Vozes da Democracia
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A eleição de Vicenzi, porém, só ocorreu no segundo pleito que o MOS disputou. No
primeiro, o movimento acabou perdendo a eleição, graças a fraudes operadas sobre os
votos encaminhados pelo correio. A história é contada em detalhes por Cassel em livro
lançado pelo Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina em meados de 2005, ano em
que a entidade comemorou meio século de história. A fraude da primeira eleição dá lu-
gar ao orgulho da vitória na eleição de 1987, a partir da qual, nas palavras de Karam,
\u201cconstruiu-se um novo Sindicato dos Jornalistas no estado catarinense\u201d. 
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No Paraná, Elson Faxina conta que o movimento de oposição só conseguiu vencer a
eleição para o Sindicato dos Jornalistas em 1991, na chapa em que ele figurava como can-
didato a vice-presidente. Já no Rio Grande do Sul, Rafael Guimaraens explica que \u201ca par-
tir do final dos anos 70, o Sindicato dos Jornalistas passou a ser dirigido por um grupo
de oposição, vinculando-se à Intersindical e contribuindo para a criação da CUT\u201d.
As vitórias da oposição em Florianópolis e região, nos sindicatos dos Bancários e dos
Eletricitários, são outros processos que merecem registro. A renovação fez com que
ambas entidades passassem a representar, nos anos 80 e 90, uma forma mais conscien-
te de atuação política e profissional. Além disso, a articulação de bancários e eletrici-
tários teve importância direta na derrota da ditadura, bem como as mobilizações dos
servidores públicos estaduais e professores da rede pública. A APUFSC (Associação dos
Professores da UFSC) completa o rol de entidades que, para Cassel, contribuiu bastan-
te para a redemocratização. Em sua análise, o jornalista avalia que esses movimentos
apresentaram posições iniciais mais avançadas, abrindo caminho para a chegada de
sindicatos de todas as áreas.
Para Elson Faxina, os processos que mais marcaram o período de redemocratização
no Sul foram mesmo a reorganização dos sindicatos e as mobilizações surgidas no in-
terior das universidades, especialmente no movimento estudantil. \u201cForam momentos
de muita luta, greves, pressões, tanto por lutas locais quanto por demandas nacionais\u201d.
No Paraná, Faxina destaca também a importância do movimento pela Anistia Ampla,
Geral e Irrestrita, no final da década de 1970 e início dos anos 80, \u201cque também foi
um grande momento de mobilização, mais precisamente nas capitais\u201d.
COMUNICACAÇÃO E DEMOCRATIZAÇÃO
No Rio Grande do Sul, o início da luta pela Anistia teve no Coojornal (veja matéria
\u201cCoojornal: o fim da ditadura \u2013 e da reportagem\u201d, à página 36) um de seus protago-
nitas. O jornalista Rafael Guimaraens explica que, no final da década de 1970, três ci-
dadãos gaúchos estavam presos em países vizinhos. Flávia Schilling (filha do sociólogo
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exilado Paulo Schilling) estava presa no Uruguai acusada de ligação com os tupama-
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; Flavio Koutzii (hoje deputado estadual gaúcho e ouvidor nacional do Partido dos
Trabalhadores) encontrava-se detido na Argentina, por atividades políticas, e o jorna-
lista Flavio Tavares, exilado na Argentina, correspondente do jornal O Estado de S.
Paulo, foi preso quando fazia uma reportagem em Montevidéu. O Coojornal deu toda
a cobertura jornalística à campanha pela libertação dos três, além de ter realizado im-
portantes reportagens no final de 1978, quando um casal de uruguaios foi preso em Por-
to Alegre. \u201cLilian Celiberti e Universindo Diaz atuavam numa organização que denun-
ciava a violação de direitos humanos por parte da ditadura de seu país\u201d, explica Gui-
maraens. Ele destaca que o casal foi seqüestrado numa operação envolvendo policiais e
militares uruguaios e brasileiros, \u201ccomprovando a existência de uma articulação das di-
taduras do chamado Cone Sul\u201d. 
Em um terceiro episódio, quatro jornalistas do próprio Coojornal \u2013 Osmar Trinda-
de, Rosvita Saueressig, Elmar Bones e Rafael Guimaraens \u2013 foram presos. A justifica-
tiva dos militares para a prisão foi a publicação de dois relatórios do Exército nas pá-
ginas do Coojornal, a Operação Pejussara, relatando o combate à guerrilha do Vale do
Ribeira (SP) e a Operação Registro, que tratava da caça ao capitão Carlos Lamarca no
interior da Bahia. Por ordem do comandante do III Exército, Antônio Bandeira, foi
aberto um processo com base na Lei de Segurança Nacional, que levou às prisões. Gui-
maraens explica que o caso teve repercussão nacional, \u201cjá que foram as primeiras pri-
sões com caráter político pós-Anistia e reabriram as discussões sobre liberdade de in-
formação e o direito de conhecer a história recente do país\u201d.
O destaque dado por Rafael Guimaraens ao importante papel do Coojornal no pro-
cesso de redemocratização encontra na análise do jornalista Elson Faxina uma interes-
sante complementariedade. Para Faxina, \u201cnão há um veículo que pode ser considera-
do decisivo nesse trabalho no Sul. Mas houve, no entanto, diversos veículos que cum-
priram sua função naquele momento\u201d. 
O olhar do jornalista do Paraná volta-se especialmente para o jornal Nosso Tempo,
um dos mais conhecidos no estado nos anos 70 e 80. Faxina conta que um de seus di-
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retores-editores, Juvêncio Mazzarollo, foi preso em plena década de 1980 por motiva-
ções políticas: \u201cele foi o último preso político do Brasil\u201d, afirma. De acordo com
Faxina, o jornal enfrentou, em outro momento, \u201caté perseguição do Sindicato dos Jor-
nalistas do Paraná, uma vez que seus proprietários-editores não eram jornalistas pro-
fissionais\u201d. Para que o jornal pudesse seguir seu trabalho, Faxina e mais dois jornalis-
tas profissionais \u2013 Fábio Campana e Noemi Osna \u2013 decidiram assinar o jornal como
editores por diversos anos gratuitamente.
Além de destacar a repercussão e o respeito nacional que algumas reportagens do
Coojornal alcançavam, Rafael Guimaraens explica que o fenômeno de surgimento dos
veículos alternativos da \u201cimprensa nanica\u201d no Rio Grande do Sul também ocorreu
nas décadas de 1970 e 1980, embora em escala menor do que no Sudeste. Por outro
lado, no período de redemocratização, a principal caracterísitica a se destacar da
grande imprensa no estado é que ela se manteve estreitamente vinculada ao pensamen-
to conservador e à elite, como sempre ocorreu e ainda hoje ocorre. Segundo Guima-
raens, \u201ca grosso modo, o grupo Caldas Junior, do tradicional Correio do Povo, era
porta-voz do capitalismo rural, enquanto o grupo RBS relacionava-se com um tipo de
capitalismo mais moderno\u201d. 
O processo de redemocratização do País fortaleceu a certeza da necessidade de se de-
mocratizar os meios de comunicação no Brasil também. Em Santa Catarina, o profes-
sor da UFSC Francisco Karam destaca o surgimento da Frente Nacional por Políticas
Democráticas de Comunicação, em 1984. Karam explica que a Frente, surgida no âm-
bito do curso de Jornalismo da UFSC, era liderada pelo jovem professor Daniel Herz.
A Frente deu origem ao Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e ho-
je Herz é representante da sociedade civil no Conselho de Comunicação Social do Con-
gresso Nacional.
Outros nomes que tiveram papel importante no processo de democratização da co-
municação junto a Herz foram Airton Kanitz, Celzo Vicenzi e Sérgio Murillo de An-
drade, sobretudo no processo de reformulação da atuação política e profissional dos
jornalistas catarinenses no período.
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A importância do papel de Herz é reforçada pelas palavras do jornalista Gastão Cas-
sel: \u201cMe lembro que