado. 
Leonino Caiado, de tradicional família de latifundiários goianos, foi o governador in-
dicado pelo governo militar no final dos anos 60 e início dos 70. Dentre as principais ban-
deiras de Caiado, estava a luta contra a reforma agrária. As prioridades do governador
eram apoiadas, segundo nos conta o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG)
Nilton José dos Reis Rocha, por Manuel dos Reis, prefeito de Goiânia em 1974 e pro-
fessor da Faculdade de Medicina da UFG. 
Para se colocar contra a reforma agrária, Manuel dos Reis articulou os sindicatos ru-
rais, ligados à família Caiado, junto com a família Ludovico, também expressiva força
política no Estado. 
Durante a década de 1970, Goiás foi palco de uma busca pelo desenvolvimento, coman-
dada pelo secretário da Indústria e Comércio goiano, Azeredo Coutinho, que promoveu o
slogan \u201ctraga sua poluição para Goiás\u201d, na tentativa de trazer grandes empresas. 
Segundo Nilton José, as políticas do governo estadual geraram outras várias irres-
ponsabilidades ambientais, simbolizadas pelo projeto do pólo-industrial de Leonino
Caiado. Com dinheiro emprestado de outros países, o então governador incorporou o
Cerrado à fronteira agrícola do estado, dando início à ocupação desordenada do bio-
ma, principalmente nas regiões Norte e Sudeste de Goiás. 
Nesse período, a terra era vista como moeda em Goiás, como investimento financeiro
prioritário, o que gerou outra forma de violência, mas dessa vez contra os chamados
posseiros, urbanos e rurais. 
A violência na disputa pela terra em Goiás foi tamanha, que levou a coberturas jor-
nalísticas que renderam prêmios para profissionais goianos, como o repórter Armando
\u201cTRAGA SUA POLUIÇÃO PARA GOIÁS\u201d
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Araújo, do jornal O Popular. Araújo venceu o prêmio Vladimir Herzog, o mais impor-
tante do Brasil na área de direitos humanos, por retratar a violência no Bico do Papa-
gaio, região localizada na divisa dos estados de Tocantins (antigo Norte de Goiás), Sul
do Pará e Maranhão, que resultou na morte do padre Josimo.
Os conflitos centrados no Bico do Papagaio também chamaram a atenção do jorna-
lista Ricardo Kotscho, que escreveu um livro sobre o assunto, Massacre de posseiros,
de 1981, falando sobre a violência das Forças Armadas brasileiras contra os sem-terra
na região.
[história] Poluição em Goiás
[onde e quando] Goiânia (GO), anos 60 e 70
[quem conta] Nilton José dos Reis Rocha
[entrevistas realizadas] Abril de 2004
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A FARSA DE 
O ESTADO DE 
S. PAULO CONTRA
OS ÍNDIOS DO
BRASIL
CRISTIANO NAVARRO é jornalista, editor do jornal Porantim e integrante do Intervozes
ANDRÉ DEAK é jornalista, editor da Agência Brasil e integrante do Intervozes
[COLABOROU]
FABIANA VEZALLI é jornalista, editora da Agência Brasil e integrante do Intervozes
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Na madrugada de um domingo, caminhões carregados de mentiras saíram da aveni-
da Engenheiro Caetano Álvares, sede do jornal O Estado de S. Paulo, em direção às
mais importantes bancas de jornal do País. Naquele 1987, ano em que a Constituição
brasileira começava a tomar forma definitiva, kombis brancas entregaram histórias fal-
sas, disfarçadas de verdade, nas casas de seus assinantes, muitos deles advogados, de-
putados, senadores e tantas outras figuras decisivas para a democracia que se preten-
dia construir. Naquele 9 de agosto começava uma campanha de difamação inesperada
contra o Conselho Indigenista Missionário, Cimi, órgão ligado à Conferência Nacio-
nal dos Bispos do Brasil, CNBB. A primeira página dos jornais saiu às ruas com a se-
guinte manchete: \u201cA conspiração contra o Brasil\u201d.
A matéria de O Estado de S. Paulo fazia parte da série \u201cOs índios na nova Consti-
tuição\u201d, que foi publicada diariamente, durante uma semana. Na capa de domingo,
abaixo de uma enorme foto de índios em canoas, a legenda: \u201cA pretexto de salvar os
índios, a trama para o Brasil aceitar a soberania restrita\u201d. Nos textos não-assinados, o
jornal denunciava os supostos planos secretos do Cimi para tirar o controle brasileiro
das terras indígenas, beneficiando mineradoras internacionais.
O então coordenador regional do Cimi em Manaus, Francisco Loebens, lembra a
surpresa daquele domingo: \u201cRecebi a notícia através do secretário nacional, Antonio
Brandt, ligando preocupado diante da invenção daquela manchete. Ele dizia para a
gente manter a calma e não entrar naquele momento com respostas apressadas. Era
preciso compreender o que acontecia, para então articular respostas substanciais\u201d.
Não houve tempo para isso. No dia seguinte, 10 de agosto, a campanha só estava co-
meçando: \u201cNem só de índios vive o Cimi\u201d, dizia a manchete.
\u201cO Cimi e seus \u2018irmãos do estanho\u2019\u201d era a capa da edição do dia 11. Segundo o
Estadão, entidade teria interesse