Vozes da Democracia
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Vozes da Democracia


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o jornalismo aqui em Sergipe?
Então, Orlando Dantas é que teve uma visão empresarial um pouco maior. Tinha o
Sergipe Jornal também, do Paulo Costa, que não era político, era advogado, mas era um
homem muito ligado à política, e como advogado, promotor e tal, ele tinha esse Sergipe
Jornal, que já tinha herdado de outros. E era um negócio interessante, ele mal circulava
uma ou duas vezes por semana, mas detinha toda a publicidade nacional. A GM, a Ford,
geladeiras, todos anunciavam nele, e deu um trabalho da peste pra tirar isso. Para mostrar
que o Sergipe Jornal e nada eram a mesma coisa, passaram-se anos.
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Orlando Dantas então, com uma visão um pouco mais à frente, chegou à conclusão
de que a Gazeta Socialista, como órgão do Partido Socialista, não iria a lugar ne-
nhum. Ela iria chafurdar no mesmo lugar em que os outros estavam, na mesma pas-
maceira, 200, 300, 500 exemplares, quando tinha uma grande tiragem, chegava a
mil, naquele momento. 
Então, ele retirou o jornal do partido, mudou o nome para Gazeta de Sergipe e começou
a fazer investimentos um pouco mais fortes. Ele também criou uma sociedade anônima,
abriu capital. Eu me recordo que naquele momento, ele vendeu 10 mil ações para mil pes-
soas, e vendeu rápido, não foi coisa que demorasse. E se capitalizou. E aí, quando chegou
o primeiro linotipo, o jornal, que era uma vez por semana, passou a ser duas, depois três
vezes, depois passou a ser diário. Então, no comecinho de 1957, quando eu entrei no jor-
nal e tinha apenas 13, 14 anos, comecei a acompanhar um pouco dessa trajetória.
Então é a Gazeta de Sergipe que vai mudar toda a trajetória jornalística do estado. Porque
se os jornais eram veículos partidários, a Gazeta já tinha um outro compromisso. Tinha
um compromisso mais sério com a política, mais sério com a notícia, já tinha um compro-
misso mais sério com a própria comunidade.
_ Quando ela surgiu, ela chegou mesmo para ser livre, diferente dos demais?
Veja bem, ela chega mudando toda uma linha, configuração, que nos jornais antigos você
cansava de abrir e na primeira página, tinha o artigo do governador Luís Garcia, que o
jornal era da UDN (União Democrática Nacional), ele era da UDN, escrevia um artigo e
ia pra primeira página, um catatau que não tinha mais tamanho. A Gazeta já mudou
o rumo da coisa. Noticiário. Você tinha o lead da notícia, o sub-lead, você tinha chama-
dinhas, a primeira página já teve um tratamento melhor.
Na Gazeta, o pessoal começou a distinguir, isso é notícia. O comentário disso aqui
está no editorial. E perseguiu os fatos do dia, da cidade, sem comentário. O seu go-
vernador era o governador. Não é esse \u201cfilho da puta da UDN\u201d, não, não tinha nada
a ver. Ele era o governador. 
Bom, mas a Gazeta sofreu e penou por uma coisa. O aspecto técnico. A linotipo, quando
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o Orlando trouxe, comprou a primeira, depois comprou a segunda, a gente tinha dificul-
dades homéricas em comprar os acessórios. Por exemplo, as magazines, os tipos de letra,
essa coisa, era problemático encontrar, era tudo complicado, às vezes quebrava a letra, pra
gente mandar buscar, aí vinha de outro tipo, você tinha que misturar uma letra com uma
outra, aí saía um carnaval no jornal, era um problema.
_ Pois bem, apesar disso, a Gazeta vingou, criou uma escola, criou um padrão de leitores,
correto? 
E desemboca em 1964. Foi uma situação terrível, 64 foi dificílimo, porque Orlando
Dantas era do Partido Socialista, toda a vida defendeu um regime ligado ao socialismo e,
naturalmente, 1964 não permitiu nada disso. 
O jornal foi fechado, sofreu um processo de censura a princípio doloroso, censuras assim
que éramos obrigados a reduzir uma tiragem de oito páginas por quatro, porque o que se
censurava, não dava... 
Pois bem, nos anos 60, a gente sofre muito com esse negócio, mas o jornal se manteve, foi
difícil conquistar anunciantes nacionais, por força de que todos eles só anunciavam no
Sergipe Jornal. Só quando o seu Paulo Costa morreu, o Sergipe Jornal fechou, aí é que a
gente conseguiu atrair um bocado desses anúncios, era o único jornal diário. Então
Sergipe passar a ter um jornal diário a partir de 1957. E essa situação vai até 1972, quan-
do a gente cria o Jornal da Cidade.
_ Quer dizer, de 1957, até 1972, esses 15 anos, só a Gazeta circulando diariamente.
Eu lhe diria que a Gazeta... Não foi uma política premeditada, mas foi massacrando.
Claro, foi fazendo jornalismo, efetivamente, fazendo jornalismo-jornalismo. Então aquele
jornalismo marrom de antes foi fechando. Não tinham por que continuar. No caso do
Correio de Aracaju, por exemplo, que era o jornal da UDN, enquanto o governo foi da
UDN, ele se sustentou bem. Quando Seixas Dória [que não era da UDN] assumiu o go-
verno, pronto. Quer dizer, a fonte era o governo do estado. Na hora em que mudou de go-
vernador, a coisa foi refluindo pra eles, aí um ano, dois anos, eles fecharam. 
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[Silvio Rocha]
Videolocadora de Ivan Valença, em Aracaju: paixão pelo cinema
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_ E a imprensa alternativa do Sudeste, como era vista em Sergipe?
Eu me lembro que em 1975, 1976, diante da crise aguda, em presença dos militares
na Gazeta, e diante do sucesso que o O Pasquim fez, que depois veio o Movimento, o
Opinião e não sei o quê, eu e mais alguns amigos pensamos em editar um jornal al-
ternativo aqui, um jornal semanal, que fosse política, entretenimento, sociedade, e
aí, o que aconteceu? Não tinha o que fazer. Pensamos em fazer em Salvador, mas se
você fosse fazer em Salvador, só a viagem para lá, naquela época, durava de dez a
doze horas.
Em 1967, inaugura-se aqui o Diário de Aracaju. É um órgão dos Diários Associa-
dos [uma das maiores corporações da história da imprensa no Brasil, fundada por
Assis Chateaubriand]. Já veio com um equipamento um pouco melhor, ficou um
pouco mais fácil fazer jornal diário. O Diário de Aracaju veio com a filosofia dos
Diários Associados, que era de ganhar dinheiro. Ou seja, era um jornal que em um
ano, um ano e pouco, o leitor entendeu isso e foi esquecendo, foi abandonando. E
a Gazeta continuou.
_ Como a composição da sociedade de Aracaju influencia nessa morte e vida dos jornais?
Aracaju é uma cidade muito curiosa, você tem a parte rica e a parte pobre, passou
da Barão [Avenida Barão de Maruim, uma das mais importantes de Aracaju] pra lá
é pobre, da Barão pra cá, é classe média e a classe rica. Então o pessoal da Barão
pra lá praticamente não lê jornal. Não tem poder aquisitivo pra isso. Aí, o pessoal
de cá sim, compra o jornal e tal. 
Há coisa de até dois anos, a gente não tinha livraria. Você queria um livro, tinha
que mandar buscar fora, ou tinha que ir a Recife, ou tinha que usar o Sedex pra re-
ceber. Não tinha livraria. 
Agora não. Agora, felizmente, tem duas. Embora sejam livrarias que explorem mui-
to a auto-ajuda. Espiritismo e auto-ajuda, vou te contar. Paulo Coelho de cima a
baixo. Mas de qualquer maneira, tá lá, é livraria e, de vez em quando, aparecem coi-
sas boas lá. 
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CENSURA E CRIATIVIDADE
_ E a questao da censura aos jornais de Sergipe durante a ditadura, como era?
Nós tivemos períodos agressivos de censura à Gazeta. O Jornal da Cidade também, já es-
távamos em 1972, em 1973. Até quando o Geisel assumiu, a gente teve censuras terríveis,
de toda a espécie, na base de bilhetinhos, de telefonema, na base de chegar lá a tropa de
choque querendo