Vozes da Democracia
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Júlio de Mesqui-
ta Neto. \u201cQuando inquiridos sobre como chegaram a isso, responderam que \u2018todas as
nossas conclusões foram atingidas por dedução lógica\u2019\u201d, destaca. 
\u201cO Cimi, na época, conseguiu o direito de resposta\u201d, rememora Loebens. \u201cE o jor-
nal não se dispôs nem sequer a dar o mesmo destaque. Quer dizer, veicularam em cor-
po oito, em um único dia, com uma pequena chamada de capa para uma página inter-
na, tudo para desinteressar as pessoas a lerem a resposta. Usaram um expediente bai-
xo, para não contemplar o direito de resposta integral que o Cimi tinha\u201d.
RESGATE
Para resgatar esse episódio, três integrantes do Cimi, diretamente envolvidos no caso,
foram entrevistados. Um deles, o advogado Paulo Guimarães, ainda hoje assessor jurídico
do Cimi e um dos primeiros a receber a notícia; Dom Luciano Mendes de Almeida, presi-
dente da CNBB na época, que depôs contra o jornal na CPMI, levantando provas contun-
dentes contra as reportagens; e Francisco Loebens, então coordenador regional do Cimi
em Manaus e cujo nome foi citado em um dos documentos falsos, contam o episódio. 
Foram feitas diversas tentativas para se encontrar os jornalistas responsáveis pelas ma-
térias publicadas pelo Estadão na ocasião, mas nenhum repórter ou editor contatado lem-
brou-se da série de reportagens. A diretoria do jornal também não respondeu às questões
enviadas a O Estado de S. Paulo. O relato, infelizmente, não conta com \u201co outro lado\u201d.
_ Por que o Estadão iniciou essa campanha? Que motivos teria?
Dom Luciano | É difícil afirmar o porquê, mas dizia-se, na época, que [O Estado de
S. Paulo e a mineradora Paranapanema] tinham interesses comuns. Não nos cabia
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chegar ao motivo, mas criticar a deturpação dos fatos. O leitor comum não teria co-
mo chegar a conhecer os fatos reais. 
De qualquer forma, mesmo sem intenção declarada, as razões poderiam ser três, jun-
tas. Primeiro, econômica, pois levantava-se a seguinte questão: \u2018por que não se pode en-
trar na mineração em terras indígenas?\u2019. Depois, razões de segurança, pois também se
dizia que o País poderia perder a unidade nacional, dando independência aos territórios
indígenas. Os conceitos de nações, de povos, arrepiavam os militares daquela época.
\u2018Não são todos brasileiros?\u2019, perguntavam. Quem usava esse conceito era contra \u2018a in-
tegração nacional\u2019. Dizia-se que se não houvesse uma política indigenista que asseguras-
se a defesa das fronteiras nacionais, os Ianomâmi, por exemplo, poderiam querer for-
mar uma comunidade independente. \u2018E quem então seguraria os outros que se seguiriam?\u2019.
Finalmente, a terceira razão seria a defesa da miscigenação: \u2018Por que evitar o futuro? Os
índios, mais cedo ou mais tarde, haveriam de se misturar aos brancos. Então, por que es-
sa vontade da igreja em impedir que os garimpeiros entrassem nos territórios indígenas?\u2019. 
Queríamos isso para impedir o esfacelamento familiar, uma vez que traziam bebida
e prostituição.
Francisco Loebens | Na medida da mobilização indígena, em aliança com setores da so-
ciedade (inclusive com o Cimi), contra o projeto das mineradoras, as empresas passaram
a compreender que, diferente do que avaliavam \u2013 que seria fácil conseguir um texto favo-
rável \u2013, teriam dificuldade em aprovar esse texto [na Constituição]. Por isso, conseguiram
a adesão de um veículo de imprensa poderoso \u2013 como o Estadão \u2013 para tentar enfraque-
cer setores que propunham uma Constituição que garantisse os direitos históricos, mas
também uma perspectiva autônoma sobre os territórios. 
_ Hoje seria improvável, senão impossível, uma campanha como essa?
Guimarães | A conjuntura é diferente, pois o movimento indígena está fracionado. Elas
[as mineradoras] têm condições de trazer lideranças indígenas que defendem a exploração
mineral por empresas. Elas sabem que existem outros componentes de variação política.
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Estadão atribui ao Cimi interesses empresariais: mineradoras agradecem
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Loebens | Acho que espaço tem. Temos meios de comunicação identificados com gru-
pos de interesses. Hoje, talvez essa campanha fosse feita de forma um pouco mais in-
teligente, porque a falsidade das informações era muito evidente. Mas acho que não es-
tá descartada essa possibilidade. De certa forma, está se fazendo essa campanha nos
meios de comunicação, mas sem identificar os atores que estão sendo denunciados. São
\u201cas ONGs de interesse internacional que atuam na Amazônia\u201d. Sempre genérico, para
que os setores que têm interesse nas terras indígenas não sejam levados a ter que com-
provar o que estão dizendo. Às vezes, cita-se algum dado esporádico sobre algum ato
de pirataria, mas em seguida já se generaliza e o endereço é certo: atingir os setores que
estão a favor dos povos indígenas. Isso fica muito evidente na forma de veiculação des-
sas denúncias. Está em curso uma desqualificação das ONGs. Não no sentido de uma
investigação profunda, sobre atividades que pudessem levar ou contrariar os interesses
brasileiros sobre a Amazônia, mas para atingir entidades que estão apoiando os direitos
indígenas e, sobretudo, o direito à terra e o uso exclusivo de suas riquezas. Não como o
Estadão fez em 1987, mas a imprensa continuamente reproduz informações sem identi-
ficar quem são os denunciáveis.
_ Depois da campanha do Estadão, vocês ainda ouvem ecos do episódio hoje?
Guimarães | Existem, e são usados; não com a mesma ênfase. Para se ter uma idéia, anos
depois, nos governos Collor, Itamar, Fernando Henrique e até hoje, há parlamentares que
fazem referência ao \u201cDiretriz Brasil número 4 ano zero\u201d. Nós sabemos que esse documen-
to reservado foi forjado pela Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. Hoje,
os atores desse órgão estão no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da Re-
pública. Tanto que esse gabinete é quem faz a secretaria do atual Conselho de Defesa Na-
cional. Esses documentos estão tramitando lá dentro até hoje. E volta e meia nós vemos
esses documentos serem utilizados por um ou outro mau-caráter. Para mim, as pessoas
que usam isso só podem ser definidas com essa qualificação: mau-caráter, bandido, sa-
fado. Há outros parlamentares, sérios, com posições de esquerda, que também se sen-
sibilizam com isso. Não com esse tipo de expediente, mas com a matriz do proble-
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ma: os índios na faixa de fronteira podem ser um problema. Os problemas enfrenta-
dos para a demarcação da Raposa-Serra do Sol são um exemplo. É a mesma matriz
da ditadura militar, passando pelo governo Sarney, a concepção do Calha Norte \u2013
que não é tão somente mais um projeto. É um programa de governo, e os militares
insistem em dizer isso.
Loebens | Um jornal como o Estadão, depois de lançar uma informação, perde o con-
trole sobre o que as pessoas vão fazer com aquilo. Daí a responsabilidade que um meio
de comunicação tem sobre o que vai veicular. As pessoas fazem uma leitura da realida-
de a partir dos meios de comunicação.
_ O atual ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, foi quem fez a defesa do Cimi
na época, não?
Guimarães | Na época, ele era presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advo-
gados, e foi quem fez a defesa. Ele entendia que o processo era menos um processo de
cunho jurídico e mais um processo de cunho político.
_ Como era o espaço que os índios tinham nos meios de comunicação, como eles eram
retratados e como são retratado hoje?
Loebens | Os índios têm mais espaço nos meios de comunicação do que tinham naque-
la época. Agora, na medida em que são reconhecidos em sua diversidade,